Crónica de uma missionário Japão: a Paciência do Silêncio 1. Ser japonês e cristão Quando se fala do cristianismo no Japão, Endo Shusaku (1923-1996) é um nome que sobressai, principalmente pelos seus romances de grande profundidade, onde revela com frequência o seu drama: ser japonês e cristão. Segundo alguns especialistas, o percurso de Endo Shusaku pode dividir-se em três grandes épocas. A primeira fase, condensada no romance “Silêncio”, revela um Cristo que acompanha o fraco, o caído; um Cristo que sofre e é martirizado juntamente com o mártir. Passados 13 anos, o autor revela o que se poderá denominar a sua fase forte, personificada na pessoa de Pedro Kibe do romance “A Espingarda e a Cruz”. Finalmente, terá de esperar-se mais 14 anos até que surja a terceira época de Endo Shusaku, com o seu romance “Rio Profundo”, onde expressa a ideia de universalidade, movendo o palco dos acontecimentos para a cidade indiana de Varanasi, o mais sagrado centro do hinduísmo. Segundo tenho escutado de alguns japoneses, não é fácil ser-se, ao mesmo tempo, japonês e cristão. O processo de inculturação está, em variados aspectos, ainda nos seus começos. Também o tema do diálogo é espinhoso para a maior parte dos cristãos japoneses, pois a consciência de conversão continua ainda muito ligada à exigência de abandono do passado, o que inclui, muitas vezes, o doloroso corte com as tradições da família, com todas as nefastas consequências que daí advêm. Há, contudo, no meio deste deserto, algumas pessoas, tanto sacerdotes como fiéis, que estão empenhadas em interpretar o processo de conversão de forma mais lúcida, purificando-se e abandonando concepções exclusivistas, contribuindo, assim, para maior aproximação e respeito mútuo. Um desses fiéis é o meu amigo Tsuji. Casado, cinco filhos e treze netos. Foi baptizado há mais de cinquenta anos. Todos os membros da sua família são católicos. No entanto, é considerado por muitos como “especialista” em budismo, pelo que os seus cunhados budistas lhe pedem que lhes explique conceitos que eles próprios não entendem. A nossa amizade começou quando eu oficiei o funeral de um budista numa das paróquias onde trabalhava. A esposa do falecido pedira-nos que realizássemos o funeral na igreja, uma vez que o seu marido tinha tido relações de grande amizade com fiéis dessa mesma paróquia. Aceitámos, depois de havermos discutido o assunto na nossa equipa pastoral. Preparei e adaptei a homilia e as orações da celebração da Palavra, tendo em conta o facto de o defunto e toda a sua família pertencerem, por tradição, a uma das duas grandes escolas de budismo zen. Tsuji estava presente e sensibilizou-se com o facto de a Igreja Católica abrir as suas portas a um fiel de outra tradição religiosa num momento tão importante como este. Do nosso primeiro encontro nasceu uma amizade que continua a estimular-nos mutuamente a uma busca mais perene. Em abertura, acolhimento, respeito e profundidade. Pedi-lhe que me desse uma ajuda como membro da equipa do curso de catecúmenos, nos últimos meses de preparação para o Baptismo. Nas nossas sessões semanais, fiquei muitas vezes em silêncio, escutando a partilha da sua experiência de católico japonês. E fui-me apercebendo de que estava perante um homem de fé madura, lúcida. Uma fé que é processo e, por isso, desperta incertezas e dúvidas dolorosas. Em permanente busca. Convidou-me para jantar em sua casa. Era Domingo de Páscoa. Eu estava cansado, depois de um dia preenchido com as actividades inerentes. Entrei no seu mundo mais íntimo, uma vez que ser convidado a entrar na casa de uma família japonesa é sinónimo de convite a entrar no seu círculo mais cerrado e saborear a sua vida. Descansei, sentindo que estava na presença de um irmão peregrino. Um japonês que conseguiu condensar no seu interior aquilo que tantos católicos japoneses não estão aptos a fazer: deixar de considerar o cristianismo como religião estrangeira. Para que se realize este processo de assimilação e inculturação, é necessário abandonar a concepção limitatória que se concentra num país, numa cultura, numa forma de pensar ou agir. Endo Shusaku legou-nos essa “universalidade” no seu romance “Rio Profundo”, mudando o palco dos acontecimentos para um mundo não-europeu, não-japonês e não-cristão. E sublimou, assim, o drama da sua vida. Nesse sentido, é exemplo para nós. 2. A estética do zen A universalidade intui-se na imensa quantidade de religiões que compõem o mundo religioso nipónico. Muitas dessas tradições religiosas vieram para o Japão desde a China, mormente as que estão relacionadas com o budismo, o taoísmo ou o confucianismo. O budismo zen, que passou a ser divulgado no mundo ocidental principalmente a partir de meados do século XX, é uma das tradições mais conhecidas, dividindo-se nas duas grandes escolas de Soto-shu e Rinzai-shu, que foram trazidas para o Japão na época de Kamakura (Rinzai-shu, em 1168; Soto-shu em 1223), e que apresentam numerosas ramificações. Hoju Tanaka é o nome do monge – mestre zen da escola de Rinzai-shu – que costuma encontrar-se com a Igreja católica na paróquia de Kitano, duas ou três vezes por ano. A convite seu, fomos, o P. Nishio e eu, visitar o templo onde ele vive e orienta sessões de zazen no centro da cidade de Kyoto. O templo denomina-se Shokoku-ji e o seu nome significa, segundo os caracteres chineses, “Templo do Primeiro Ministro”, nome alusivo ao shogun Ashikaga Yoshimitsu (1358-1408), sob cujos auspícios foi edificado. A sua construção terá terminado em 1394, mas terá sido numerosas vezes destruído por incêndios, tendo sido o de 1788 devastador. Pelos finais da época de Edo (1615-1868), muitos dos edifícios foram reconstruídos. Actualmente, o complexo apresenta treze estruturas, incluindo o “Templo do Pavilhão Dourado” (“Kinkaku-ji”) e o “Templo do Pavilhão Prateado” (“Ginkaku-ji”). Há, em todo o Japão, cerca de 130 subtemplos de Shokoku-ji. Foi em 1395 que o shogun Ashikaga Yoshimitsu abdicou em favor do seu filho, pois tencionava abraçar a vida religiosa. Dois anos mais tarde, em 1397, construiu uma villa luxuosa no nordeste de Kyoto, que receberia o nome de “Pavilhão Dourado”. Durante cerca de dez anos, o lugar foi preparado para que se tornasse um lugar budista de grande devoção, tendo sido acrescentados novos edifícios em redor. Quando Yoshimitsu faleceu (1408), o edifício foi transformado em templo budista e passou a ser denominado “Templo do Pavilhão Dourado”. A fúria da guerra civil na época de Onin (1467-1477) atingiu o complexo, tendo este sido destruído pelo fogo. Reconstruído rapidamente, foi novamente destruído em 1567. Apenas sobreviveram o “Templo Dourado” e o edifício anexo. Finalmente, para grande consternação do povo nipónico, o “Templo Dourado” foi reduzido a cinzas a 3 de Julho de 1950, como resultado do fogo ateado por um jovem monge (este é o tema do romance intitulado “Kinkakuji”, da autoria de Yukio Mishima). Terão sido necessários 48 Kg de ouro para a reconstrução (1955) e o restauro (1987) desta maravilha de três andares que se apresenta diante dos olhos estupefactos de milhares de turistas que ali afluem diariamente e é um dos símbolos nacionais de beleza, reflectindo o espírito de equilíbrio, harmonia e, simultaneamente, austeridade, características próprias do budismo zen. O “Templo do Pavilhão Prateado” (“Ginkakuji”), construído em 1482 por Ashikaga Yoshimasa (1436-1490), não é tão espectacular como o “Kinkakuji”, mas emana uma atmosfera de maior introspecção e serenidade. Nunca foram realizados os planos de lhe dar uma cobertura de prata. O que certamente contribui para que exale um ambiente de maior naturalidade e de comunhão com a natureza a uma escala mais humana. Despedimo-nos do nosso anfitrião e guia, o mestre de zen Hoju Tanaka, com a promessa de reencontro na paróquia de Kitano dentro de dois meses. 3. O sabor da gratuidade O povo japonês valoriza enormemente o aspecto exterior. Neste sentido, apresenta algumas semelhanças com a cultura grega e a sua valorização da beleza estética. Uma cultura do visual, em contraste com a cultura da audição, como é o caso da tradição bíblica. Por isso, o “Templo Dourado”, tal como o “Templo Prateado” e os jardins de areia da tradição do budismo zen incitam-nos a entrarmos em nós mesmos, a silenciarmos e a sentirmo-nos em perene comunhão com a natureza e o mundo. Tendo em conta essa característica nipónica, o missionário terá de tentar criar momentos de sintonia e estímulo, de forma a que se desperte essa peculiaridade e nasça um ambiente de alegria, algo absolutamente necessário nesta sociedade freneticamente competitiva, sobrecarregada de exigências e quase desumana. Criar momentos de descontracção e transparência, e despertar sentimentos de gratuidade. Decidi comprometer-me a organizar uma actividade que em Portugal me deixara excelentes recordações e ainda não experimentara no Japão: convidar as crianças a expressar os seus sentimentos através da pintura de uma tela gigante de 5 metros de comprimento. A actividade teve lugar numa das paróquias do bloco de Umeda e juntaram-se mais de trinta crianças. Terminámos com uma refeição em comum. Senti, então, mais fortemente, a urgência de organizar actividades afins. Procurando dar sentido à existência, antes que o desespero nos tolha. Neste país, nesta cultura, qualquer pequenina iniciativa exige muito esforço e persistência. E os resultados são irrisórios, quase invisíveis. Por isso, vamos apagando das nossas mentes, inexoravelmente, o desejo de ver os frutos. E fica-nos a brisa suave, quase sublime, da entrega. Sentado no meu quarto nesta imensa cidade de Osaka, olho para o Cristo que o já falecido Artur Bual me ofereceu e recordo as suas palavras: “os meus quadros mais bem vendidos são aqueles que ofereço”. A amizade, o calor humano, a maravilha do encontro. Estas suas palavras ajudaram-me e ajudam-me a saborear o delicioso fruto da gratuidade. 4. A paciência do silêncio Quando pensamos no mundo japonês, a imagem que nos surge de imediato é a de uma sociedade tremendamente utilitarista, com uma quantidade infinita de fórmulas de etiqueta social que nos obrigam a uma artificialidade permanente. A máscara. O japonês não costuma expressar os seus sentimentos na vida real. Talvez também por isso, como valor de contraste, os filmes, incluindo as telenovelas actuais e os filmes de samurais, estão carregados de emoções e lágrimas. É outra dimensão da máscara, que tem papel preponderante no No (dança teatral japonesa) e no Kabuki (drama tradicional japonês, com formas estilizadas, baseado em histórias de cariz popular). Acabo de receber um telefonema de um estrangeiro. O mesmo drama de tantos outros: a horrível solidão. Solidão essa que atinge igualmente os japoneses – não é por acaso que o número oficial de suicídios no espaço de um ano ultrapassa os 30 mil -, mas com bastante mais intensidade o estrangeiro que não fale a língua e não encontre quem possa escutar as suas angústias e os seus apelos. Tenho escutado histórias comoventes. E cada vez compreendo mais claramente que haja tantas pessoas que resvalam para o abismo da loucura. A maior parte das vezes, o sacerdote apenas pode ficar em silêncio, tentando sintonizar e mostrar que depois da escuridão do túnel há sempre a claridade da saída. Para isso, torna-se urgente dar sentido ao sofrimento. E é aí que considero o filme “Paixão de Cristo” altamente nocivo para a sociedade japonesa que nada sabe de cristianismo e que, como tal, não entenderá o sentido do calvário de Jesus. Assim, sem uma explicação adequada, o que fica fortemente gravado será apenas a crueldade e o sangue. Penso e falo com alguma frequência nas homilias de países e povos sofrendo as consequências da brutalidade da guerra ou morrendo de inanição, com nomes concretos. No Japão há outro tipo de “inanição”. Aqui enlouquece-se ou morre-se de cansaço e solidão. Creio que isso tem a ver com o peso da máscara. Há dois dias contava um missionário que já está no Japão há mais de 40 anos o que ainda continua a ser uma das suas preocupações: revelar os sentimentos. Dizia ele que, pelo seu temperamento, quando se dá conta já é tarde, pois já terá expressado o que sente e terá ferido ou ter-se-á exposto claramente. O japonês torna-se transparente quando há ambiente descontraído, em que se ultrapasse o artificialismo das barreiras hierárquicas. Para um estrangeiro, é difícil entender onde assentam as bases de tal ambiente. Não se pode fabricar. Acontece simplesmente; ou não acontece; ou já terá acontecido sem que nos tenhamos dado conta. E é aí que tem lugar a provação de sofrimento em silêncio e paciência, procurando aceitar aquilo que não entra nos nossos esquemas mentais. Doloroso e fascinante. É necessário remar contra a maré da sociedade de consumo e de artificialismo. Sem euforias nem desesperos. Sem contar com resultados nem contabilizar decepções. Todo o ser humano tem uma corda de sintonização. Será necessário despirmo-nos de preconceitos, rasgarmos as máscaras que nos tolhem, amarram e limitam, e sintonizar, naturalmente, com o que de mais humano vibra no coração de cada um. Algum dia, em algum lugar, em alguma situação, haverá um bafejo de felicidade sem explicação. Adelino Ascenso, mbn – Missionário no Japão In “Boa Nova”, nº 912
