Mais do que uma crónica, um testemunho, um agradecimento.

Padre Hugo Gonçalves, Diocese de Beja

Caro ou cara leitora, perdoe-me este tom coloquial, pois as linhas que agora escrevo, não são em forma de crónica ou de artigo, mas em forma de testemunho sentido e agradecido com a experiência que há poucos dias vivi e que convosco quero partilhar. Faz de conta que estou diante de si, a partilhar consigo, em conversa amiga, os dias que vivi com mais de cinquenta jovens.

Tudo começou há uns meses, quando o meu telemóvel tocou e era o Miguel – o Miguel é um jovem de quem sou amigo e que me levou a celebrar a Eucaristia para jovens do ensino superior na cidade de Beja – ele disse-me mais ou menos isto: ‘Padre Hugo, nós vamos realizar a Missão País em Fevereiro, em Vila Verde de Ficalho, e gostaríamos que nos acompanhasse. No ano passado tivemos o Pe. José Maria Brito (sj) a acompanhar-nos na primeira Missão País do Instituto Politécnico de Beja, mas o Senhor chamo-o para junto de si… Como o Pe. Hugo já o substituiu nas Missas do estudantes, não quer vir connosco? Gostaríamos muito!’  E assim, no pouco tempo que mediou a pergunta e a minha resposta, misturaram-se sentimentos no meu coração: o de surpresa, porque genuinamente não esperava tal convite; o de confiança, porque sei que é desta forma – de surpresa – que o Senhor nos chama e desafia a fazer algo com Ele; o de gratidão e de louvor, por Ele me ter escolhido por meio deste jovens. A resposta levou segundos: ‘Sim, Miguel! Eu quero ir e estar convosco em Missão.’ Daí a uns dias, poucos, era contactado pelos chefes gerais – a Bia e o João – para acertamos pormenores daquilo que pretendiam de mim – afinal eu era ‘caloiro’ nestas andanças de Missão País.

Devo de referir que eu, enquanto pároco, já tinha recebido em duas paróquias, a Missão País, mas uma coisa é receber, outra completamente diferente e por isso tratei de colocar os jovens que iam participar e a comunidade que ia recebe-los pela segunda vez, nas minhas orações – ‘Fiat, Senhor!’

Finalmente chegou o dia – Domingo, 16 de Fevereiro. E lá rumei eu em direção a Ficalho. Na bagagem, além da roupa, livros, túnica e estolas, levava também a alegria e a expetativa daquilo que Deus me e nos reservava para estes dias – ia de coração aberto e com a alegria que os cristão vivem a sua vida. Quando cheguei já estavam todos reunidos no salão…fui apresentado e acolhido com entusiasmo, como um amigo que há muito conhecemos e que esteve fora e agora regressa. Também aqui devo mencionar que só conhecia alguns dos que lá estavam, pois outros vieram de outras instituições do ensino superior fora da Diocese de Beja – por isso a minha surpresa com o caloroso acolhimento. Começámos a Missão com a Eucaristia – afinal é o Senhor que nos chamou e nos enviou; é Ele o centro de toda a Missão e é d’Ele que em cada dia nos alimentamos com a Palavra e o Pão da Vida, para permanecermos n’Ele e Ele em nós, para que a Missão resulte.

Não foi necessário muito tempo para que Deus me surpreendesse nestes jovens. Alguns deles converteram-se com a primeira Missão País e foram e estão a crescer na fé, na amizade com Jesus, outros estavam agora dispostos a fazer esse caminho e outros sempre viveram e alimentaram a sua fé; em suma, ‘havia de tudo’, mas sobre tudo havia a genuína vontade de abrir os corações a Cristo, como dizia o Papa João Paulo II, e a prova disso manifestou-se logo nas primeiras orações, nas partilhas e na forte amizade que de forma tão natural e ao mesmo tempo surpreendente pela rapidez como se contruiu. Nesses dias pude conversar com todos, de ouvir testemunhos em momentos de oração, que me deixaram comovido – algumas vidas marcadas pelo sofrimento, por cruzes tão pesadas e exigentes, que diante de Deus Lhe perguntei: ‘Senhor, como podes deixar que vidas tão novas e frágeis, carreguem uma cruz assim!?’ A resposta vinha nesses mesmos testemunhos – a certeza que o Senhor está sempre com eles. A geração ‘Z’ que tanto ouvia falar, criticar, estava a mostrar-me que nem sempre as o que se diz dos jovens é totalmente verdade. Permitam-me que partilhe aqui alguns exemplos:

1º A nova vida do ‘Tunico’. O Tunico é um ‘homem feito’, mais velho que estes jovens, que vive com mais três irmãos; é um homem simples, com problemas e a quem estes jovens, na anterior Missão, não só recuperaram a casa, como com isso lhe restituíram a vida, uma vida nova. Tal foi a mudança na vida do Tunico, que Jesus por meio destes jovens operou, que este ano, a titulo extraordinário, participou connosco…a entidade patronal dispensou para estar com estes jovens toda a semana… e também ele pode, nesta Missão, retribuir a outra família, aquilo que recebeu – fez parte da comunidade que recuperou a casa de uma mãe e de dois filhos. O Tunico participou em tudo: de manhã já lá estava para tomar o pequeno-almoço connosco, para rezar, trabalhar, almoçar, novamente rezar, trabalhar, terço, Missa, jantar e oração. O Tunico era um de nós e contagiava-nos com a sua alegria e simplicidade.

2º Outra vida tocada por estes jovens foi a do Luisinho. O Luisinho é um menino-jovem, pois tem vinte e cinco anos, mas tem uma deficiência cognitiva e tem autismo; é possante corporalmente, mas meigo e doce. O Luisinho já tinha ficado encantado por estes jovens, no ano anterior e a sua mãe pediu-nos se ele podia estar connosco ao longo destes dias – foi um desafio e uma bênção que o Deus nos deu – nós dissemos que sim. Esta mãe confiou-nos o seu filho que, como ela dizia, não tinha amigos. Tal como o Tunico, vestimos-lhe a t-shirt da Missão País, colocámos-lhe a Cruz… e não podem imaginar a alegria dele…de nos levar literalmente às lágrimas. O Luís era sempre o primeiro a chegar…também tomava as refeições connosco e connosco rezava; um dia, a mãe foi dar com ele a preparar o saco de cama, as suas coisas…queria ir dormir, ficar com os meninos – o Luisinho não tem muitas palavras, pouco sabe falar…fala com os abraços, com o sorriso e o toque no nariz daqueles que ama. Não sei…quero dizer…sei: estes jovens deram alegria e vida ao Luisinho, mas ele deu-nos imensamente mais – ele deu-nos Jesus que se revela nos pequeninos.

3º O começo de uma nova vida de uma família de uma mãe e dois filhos jovens adultos. Grande foi o desafio da comunidade que teve por diante a árdua tarefa de renovar a casa desta família. Uma família que não abria as portas a ninguém, que necessitava urgentemente de ajuda…a tarefa era de transformar a casa, torna-la habitável e transformar as vidas. Deus tocou esta família que acedeu em abrir as portas e em deixar-se ajudar…tiveram de derrubar paredes, fazer novas e colocar telhado (com a preciosa ajuda da Junta de Freguesia)…tudo feito com alegria, musica e sobre tudo amor. A meio da semana, esta mãe e um dos seus filhos, foi ao terço…no outro dia à Missa…depois foram ao teatro, com banhos tomados e ele de barba feita. No Domingo, um jovem foi com eles ao meu encontro com um sorriso largo – queriam agradecer. Disse-lhes: ‘não é a mim que devem de agradecer, é a estes jovens, eles é que fizeram tudo’.

Estes foram oito dias intensos, quer pelo trabalho, quer pelas poucas horas dormidas, mas sobre tudo pelo experiência que fizemos com Jesus, no encontro com de uns com os outros, com as pessoas de Ficalho, com as vidas tocadas e transformadas. Da minha parte só tenho a agradecer  muito a Deus por estes dias, por o ter encontrado no rosto e nas de cada um destes jovens – com eles ri, cantei,  rezei, celebrei a Eucaristia, com eles muitas vezes me comovi, nos abraçámos. No final da Missão, reunidos em circulo num relvado, quis abraçar cada um deles, e agradecer-lhes por tudo quanto fizeram a estas pessoas e a mim…eles tornaram-se minha família…e no silêncio da oração que fiz no carro, já de regresso a casa, veio-me ao coração de forma clara e intensa, as palavras do Evangelho: “Não perdi nenhum daqueles que me deste”. Compreendo-as como um desafio a ajuda-los a manterem-se  unidos a Jesus e uns aos outros, sustentados pela oração, Eucaristia, Confissão e pela amizade.

A todos eles dedico este meu publico testemunho, a amizade, o carinho e a oração – vamos estar juntos e unidos. A todos aqueles que tiveram a paciência de ler estas longas linhas de texto, sobre tudo aos meus irmãos sacerdotes: deixemos que os jovens sejam verdadeiros protagonistas na Igreja, escutemo-los, confiemos neles, acompanhemo-los com a nossa amizade e paternidade e seremos sempre surpreendidos por aquilo que Deus nos dará por meio dos jovens.

 

Pe. Hugo Gonçalves

Diocese de Beja

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