LUSOFONIAS – Missão ‘quente’ no extremo norte

Tony Neves, no Extremo Norte dos Camarões

Rumei ao extremo norte dos Camarões, lá onde o deserto do Sahara está mais próximo, o mesmo se diga do coração do mundo islâmico. Por isso, estranhei a ‘brisa ligeira’ que me acolheu à chegada, em vez do sol escaldante e abafado que eu esperava em Maroua (a 1157 kms de Yaoundé – por terra, seriam cerca de três dias de viagem!!). Basta dar uma pequena volta às povoações para percebermos que a maioria do povo que ali vive é muçulmana, embora as Igrejas cristãs sejam igualmente fortes. Mas os esforços de diálogo entre os crentes destas duas Religiões são notáveis e têm trazido frutos palpáveis.

Recuemos um pouco no tempo e no espaço. A última comunidade Espiritana que visitara foi o Noviciado da África Central, nas periferias de Mbalmayo, a uns 50 kms da capital. Ali estão 14 jovens em Formação, vindos do Gabão, Congo-Brazzaville, Rep. Centro Africana, Nigéria, Benin e, claro está, Camarões. É enorme a riqueza de tanta diversidade. Tive direito a visita guiada ao centro da cidade, a começar pela Catedral, construída pelos Espiritanos. Percorremos as salas e corredores do grande Hospital do Santo Rosário, estivemos no Paço Episcopal e andamos pelo mercado popular, a rebentar pelas costuras de um movimentado povo que compra, vende e regateia muito.

No fim, viajei para Yaoundé de onde voei para o extremo Norte, onde encontrei – como já disse – uma realidade humana, religiosa e climática muito diferente do resto do país. Partilho então estes dias tão acelerados, mas tão marcados por um testemunho de compromisso missionário radical, tal a dificuldade – a todos os níveis – da Missão que ali se vive.

Aterrado em Maroua, fui levado pelos Espiritanos até Guémé, a Missão mais distante, situada na fronteira com o Chade. Foram 6 horas e meia aos saltos e a comer muita poeira. O bom destas viagens são as conversas e as paisagens. A terra é árida, mesmo assim cultivam o ‘karal’ (sorgo), um cereal cuja planta se assemelha ao milho e que não precisa de água para produzir. Há muito algodão e arroz, cultivando igualmente, com sistemas de irrigação tradicionais, cebola e cenoura. As casas são pequenas e feitas de adobe de argila com cobertura de folhas. Há muito gado a circular: bois, ovelhas, cabras, porcos, galinhas e até burros. Paramos em Kaelé para comer, em plena rua, uma carne assada, um dos almoços mais saborosos da minha vida, pois já eram 14h30 e o apetite é o melhor tempero! Visitamos em Guidguis, uma comunidade de Irmãs Brasileiras que fugiram de Guemé há oito anos, quando o Boko Haram ameaçava atacar e fazer reféns os missionários estrangeiros. Ainda tivemos direito ao rebentamento de um pneu, mas chegamos sãos e salvos.

Passar um domingo em Guemé foi graça, pois participei numa Eucaristia muito animada, na Igreja ao ar livre, um espaço cheio de árvores que, com um ligeiro vento, se torna muito acolhedor. Os textos bíblicos e os cânticos foram, na maioria, em Massá, a língua daquela região fronteiriça. Embora esteja tudo seco – confessava um líder local – ‘aqui neste extremo norte tudo é extremo: o calor e o frio, a seca e as chuvas, a brisa leve e o ‘harmattan’, esse vento quente e violento que dobra as árvores e até arrasta os carros!’. De facto, a terra é argilosa e, quando chove, fica tudo inundado, não se podendo visitar as 44 comunidades organizadas em sete Sectores Pastorais.

A viagem seguinte foi até Mokond, na região de Maroua, área de muito sorgo e cebola. A Missão está construída no sopé de montanha. Almocei com os dois Padres Espiritanos, as 3 Irmãs Ursulinas e 5 dos Responsáveis máximos das Comunidades. Momento alto foi a visita a Kondje, uma das 21 Comunidades de Sector, onde me esperavam dezenas de pessoas que cantaram, dançaram e partilharam as alegrias e dores do dia a dia, numa área onde os muçulmanos controlam tudo. A tradução para Mufu, a língua local, foi decisiva para todos nos entendermos. Terminamos a beber juntos um ‘bilbil’, bebida fermentada feita de sorgo. Tive ainda a alegria de acompanhar o P. Adamo na visita ao projeto que ele lançou para acolhimento de crianças e jovens vulneráveis.

A etapa seguinte levou-me à Missão de Bogo, outro espaço desafiante. Usei a expressão ‘quente’, mas não me referia só às altas temperaturas que provocam a canícula na maior parte do ano. Há também a situação trágica dos ataques frequentes e bárbaros do ‘Boko Haram’, esse movimento armado de fundamentalistas islâmicos que semeiam o terror por onde passam.

E há tantas outras coisas para contar sobre este extremo norte que ali voltaremos na próxima crónica.

Tony Neves, no Extremo Norte dos Camarões

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