Os jovens foram desafiados ontem — o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza — a denunciar situações de pobreza. O apelo foi feito pelo coordenador do Núcleo Distrital de Braga da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (REAPN), Carlos Aguiar Gomes. Falando no âmbito da entrega de prémios e certificados do concurso de fotografia “Um certo olhar sobre a pobreza”, o responsável referiu que «calar é consentir». «Convido-vos à denúncia de situações de pobreza. Ousem tomar a palavra ou a imagem para denunciar com clareza e justiça situações de pobreza e fome». De acordo com Carlos Aguiar Gomes, «os números que a comunicação social tem divulgado a nível do mundo e de Portugal deixam-nos perplexos». Haver dois milhões de portugueses que vivem no limite da pobreza, em termos materiais, «é um escândalo, que não podemos Jovens desafiados a denunciar situações de pobreza admitir numa sociedade da opulência». O responsável acredita que, além destes dois milhões, «há mais pobres, que vivem perto de nós. Há pessoas que se cruzam connosco, mas que não dão a conhecer a pobreza». O coordenador do Núcleo Distrital de Braga da REAPN focou, além destes números, «a solidão, o abandono e a doença», «outras formas de pobreza, menos visíveis, mas não menos escandalosas», bem como a emergência de novos pobres, como os imigrantes. Na opinião de Carlos Aguiar Gomes, «todos podemos fazer alguma coisa para que a situação se modifique. Está na nossa mão mudar o que é possível». A «luta contra a pobreza não é pertença de qualquer grupo político, mas de todos os que se sentem homens e irmãos de todos». O coordenador do Núcleo Distrital de Braga da REAPN pensa que a existência de um Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza «tem muito de utopia, porque, se calhar, nunca se vai eliminar a pobreza. Vamos ter sempre pobres, mas será bom lutar para que o número de pobres diminua». A propósito da diferença entre ricos e pobres, que no nosso país «é muito grande», Carlos Aguiar Gomes referiu que «devemos lutar para diminuir o fosso». José Rocha, representante da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN), referiu que, em 2000, a taxa de retenção escolar no Ensino Básico no distrito de Braga era de 12,7 por cento, na área da DREN de 14,2 por cento e a nível nacional de 13,4 por cento. No que se refere ao abandono escolar, os números baseados no recenseamento da população de 2001 indicam valores de 3,9 por cento para Braga, 4,2 por cento para a Região Norte e 2,7 por cento para o país». Ao nível da saída antecipada da escola, os números são de 40,4 por cento, 34,9 por cento e 24,6 por cento, respectivamente. José Rocha lembrou que, «por trás das taxas e valores estatísticos estão pessoas. É no problema das pessoas escondidas pelas taxas que temos que pensar». Fazer pontes entre as gerações Baseando-se em palavras do Papa João Paulo II, o delegado Regional de Braga do Instituto Português da Juventude, Pompeu Martins, defendeu que, num contexto de idades e de culturas diferentes é importante saber «fazer pontes». Há muitos idosos no distrito a quem era bom dedicar uma ou duas horas por semana, para falar. «A presença dos mais jovens com eles é um bem que estamos a fazer a eles e a nós. Preocupa-me a distância entre os mais jovens e os mais idosos». Pompeu Martins sugeriu a criação de «projectos de voluntariado dirigidos à ajuda e à comunicação entre gerações», até porque «ainda há muita gente capaz de fazer muita coisa ao lado da juventude».
