Médio Oriente: «Situação continua a ser muito grave em toda a Faixa de Gaza», descreve o padre Gabriel Romanelli

Pároco católico da região adverte que «guerra ainda não acabou» e denuncia circunstâncias em que as crianças vivem 

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 10 fev 2026 (Ecclesia) – O padre Gabriel Romanelli, pároco católico de Gaza, alertou que o cenário na região permanece crítico, marcado pelo sofrimento da população, e sublinhou a urgência do fim da guerra.

“A situação continua a ser muito grave em toda a Faixa de Gaza”, afirmou o sacerdote, em declarações à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), divulgadas hoje, lançando também um apelo à oração, à promoção da justiça e da paz e ao contributo com apoio material à população.

O pároco católico de Gaza confirma que “alguns bombardeamentos continuam”, nomeadamente “atrás da Linha Amarela”, que designa a fronteira militar estabelecida na altura do cessar-fogo de 10 de Outubro de 2025.

De acordo com a FAIS, esta separa as zonas controladas por Israel, a leste e a sul, da zona controlada pelo Hamas a oeste, onde se situa a Paróquia da Sagrada Família da cidade de Gaza, parte do Patriarcado Latino de Jerusalém.

“Casas foram destruídas, mortes e feridos continuam a ser registados”, relatou.

O padre Gabriel Romanelli salienta que “a guerra não acabou, mesmo que os meios de comunicação social façam parecer que sim”.

As fronteiras fechadas, as infraestruturas de eletricidade e água destruídas, a água frequentemente mal tratada, mal armazenada ou contaminada durante o transporte ou a distribuição, algo que favorece a propagação de doenças, são, para o pároco católico de Gaza sinais desprovidos de esperança face ao futuro.

“É absolutamente essencial que a guerra acabe. Parece que ninguém no mundo está realmente a envolver-se nisto de forma eficaz. Os 2,3 milhões de habitantes de Gaza precisam, no mínimo, de condições humanas básicas para reconstruir as suas vidas”, defendeu.

O padre Gabriel Romanelli descreve que “há muitas pessoas doentes e feridas sem acesso a cuidados médicos adequados ou que aguardam para poder sair do enclave para receber tratamento, porque o sistema hospitalar tornou-se um fantasma”.

A situação das crianças é preocupante, registando-se 100 mortes nesta faixa etária naquela zona desde o início do cessar-fogo, ou seja, quase uma por dia, revelam informações da UNICEF, transmitidas pelo padre de Gaza.

“Elas não morreram de causas naturais”, realçou, referindo-se às consequências diretas dos bombardeamentos, mas também ao frio e às condições insalubres.

O sacerdote dá conta que “as doenças respiratórias e digestivas estão a multiplicar-se” e que todos adoecem “mais de uma vez”, incluindo o próprio que recentemente recuperou de “uma gripe virulenta”.

“As epidemias estão a piorar devido à falta de aquecimento, abrigo adequado e medicamentos”, conta.

Segundo explica, as chuvas torrenciais também acentuaram as dificuldades na região: “A maioria dos edifícios foi demolida e os que ainda estão de pé são muito frágeis”.

“Um dos nossos professores perdeu cinco membros da sua família num desses colapsos”, acrescentou.

Relativamente à ajuda humanitária, o pároco católico de Gaza dá conta que “desde o cessar-fogo, os bens conseguem chegar, mas continuam inacessíveis a uma população sem meios financeiros”.

“A ajuda é, portanto, indispensável e deve ser intensificada. Alimentos, cobertores, produtos essenciais, medicamentos… as necessidades são imensas”, assinalou.

Nesse sentido tem contribuído o Patriarcado Latino de Jerusalém que, de acordo com padre Romanelli, “continua a fazer um enorme bem a milhares de famílias em Gaza”, agradecendo aos amigos e parceiros internacionais, como a FAIS.

Segundo a fundação pontifícia, também a educação foi afetada: antes da guerra, as três instituições católicas pertencentes ao Patriarcado Latino e às Irmãs do Rosário acolhiam cerca de 2.250 alunos, mas apenas 162 crianças puderam retomar as aulas

“O principal problema é o espaço”, indica o padre, “porque os refugiados estão alojados nos edifícios escolares”.

Apesar de todas as dificuldades, a vida espiritual continua a ser um pilar essencial na vida da paróquia.

“O coração da nossa vida é sempre nosso Senhor na Eucaristia”, diz o padre Gabriel.

LJ/OC

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