O arranque das Jornadas da Comunicação Social, promovidas em Fátima pelo Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja, decorreu esta tarde sob o signo do debate relativo à “actividade política na comunicação social de inspiração cristã”. Na introdução do encontro, o presidente da Comissão Episcopal para a Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, D. Manuel Clemente, começou por tecer “considerações cristãs sobre a actividade política”, partindo da “Nota sobre a participação dos católicos na vida política”, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé, então presidida pelo Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI. O prelado defendeu um “sim à participação cívica” e um “não ao diálogo vazio (pós-modernismo light, relativismo moral, culturalismo, etc)”. “As sociedades democráticas são as mais exigentes a nível da participação, com fundamentação permanente do que temos para dizer ou para propor”, alertou. Criticando o “seguidismo das modas” que vai atrás de “correntes que não estão pelo lado das realidades normativas prévias, naturais”, D. Manuel Clemente assinalou que temas como o aborto, a eutanásia, a defesa do embrião e da família, a liberdade de educação, a tutela social dos menores, a libertação de novas formas de escravidão, a liberdade religiosa, a paz construtivamente entendida ou a recusa da violência e do terrorismo são “exigências éticas fundamentais”. Estas exigências partem de “uma base comum da natureza humana, da humanidade, ainda antes de serem valores confessionais propriamente ditos”. Neste diálogo dentro da sociedade, a Igreja deve dizer “sim à laicidade, não ao laicismo”. Quem afirma que os propósitos religiosos não têm cabimento no debate social e político “deixa de fora uma componente fundamental de muitas vidas”. Vida política e Comunicação Social da Igreja Na primeira conferência das Jornadas, o Pe. Peter Stilwell, assistente religioso da RR e director da Faculdade de Teologia da UCP, frisou a pertinência da temática geral do encontro, “Perspectiva cristã da actividade política” num contexto de eleições e perante a aproximação de um eventual referendo sobre o aborto. Esta situação, afirmou, desafia os Meios de Comunicação Social de inspiração cristã a “prestar um serviço à comunidade que está a reflectir”. Apresentando uma reflexão sobre a Teologia da ordem política, o Pe. Stilwell sustentou que a Igreja “é um elemento no meio da sociedade plural”, sem ser apenas “mais uma” entre muitos, porque acredita que transporta “um elemento de verdade que deve transmitir ao mundo”. Neste sentido, levantou a questão de saber a quem cabe discernir a lei moral objectiva que a todos deve obrigar. “Uma sociedade com densidade em termos éticos tem de colocar a questão da mediação de valores”, frisou. O responsável constatou que, ao longo da História, fontes de legitimidade distintas no interior da sociedade beneficiaram a liberdade, mas deixou o alerta: “na democracia há uma subordinação cada vez maior à opinião pública sondada ou publicada, não se decide por causa dos grandes valores”. Apelando à “sensibilidade prudencial do Estado”, o Pe. Peter Stilweel fez questão de destacar que no debate com várias sensibilidades, como no caso do aborto, “o problema não se resolve no vértice que muda a lei”. Defendendo que o diálogo deve ser feito “entre motivações e valores”, o sacerdote assegurou que “fazer finca-pé em torno da questão do aborto leva ao debate, gera um acréscimo de consciência”. “Só o debate converte as consciências”, afirmou, sublinhando a importância de “veicular o sentir da Igreja, mostrando os valores que estão em volta de determinada questão”. Em conclusão, o Pe. Stilwell deixou uma série de desafios aos Meios de Comunicação Social de inspiração cristã, o primeiro dos quais a exigência de qualidade a todos os níveis, “procurando que as pessoas tenham aceso a dados suficientes para formarem a sua opinião responsavelmente”. Para “respeitar a inteligência, a liberdade e a responsabilidade do público”, o assistente religioso da RR defende que é necessário “manter uma clara distinção entre os dados de uma questão, a diversidade de opiniões sobre a sua interpretação e a opinião formal do órgão de informação”.
