Iniciativa dos Jesuítas promoveu diálogo entre universitários, especialistas e responsáveis religiosos, na Universidade de Coimbra






Coimbra, 05 ab5 2025 (Ecclesia) – A Reitoria da Universidade de Coimbra acolheu hoje a 29ª edição do ‘Fé e Cultura’, que alertou para fenómenos de divisão na sociedade, com impactos internacionais, numa iniciativa do Centro Universitário Manuel da Nóbrega (CUMN), dos Jesuítas.
“Inserida nesta dinâmica de Jubileu da esperança que vivemos este ano, encontramos o tema ‘Sinais dos Tempos’, ou seja, ver sinais que a realidade atual nos mostra, sinais de preocupação, sinais de divisão, mais a nível político, sinais de desumanização e sinais de exaustão, também mais relacionados com a saúde mental”, disse à Agência ECCLESIA o padre João Manuel Silva, diretor do CUMN.
O sacerdote jesuíta recorda que a iniciativa decorre desde 1981, “sempre com este intuito de pôr a fé cristã a dialogar com as culturas universitárias”.
Para o responsável, é importante identificar os problemas para poder “lançar sinais de esperança”.
O evento começou com um painel dedicado ao tema ‘Sinais da Realidade’, com intervenções do comentador e antigo ministro Paulo Portas, Clara Almeida Santos, da Universidade de Coimbra, e Pedro Morgado, psiquiatra e professor da Universidade do Minho.
Para o Paulo Portas, a situação geopolítica apresenta sinais de preocupação, com a passagem de “um sistema de alianças, que é um sistema contratual, que tem regras, com certeza que é imperfeito, mas que garantiu muitas décadas de paz, para um sistema de potências, medidas pela sua força militar, e em particular nuclear”.
“É um sistema que acho perigoso, porque não há tratados, não há convenções, não há limites, e há muita arbitrariedade, sobretudo a prevalência da lei do mais forte sobre o mais fraco”, adverte.
O orador alertou ainda para os novos “muros no comércio”, desejando que a Igreja Católica possa ajudar a “espalhar a humanidade, espalhar o perdão, espalhar a compreensão e a tolerância”.
“As pessoas procuram sinais de ponderação, sinais de cultura e sinais de inteligência neste mundo tão caótico”, conclui, em declarações à Agência ECCLESIA.
A professora Clara Almeida Santos abordou, na sua intervenção, “sinais de desumanização”, que se encontram no uso da “cultura, da linguagem, da tecnologia e da consciência”.
“Sendo professora, sinto que cada vez menos tempo de atenção por parte dos nossos estudantes, vivemos numa economia de atenção, há solicitações permanentes, nos nossos bolsos estão os telemóveis, os ecrãs, permanentemente, também, a obrigarem-nos a olhar”, indicou a entrevistada.
A desumanização vem a par da humanização e da humanidade, temos este conflito permanentemente. O que muda são as ferramentas ou as circunstâncias, e acho que há esta aceleração sem precedentes, no nosso tempo, uma aceleração em demasia”.
Vice-reitora da Universidade de Coimbra, entre 2011 e 2018, Clara Almeida Santos destaca a sua relação com o CUMN, elogiando a “maneira de olhar para a realidade, para o mundo e para as pessoas”, própria da “cultura inaciana”.
Henrique Prata Ribeiro, psiquiatra, abordou o impacto do tempo passado online e do “afastamento que se criou”.
“Parece que estamos todos conectados, mas, na verdade, estamos individualmente isolados em grupo, se quisermos pôr assim, isolam-se as pessoas em grupos que se tornam cada vez mais grupos identitários e que estão uns contra os outros”, advertiu.
O docente universitário considera “impossível separar a política daquilo que está a passar socialmente”, com tempos que “põem em causa os regimes democráticos, que põem em causa os valores ocidentais, que põem em causa os direitos conquistados ao longo dos anos pelas mulheres”.
A segunda parte do encontro abordou ‘Sinais de Esperança’, a partir da reflexão e da apresentação de práticas, iniciativas e ações de resposta às crises.
Ao longo dos 50 anos de história do CUMN, celebrados em 2025, já se realizaram 29 encontros ‘Fé e Cultura’.
O padre Vasco Pinto Magalhães, fundador do Centro, fez a introdução desta 29ª edição apresentando “sete portas” para falar, de forma metafórica, das situações atuais.
“É preciso saber acolher, mas também saber pôr os limites, ter o discernimento do abrir e do fechar na vida. Fechar não é uma síndrome de refúgio, mas é perceber até onde é que se vai, até onde é que se vem. Porque o discernimento é a capacidade de fazer distinções que sejam construtivas”, declarou.
“Se não nos entendermos, desumanizamos”, acrescentou.
O sacerdote jesuíta advertiu para as dificuldades que se vivem num mundo com “muita informação”, mas sem uma preocupação “construtiva” nas relações.
“Aquilo que se pretendia com este encontro era encontrar sinais de esperança. E isso significa encontrar caminhos que têm futuro, porque a esperança é isso”, disse à Agência ECCLESIA.
Os trabalhos encerram-se com a intervenção do padre jesuíta José Frazão Correia, com uma proposta de reflexão intitulada ‘Ponto Sinal’.
CB/OC