Luta pela dignificação dos imigrantes é prioridade das Igrejas ibéricas

O drama vivido no estreito de Gibraltar é um exemplo da situação desumana que muitas pessoas experimentam na procura de uma vida melhor A Igreja Católica em Portugal e na Espanha quer ver em prática uma atitude de acolhimento e integração para com os estrangeiros que procuram estes países em busca de melhores condições de vida, protegendo de modo especial os que se encontram sem documentos ou em situação irregular. “As duas Igrejas consideram que o apoio jurídico aos imigrantes, sobretudo aos ilegais ou irregulares, é o maior desafio que lhes é colocado”, diz à Agência ECCLESIA o Pe. Rui Pedro, director da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM). Esta preocupação está patente no Encontro Nacional dos Secretariados Diocesanos da Pastoral de Migrações (SDPM), a decorrer em Évora desde esta segunda-feira. Igreja em Portugal e Espanha: perspectivas de acolhimento e de integração” é o tema que orienta os trabalhos, até ao próximo dia 15 de Julho. Portugal e Espanha conheceram mudanças semelhantes na Emigração e na Imigração ocorridas na última década, tornando-se países de acolhimento e não apenas de partida de migrantes, à procura de uma vida melhor. A Ir. Pilar Samanes Ara, directora do Secretariado Nacional da Comissão Episcopal de Migrações de Espanha, refere que, atendendo a esta nova situação, “é importante foi partilhar critérios, no que diz respeito à pastoral junto dos emigrantes e dos imigrantes, para favorecer a integração dos que chegam ao nosso país e o acolhimento dos que partem”. A Espanha tem, neste momento, mais de um milhão de imigrantes em situação irregular e o nosso país conta com 100 mil pessoas que aguardam regularização. O trabalho junto dos imigrantes implica, assim, uma grande exposição dos seus responsáveis, sobretudo na hora de criticar e denunciar políticas ou situações menos de acordo com a dignidade da pessoa. Para a Ir. Pilar Ara, é evidente que “é muito menos arriscado o anúncio de que é possível um mundo inter-cultural do que a denúncia de situações que vão contra esse mundo, mas esta última é igualmente evangélica”. “O próprio João Paulo II insiste nesta necessidade de se promover a justiça, e a verdade é que quando as pessoas chegam nas condições em que chegam ao Sul de Espanha, por exemplo, estamos diante de uma situação desumana, de falta de respeito absoluta pela dignidade humana: aí é preciso denunciar”, acrescenta. O director da OCPM vinca ainda que o fundamental na identidade dos imigrantes “não é tanto a cultura ou a língua diferente, mas a condição operária, o que nos leva a insistir que o trabalho nas migrações tem muito a ver com a promoção humana”. Os trabalhos vão ter como pano de fundo a recente Instrução sobre as Migrações do Conselho Pontifico para a Pastoral dos Migrantes e Refugiados – “Erga Migrantes Caritas Christi” -, assim como vão ser lançadas as bases da preparação do Encontro Mundial das Comunidades (Porto, 29 a 31 de Março de 2005), com vista a relançar urgentemente a atenção pastoral das Dioceses portuguesas para com as Missões/Comunidades Católicas Portuguesas dispersas pelo mundo e a coordenar a acção em prol das Comunidades Imigrantes no país. “Portugal mantém o fluxo da emigração ao mesmo tempo que recebe imigrantes, algo que é quase inédito no mundo, pelo que temos mantido nos SDPM a inquietação da emigração”, explica o Pe. Rui Pedro. A morte no Estreito de Gibraltar Gabriel Delgado Alvarez, director do Secretariado diocesano das migrações de Cádiz e Ceuta, lida de perto com o drama dos africanos que tentam cruzar o Estreito de Gibraltar, em busca do “el Dorado” espanhol. Todos os anos milhares de imigrantes africanos atravessam o Estreito de Gibraltar em embarcações frágeis, e milhares morrem no caminho. O trabalho da Igreja e de outras organizações, nestas ocasiões, é segundo este responsável, o de “mostrar o rosto de uma Europa solidária, humana, acolhedora”, segundo Gabriel Alvarez. “Fazemos o que podemos fazer, que é a primeira atenção às necessidades mais urgentes. Se pudermos ajudar para a integração dos imigrantes, é certo que o faremos”, assegura à Agência ECCLESIA. Estima-se que cerca de 4.000 pessoas tenham morrido ou desaparecido desde 1997 no Estreito de Gibraltar e nas águas do Atlântico entre a África e as Ilhas Canárias, que pertencem à Espanha. O Secretariado diocesano das migrações de Cádiz e Ceuta vai agora lançar uma nova iniciativa para fazer face a estas situações: vai trabalhar directamente no Norte de Marrocos, em colaboração com organizações locais. O novo programa da Igreja espanhola pretende passar uma mensagem muito específica: “não façam esta viagem clandestina, pelos perigos que ela representa”. “Em Espanha, a situação de irregularidade também trará problemas de pobreza, desemprego, de falta de habitação: estar sem documentos é estar sem direitos”, refere este responsável. “O que mais nos choca é estarmos tão perto de Marrocos, a menos de 15 quilómetros, e que os imigrantes, ao não conseguirem passar de forma legal para Espanha, utilizem outros meios para chegar à costa, em condições muito difíceis que provocam, regularmente, grandes tragédias”, revela. O facto de os imigrantes se apresentarem em situação de irregularidade não irá, contudo, fazer com que a Igreja se afaste deles. O nosso entrevistado explica que “o imigrante é uma pessoa, acima de tudo, documentado ou não, regular ou irregular, legal ou ilegal, e nós iremos lidar com a pessoa”. A Ir. Pilar Ara vai mais longe e explica que “podemos mesmo dizer que Deus está presente na imigração mais do que em qualquer outra realidade actual na Espanha”.

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