Igreja/Sociedade: Padre Tiago Freitas defende que processo sinodal deve escutar quem vive a fé de forma «frágil» ou «silenciosa»

Teólogo português publica obras sobre o discernimento nos «interstícios» da vida e a presença da Igreja na cidade

Foto Agência ECCLESIA/PR, Padre Tiago Freitas

Lisboa, 09 jan 2026 (Ecclesia) – O padre Tiago Freitas, docente da Faculdade de Teologia da UCP, defendeu que o atual processo sinodal deve integrar o contributo de quem vive a fé de forma “frágil”, “silenciosa” ou à margem das comunidades tradicionais.

“É preciso perceber até que ponto Deus fala e o Espírito trabalha naqueles interstícios, naquelas zonas de fronteira, e como integrar nesse processo os crentes nominais e os não crentes que procuram a verdade”, indicou, em entrevista à Agência ECCLESIA.

O sacerdote apresentava o seu novo livro, ‘Quando os Cristãos (não) sentem a fé’ (UCP Editora), que nasceu de uma inquietação partilhada com o cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo.

“Nessa conversa informal falávamos do ‘todos, todos, todos’ do Papa Francisco. A pergunta era: em que medida é que cada pessoa, cristão ou não cristão, pode colaborar no processo de discernimento?”, explicou o autor.

O teólogo sustenta que os critérios habituais do Magistério para definir o “sentido da fé” (sensus fidei), que exigem frequentemente uma prática ativa e uma plena adesão doutrinal, podem ser “muito restritivos” para a realidade atual.

Na mesma entrevista, o padre Tiago Freitas abordou a coordenação da obra ‘A Igreja regressa à cidade’ (Paulinas Editora), que desafia as comunidades católicas a habitarem o espaço urbano de forma nova, para lá das portas do templo.

“O dado cultural urbano é um facto. Para nós, a presença terá de ser, eventualmente, menos de uma única forma, no templo, para intercetar as pessoas em vários outros sítios, nos bairros, no diálogo com a cultura”, referiu.

O docente da UCP deu exemplos de “microespaços” fora das igrejas, como cafés ou galerias de arte, mas alertou para a necessidade de equilíbrio: num ritmo de vida citadino “acelerado”, as pessoas continuam a procurar “pontos de estabilidade”.

“É curioso que os santuários tenham cada vez mais pessoas, porque se sabe que é um ponto estável. Não pode ser tudo móvel”, observou.

Foto Agência ECCLESIA/PR, Padre Tiago Freitas

O sacerdote da Arquidiocese de Braga utilizou o exemplo dos Caminhos de Santiago para ilustrar a postura que a Igreja deve adotar diante da busca espiritual contemporânea, muitas vezes desvinculada da prática religiosa regular.

“Temos de nos questionar sobre o sucesso das peregrinações a Santiago, de gente que tem fé e não tem fé. Alguma coisa acontece nesse caminho”, notou.

Para Tiago Freitas, o desafio pastoral passa por “fazer caminho” com estas pessoas e escutar as suas interrogações, em vez de manter uma postura estática.

“O que nos interessa é qual a pergunta que é feita por cada pessoa no caminho. É isso que temos de fazer: caminho com eles, e não estar só à espera, na Catedral de Santiago, que eles cheguem”, concluiu.

A conversa vai estar no centro da emissão do Programa ECCLESIA, este domingo (06h00), na Antena 1 da rádio pública, no contexto do encontro nacional de representantes diocesanos para o Sínodo, promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa (Fátima, 10 de janeiro).

PR/OC

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