No dia em que o Papa chega ao Líbano, encerrando um períplo de três dias pela Turquia, onde assinalou os 1700 anos do Concílio de Niceia, olhamos para este pontificado do Leão XIV, marcadamente virado para o ecumenismo. Para nos ajudar a ler os sinais desta viagem e os desafios da unidade dos cristãos, é convidado da Renascença e da Agência Ecclesia o presidente do Conselho Português de Igrejas Cristãs – COPIC

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
Comecemos por este momento histórico na Turquia. O Papa Leão XIV escolheu assinalar os 1700 anos do Concílio de Niceia no terreno, no Oriente. Sendo este o concílio que nos deu o credo, que ainda hoje une a maioria das igrejas cristãs, que leitura faz deste gesto do Papa?
É um sinal mais forte para o movimento ecuménico?
Eu penso que sim, na medida em que sabemos que o Papa Leão XIV, nesta sua deslocação à Turquia, teve um encontro com o Patriarca Bartolomeu e participou em diversas celebrações ecuménicas e tudo isso tem um significado muito importante. E a sua presença na cidade de İznik, que é a antiga Niceia, marca a importância do Credo de Niceia para todas as igrejas e para a identidade cristã. Esta ida do Papa ao Oriente permite, de certo modo, que os dois pulmões da Igreja de Cristo, o pulmão ocidental e o pulmão oriental, se reúnam e estreitem também os seus laços, afirmando o Credo de Niceia como uma base e um critério de referência para o caminhar das igrejas.
Aliás, há uma expressão muito bonita que o Papa usa na sua Carta Apostólica, que é unidade na trindade e trindade na unidade, ou seja, há uma unidade que nos identifica, que é a unidade que provém da família da Santíssima Trindade, mas é uma unidade que deve ser vivida na diversidade das diversas tradições eclesiais. Esta expressão unidade na trindade e trindade na unidade, pressupõe também que, acima de tudo, nesta viagem em que se invoca o Concílio, o Papa está a apontar para o caminho que urge fazer para o futuro, que é um caminho também de integração, da diversidade das igrejas e das diversas tradições, com os seus carismas e os seus dons e recursos.
Estava a falar de algo que o Papa levou na bagagem para esta viagem, a Carta Apostólica na unidade da fé. Nessa Carta de Leão XIV deixa votos para que os cristãos sejam sinal de paz e instrumento de reconciliação. Num mundo tão fragmentado como o nosso, as igrejas cristãs têm conseguido ser esse instrumento?
Eu penso que sim. Quem está atento ao papel das diversas igrejas, nomeadamente em conflitos de guerra, em zonas de guerra, como é o caso de Gaza, no próprio Sudão, no norte de Moçambique e em muitos outros sítios, nós percebemos que verdadeiramente quem fica com aqueles que estão a sofrer são os cristãos, são as igrejas, são as suas missões, são as suas comunidades. E nesse ficar, no fundo, uma vivência encarnada da fé, os cristãos e as igrejas ajudam aqueles que sofrem e procuram ser também instrumentos de reconciliação entre as partes envolvidas.
Portanto, eu acho que há diversos níveis no trabalhar a paz. Acho que é muito importante que as figuras, os líderes religiosos possam efetivamente denunciar aquilo que está mal, propor novos caminhos, mas há uma presença efetiva dos cristãos junto daqueles que sofrem numa procura de reconciliação. E hoje já se percebeu que, ficando e estando com os mais necessitados, a igreja, e neste caso também os cristãos, devem intervir e propor soluções para os conflitos.
E o Papa aterra hoje no Líbano, num contexto de extrema fragilidade regional, com o conflito em Gaza e também no sul do Líbano. A presença física dos líderes religiosos nestas zonas de conflito é apenas simbólica? Ou acredita que pode efetivamente abrir canais diplomáticos que a política tradicional não tem conseguido?
Naturalmente abrirá canais diplomáticos. Sabemos que o Vaticano e as igrejas têm muita influência a estes níveis, mas eu acho também que o simbolismo é muito importante. Tocou-me muito o facto de o Papa também orar naquele lugar que foi um lugar de destruição no porto de Beirute e vai fazer um tempo de silêncio, de recolhimento e de oração. E quando nós sabemos que passados já cinco anos deste terrível acidente não houve ainda justiça para aqueles que sofreram, só esse facto de estar é uma forma também de se solidarizar com todos aqueles que sofreram e continuam a sofrer com esse terrível desastre que se verificou.
Por isso, eu acho que a presença dos líderes é muito importante. Eu relembro aqui, por exemplo, a presença do Papa Francisco, de Justin Welby e de outros líderes cristãos quando se deslocaram em conjunto ao Sudão do Sul e se reuniram com os chefes das diferentes milícias e, acima de tudo, lhes lavaram os pés. Portanto, há sinais que são sinais muito poderosos que vão até para além, no seu poder e na sua mensagem, vão para além daquilo que são os tradicionais canais de diplomacia porque a paz cristã visa, efetivamente, a reconciliação, portanto, não apenas uma paz temporária, mas é uma paz que busca a transformação do coração e das vidas e, portanto, os líderes religiosos estão a fazer isso.
Apraz-me muito que o Papa Leão XIV também se tenha reunido com o patriarca Bartolomeu I porque aquilo que os líderes puderem fazer em conjunto devem-no fazer em conjunto e isso é um forte sinal para o tempo de hoje.
Falou do Líbano onde recentemente tivemos intervenção militar israelita, a pergunta também lembrava Gaza onde a Igreja Anglicana tem, historicamente, uma presença de solidariedade e de ação social e eu pergunto-lhe como é que olha para esta situação, este arrastar do conflito?
Recentemente nós tivemos um membro do nosso colégio que esteve na sexta conferência de fé e ordem que decorreu no Egito e onde estavam os cristãos de Gaza e ele veio muito impressionado com o testemunho dos cristãos que disseram qualquer coisa como isto: não estejam preocupados connosco porque Deus está connosco, o que nós questionamos é onde está a humanidade. E eu achei muito interessante este pensamento no sentido de que a presença dos cristãos nestes lugares de destruição é uma presença de esperança e lembramos que os cristãos e as igrejas dirigem hospitais, dirigem escolas, dirigem todo um conjunto de instituições que permaneceram apesar de bombardeadas, por isso é nestes sinais, nestes testemunhos destes mártires poderemos dizer que nós encontramos também a interrogação para a nossa fé para um maior compromisso, portanto é nos locais de conflito que nós percebemos a presença de Deus e das igrejas num testemunho de vida total que muitas vezes é um testemunho de mártires.
Como Presidente do COPIC acredito que olhe com particular interesse para o que é o ecumenismo aí no Porto, com uma comissão Ecuménica própria, que reconhecidamente é das mais ativas do país, tem muitas iniciativas, já em dezembro vai ter os cantares ecuménicos de Natal nas ruas. O que é que o Porto tem diferente?
O Porto tem uma cultura ecuménica que provém dos anos 60. Para nós compreendermos o tempo de hoje nós temos de recuar um bocadinho e perceber que desde os anos 60, e nomeadamente após o impulso dado à unidade dos cristãos pelo Vaticano II, houve figuras das diferentes igrejas ecuménicas que estão no Porto que se começaram a reunir para orar, para se conhecerem e começaram a desbravar desde então um caminho e um trabalho de confiança. Essa cultura ecuménica foi passando, graças a Deus, pelos diferentes líderes das igrejas e nomeadamente pelos bispos do Porto e foi sendo assumida também pela presença no grande Porto da Igreja Metodista, da Igreja Lusitana, da Igreja Evangélica Alemã e agora recentemente também com a Igreja Ortodoxa.
Por isso nós herdamos uma herança que tem sido alimentada por ações concretas e nomeadamente também se soube fazer em cada ano aquilo que nós chamamos de um roteiro ecuménico no grande Porto que concretiza a vivência ecuménica em várias áreas, desde a área social, a área da oração, a área dos jovens e que portanto vai dando uma vida e vai, digamos, tornando o ecumenismo como algo natural a ser vivido, a unidade na diferença, a confiança e as amizades que se geram. E, por exemplo, nós iremos agora em dezembro fazer uma coisa tão simples como esta que é os líderes das várias igrejas aqui no Porto, juntamente com os membros da Comissão Ecuménica do Porto, vão-se encontrar para, na ambiência de Natal, jantarem em conjunto e estarem juntos à volta da mesa. Portanto é por aí que passa também o caminho.
E porque é que não é possível replicar esta realidade noutras zonas do país, na sua opinião
Ela é replicada, muitas vezes não é conhecida. Por exemplo, eu sei que na zona centro há uma grande relação entre as igrejas e também se traduz depois numa vivência também muito interessante. O que acontece muitas vezes no nosso país é que a realidade das igrejas é muito diversa.
Por exemplo, há igrejas que não estão muito interessadas na questão da vivência ecuménica e muitas vezes também faltam parceiros e igrejas que possam se comprometer também nesta unidade. Mas, eu diria, por exemplo, hoje na zona da Grande Lisboa assistimos, eu chamaria ao reavivamento ecuménico, com muitas iniciativas que têm acontecido e que têm congregado cristãos de diversas igrejas.
Mudando de tema para uma área onde a convergência ecuménica costuma ser forte, a defesa da criação. D. Jorge acompanha de perto estas questões, e olhando para os resultados da COP30, sente que os alertas conjuntos das igrejas cristãs, católica, anglicana, ortodoxa, estão a ter eco ou há alguma desilusão com a falta de ação política global?
Nós sabemos que os cristãos e as diversas igrejas estiveram muito presentes na COP30. Foram diversos os movimentos ecuménicos que estiveram presentes, com celebrações conjuntas, com vigílias também e também com propostas. Isso naturalmente introduziu na agenda da própria COP e nas decisões que vieram a ser tomadas temáticas que as igrejas souberam também introduzir, nomeadamente a questão por exemplo dos povos indígenas.
Portanto, valorizar a riqueza cultural, a própria espiritualidade dos povos indígenas e estamos a falar em Belém, que é o coração da Amazónia, é também um dos resultados, poderemos dizer assim, das igrejas que se abrem a uma enculturação da fé e que, portanto, também se relacionam com diversos povos indígenas e souberam fazer com que essa voz também estivesse presente na COP. Portanto, as igrejas têm dado um bom contributo, sabemos que os resultados ficaram aquém dos esperados, nomeadamente o facto de não se ter ainda definido um calendário para a eliminação das energias fósseis, mas há um caminho que está a ser feito e cá está, por exemplo, no agir conjunto pela defesa e salvaguarda da criação exprime-se também a vivência ecuménica entre os cristãos.
Eu tenho uma última pergunta que tem a ver com a nova versão da Carta Ecuménica que foi assinada ainda este mês, atualiza o documento de 2001.Fala-se explicitamente, além da grave crise climática, na defesa dos migrantes e fala da questão ecológica, da nossa crise ecológica como uma falha espiritual. Que ações concretas é que as igrejas cristãs em Portugal estão a tomar ou podem tomar para que este compromisso de ação não fique apenas no papel?
Sim, eu posso dizer que em janeiro próximo a Conferência Episcopal Portuguesa e o Conselho Português de Igrejas Cristãs vão lançar publicamente e no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, 2026, vão lançar a edição portuguesa da Carta Ecuménica. E ao lançar esse documento vamos procurar também estabelecer um compromisso de ação para os próximos anos, nomeadamente, e como referiu e bem, na área da migração, que é uma área na qual as igrejas já estão envolvidas e onde vai ser possível também unir-se esforços na defesa da dignidade do migrante, na defesa das comunidades migrantes e dizendo claramente que os migrantes têm um papel na sociedade portuguesa dando e recebendo.
Portanto, as igrejas abrem-se a essa diversidade cultural, linguística e aceitam-na como uma riqueza e já o estão a fazer, acolhendo as comunidades também no seu seio. Por outro lado, nós vamos dar também continuidade ao Eco-Igrejas Portugal, que como sabem, foi também já assinado pelas igrejas e neste momento temos um instrumento já muito valioso que vai sustentar a ação das igrejas, das comunidades e das instituições através do Eco-Igrejas Portugal, que é uma ferramenta digital que visa a sustentabilidade ambiental das nossas comunidades. Por isso, esse é já um caminho que está a ser trilhado e eu peço que as comunidades e as igrejas acolham esta proposta do Eco-Igrejas Portugal, que em si é uma expressão também do ecumenismo.
Tornou-se um imperativo em Portugal a defesa das comunidades migrantes?
Claro que sim. Jesus Cristo acolheu a diferença, ele próprio foi um migrante e em cada migrante, independente da sua cor, da sua cultura, religião, nós vemos a pessoa também de Jesus Cristo, vemos um irmão, vemos uma pessoa da família humana, vemos alguém que tem uma dignidade própria e devemo-lo afirmar, nomeadamente no contexto em que estamos a viver, em que algumas vozes procuram ostracizar e colocar de lado aqueles que são diferentes só pelo facto de serem diferentes. E nesse sentido, as Igrejas, fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo, fiéis à dignidade de cada pessoa, unem-se também para acolher o migrante e acolher também tudo aquilo que os migrantes nos podem dar para a própria vivência da vida e da fé.
