Desacatos da semana passada poderiam ter tido consequências mais graves As Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, responsáveis pelo Centro Social do Bairro 6 de Maio, na Amadora, evitaram males maiores na semana passada quando a população local manifestou na rua a sua revolta pela morte do jovem José Carlos Vicente, utente daquela IPSS. Na noite do passado 18 de Junho, a população do Bairro 6 de Maio manifestou-se quando soube que o rapaz, de origem africana, tinha morrido no hospital onde dera entrada de manhã, dois dias depois de ter sido identificado na esquadra da Reboleira, Amadora. Os desacatos, com intervenção policial, repetiram-se no sábado, já que a população relacionou a morte com a intervenção da PSP. A Ir. Mafalda Moniz, directora do Centro Social, conta à Agência ECCLESIA que viveram estas situações com a população (a comunidade religiosa tem residência no Bairro 6 de Maio, ndr), que num primeiro momento teve alguma dificuldade em perceber o que se tinha passado. “Vivemos momentos de muita confusão, no dia a seguir à morte os jovens reagiram e não souberam lidar bem com a morte dele, pelo que durante dois dias foram alimentando um sentimento de revolta que a acção da polícia fez aumentar”, relata. Após constatar os riscos para todos os envolvidos, agentes da autoridade e comunidade do Bairro, as religiosas foram de encontro a vários grupos e convocaram uma reunião para conversar. “Mostrámos que a violência não podia continuar, que só prejudicava o Bairro, e o resultado foi conseguir conter os jovens”, lembra a Ir. Mafalda. O respeito e a autoridade das religiosas apenas poderá provocar espanto a quem não conheça a realidade deste local, onde as Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário conhecem cada jovem pelo seu nome e compreendem as suas dificuldades. “Nós também condenamos quando há motivos para isso, mas apenas os actos e não as pessoas: eles sabem que estamos do seu lado e talvez o segredo esteja aí”, afirma a directora do Centro Social. “Nós não sabíamos se iríamos conseguir conter os jovens, mas eles próprios estavam a chegar à conclusão de que aquele não era o caminho, só que às vezes não sabem a quem se hão-de dirigir”, acrescenta. Um outro olhar sobre o Bairro é necessário As Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, responsáveis pelo Centro Social do Bairro 6 de Maio, na Amadora, emitiram um comunicado, enviado à Agência ECCLESIA, onde referem que os acontecimentos resultantes da morte do jovem José Carlos Vicente, “têm sido transmitidos por diversos órgãos de comunicação social de forma incompleta”. Após auscultar representantes da comunidade e os diferentes parceiros sociais – Câmara Municipal, Junta de Freguesia, Segurança Social, ACIME, OCPM e PSP da Venda Nova, entre outros – o Centro Social vincou a necessidade de “uma investigação imediata, imparcial e consequente face à morte do José Carlos”. Os primeiros resultados da autópsia ao jovem que morreu no Bairro 6 de Maio, na Amadora, afastam a hipótese de a sua morte ter sido provocada por eventuais agressões no âmbito de uma operação policial. O comunicado do Centro Social do Bairro 6 de Maio repudia “quaisquer actos de violência física por parte das autoridades policiais junto de jovens menores de idade” e rejeita “actos de vingança e violência, por parte dos jovens, face à morte do José Carlos”. Os parceiros sociais, após a reunião, concordaram que esta situação “não é uma questão pontual, mas advém de factores estruturais”, lamentando que os Media “se aproveitem destes acontecimentos, manipulando factos e contribuindo para a estigmatização de grupos sociais”. A Ir. Mafalda Moniz reconhece que a opinião pública só tem presentes as “realidades negativas” destes bairros, como são a “toxicodependência, o tráfico ou o roubo”. “Ninguém se preocupa com os problemas verdadeiros das pessoas que cá estão, na habitação ou na saúde, mas com os problemas que elas possam provocar: há clara xenofobia das comunidades envolventes”, aponta.
