Estudo arqueológico foi realizado na igreja de Santa Cruz do Castelo, no último ano, e apresentado na segunda-feira
Lisboa, 27 mar 2025 (Ecclesia) – Uma equipa de arqueólogos descobriu, através da utilização de uma tecnologia inovadora, uma cripta funerária de grandes dimensões e inúmeras sepulturas espalhadas pelo subsolo da Igreja de Santa Cruz do Castelo, em Lisboa, foi esta semana revelado.
A ERA Arqueologia realizou um estudo arqueológico na igreja no último ano, que foi apresentado esta segunda-feira ao padre Edgar Clara, numa visita que contou com a presença do cardeal D. Manuel Clemente, informa uma nota enviada à Agência Ecclesia.

Lucy Evangelista, uma das especialistas que acompanhou o trabalho, explica que “usando métodos não intrusivos, como prospeção geofísica e levantamentos fotogramétricos, foi possível obter desenhos 3D e recolher informação sem escavar nada”.
“Sim, há uma cripta debaixo do chão da capela funerária”, confirma, acrescentando que esta “foi usada para despejos de material de construção do século XX”.
“Portanto, retirou-se o material suficiente para aceder à cripta e, depois, fez-se um registo arquitetónico em 3D, ou seja, um levantamento fotogramétrico. Sem mexermos em nada, encontrámos restos de tábuas de caixões e ossos dispersos”, adianta a antropóloga biológica que conseguiu identificar restos mortais de homens, mulheres e crianças no local.
Por baixo da nave, altar-mor e sacristia, isto é, em toda a restante área da igreja que também foi estudada, foi possível detetar sepulturas, que serão anteriores à década de 30 do século XIX, altura em que foram criados os primeiros cemitérios públicos.

“A ERA tem um departamento de Geofísica e quem domina esta tecnologia [como Tiago do Pereiro, arqueólogo que fez parte da visita], consegue recolher dados e antecipar o que está debaixo do chão sem precisar de escavar”, esclarece Lucy Evangelista.
Segundo a antropóloga, “trata-se de uma máquina georadar que anda pelo chão e emite ondas eletromagnéticas para o subsolo, recebendo resposta conforme a densidade do que está nesse subsolo”.
Relativamente “ao alegado túnel que haveria no templo, um corredor que estava atualmente entulhado, verificou-se que este não corresponde a qualquer acesso”, revela o comunicado, referindo ainda que também não se verificaram, nesta fase, “sinais de preexistências de uma antiga mesquita que terá existido no local”.
“O padre Edgar tinha esperança de que se encontrassem fundações, mas isso não foi ainda possível de confirmar”, indicou.
O pároco da Igreja de Santa Cruz do Castelo relata que o objetivo de chamar arqueólogos para estudar o templo foi “ajudar a compreender não apenas o espaço, mas principalmente a história que é quase desconhecida para a maioria das pessoas”.
“Gosto sempre de fazer projetos que envolvam não apenas a comunidade académica, mas que possam ter projeção para a comunidade em geral”, destaca. Para o padre Edgar Clara, conhecer o que foi confiado no passado ajuda a compreender a cultura e o “futuro desta própria igreja e desta nação”. “Esta foi uma das igrejas mais importantes no início da cidade de Lisboa, aquando da conquista dos Cruzados”, realça, referindo que recolheu diários de beneméritos da igreja e documentação antiga que poderão ajudar os arqueólogos a interpretar o resultado do estudo.
“Sem precisar de fazer aquilo a que chamamos buracos, ajudam a andar para a frente, no sentido de verificar algumas tradições e pôr outras de parte”, desenvolveu o cardeal. Na visita participaram também o administrador da ERA Arquitetura, Miguel Lago, e a comunidade do bairro do Castelo. A Igreja Paroquial do Castelo, também conhecida por Igreja de Santa Cruz, é uma edificação do século XVIII, ocupando a implantação do templo primitivo construído no século XII, onde existiu uma antiga mesquita. |
LJ/OC