A Beleza do Sacerdócio Nós Te damos graças, ó Pai, “porque nos enviaste a consolar todos os que andam amargurados, a levar o óleo da alegria aos aflitos de Sião”(Is 61,2). Nós Te damos graças porque somos chamados “sacerdotes do Senhor”, “ministros do nosso Deus”. Nós Te damos graças porque nos ungiste com aquele óleo de alegria que derramaste em abundância sobre Cristo, sumo e eterno sacerdote. Caríssimos irmãos na graça do sacerdócio ministerial, caros diáconos, seminaristas e demais fiéis em Cristo: Esta missa crismal, que já nos introduz na celebração da Páscoa do Senhor, é para todos nós um sinal, esperado em cada ano, da nossa comunhão ministerial e fraterna e da missão pastoral que partilho convosco. A Palavra de Deus que ouvimos sublinha as tarefas de consolação e de comunicação de alegria que são confiadas ao nosso ministério por Dom do Espírito de Deus, Espírito que está sobre nós e que nos ungiu e consagrou com o óleo de alegria. A renovação das nossas promessa que vamos realizar reporta-nos à unção recebida na ordenação. Os óleos que vamos benzer para toda a diocese serão símbolo e sinal sacramental da acção penetrante do Espírito. Através destes óleos, graças ao nosso ministério, receberão o vigor do alto os baptizados, confirmação na fé os crismados, conforto, alívio e esperança os enfermos, paixão apostólica e santidade pastoral os próximos novos presbíteros. Como é belo pensar que estão presentes hoje na nossa oração, enquanto benzemos os óleos, todos aqueles que são baptizados, crismados, ordenados presbíteros, confortados com a unção dos enfermos. Neste momento, quero recordar e congratular os presbíteros que este ano celebram o jubileu dos 50 anos da sua ordenação: … Recordo, em particular, os presbíteros doentes ou idosos que não podem estar aqui presentes. Desejo ainda fazer memória daqueles que partiram para a casa do Pai neste último ano: … Penso também nos sacerdotes que, por diversas circunstâncias não exercem mais o seu ministério. Rezo também por eles e convido-vos a recordá-los na oração para que, graças também à dispensa regularmente obtida, mantenham vivo em si o compromisso da fé cristã e da comunhão eclesial. Hoje, em Quinta feira Santa, queria convidar-vos a contemplar juntamente comigo a beleza do nosso sacerdócio, na sua face humano-divina, que é um reflexo da beleza de Deus em nós. Neste tempo de certo desencanto e cansaço que caracteriza a nossa cultura e afecta a todos, temos necessidade de redescobrir esta beleza, de reaprendê-la, de dizê-la ,de novo e de maneira nova, uns aos outros e ao mundo. Ela é tão bela como no primeira dia em que nos foi dada, porque Deus não envelhece. É tão bela como no dia em que vos levantastes do gesto da prostração, porque Deus não se arrepende dos seus dons. Que beleza é esta? Donde nos vem? Como se exprime e espelha, em concreto, no nosso ministério e na nossa vida? Trata-se, antes de mais, da beleza do sacerdócio de Cristo que transparece na beleza do seu rosto de Filho de Deus feito homem: – na beleza íntima da sua Palavra de Graça, que é o anúncio da Boa Nova de libertação e salvação da parte de Deus aos homens; – no rosto do Pastor belo que conhece as ovelhas pelo nome, que dá a vida por elas para que tenham vida em abundância; – no rosto desfigurado do Crucificado, revelação total do coração divino que ama com o seu amor de misericórdia e a sua ternura fiel. É a beleza do Amor que excede toda a inteligência e todo o conhecimento, todo o cálculo e toda a medida; – no rosto resplandecente do Ressuscitado mais forte que a morte, Testemunha fiel que nos ama agora e sempre, que vem derramar sobre nós a graça e a paz, a vida e a salvação. A Beleza do sacerdócio de Cristo que abrange toda a sua vida e missão, é a Beleza do Amor que salva! Este mistério de Beleza é comunicado à humanidade, de modo singular e sacramental, na última ceia na qual tem origem a eucaristia como memorial da Páscoa de Cristo, banquete de comunhão e penhor da futura glória. Estes três aspectos da celebração eucarística são como três janelas que se abrem sobre a beleza do sacerdócio daqueles a quem o Senhor confiou o ministério de a presidir em seu nome (in persona Christi). A beleza do ministério da consolação da Páscoa redentora de Cristo Na última ceia começou para o mundo uma presença nova de Cristo, uma presença que se realiza, ininterruptamente, em toda a parte onde é celebrada a eucaristia e um sacerdote empresta a sua pessoa, as suas mãos e a sua voz repetido as palavras santas, amorosas e comoventes da instituição: “Isto é o meu corpo entregue por vós”, “Este é o cálice do meu sangue derramado por vós”. É a presença de Cristo ressuscitado na totalidade da sua pessoa e na plenitude do mistério de amor entregue até à cruz, até ao extremo: o Deus connosco, Deus para nós e Deus por nós. Eis a beleza do Amor redentor de Cristo e da redenção da beleza da humanidade desfigurada pelo pecado, oferecida na eucaristia. É para nós uma alegria e uma beleza e, ao mesmo tempo, uma fonte de responsabilidade o estar tão intimamente vinculados a este mistério. Hoje queremos tomar consciência disso com o coração cheio de assombro, de deslumbramento e de gratidão! Aqui, neste amor redentor de Cristo, o sacerdote recebe e alimenta, continuamente, o amor pastoral com que é enviado ao serviço do Evangelho a favor dos homens, no ministério da Palavra da salvação, dos sacramentos da ternura de Deus e da relação próxima, tão belamente expresso em termos existenciais no texto de Isaías: “anunciar a Boa Nova aos infelizes, curar as chagas dos corações despedaçados, consolar todos os amargurados, levar alento aos aflitos de Sião, dar uma coroa em vez de cinza, o óleo da alegria em vez dum traje de luto, um canto de louvor em lugar de um coração abatido”. É o ministério da consolação da mente, do coração e da vida hoje mais necessário que nunca neste mal estar de civilização, para uma humanidade nova, livre e pura que viva a graça, o perdão, a serenidade, a alegria e a paz no Espírito Santo. Que missão mais bela pode existir? A beleza do ministério da comunhão e da fraternidade Na eucaristia, Cristo entrega-se por nós e a nós para realizar a comunhão viva connosco e fazer da Igreja um Corpo de comunhão. Como Cristo-Cabeça faz a unidade dos membros, assim o sacerdócio ministerial se oferece como ministério de unidade, de comunhão. É chamado a servir esta beleza de Cristo eucarístico que une os corações de quantos o comungam, a oferecê-la como Boa Nova ao nosso mundo que aparece tantas vezes como uma multidão de solidões. O padre é por isso um tecedor dos fios de comunhão fraterna com o trabalho quotidiano, paciente e perseverante, de acolhimento, de escuta, de diálogo, de corresponsabilidade e até de correcção fraterna. na comunidade. A beleza deste serviço joga-se, de modo particular, nas relações humanas. É importante compreender o caminho das pessoas e fazer compreender a cada pessoa que o seu caminho não é inútil, banal e doloroso, mas também santificante, que ela é amada e objecto de atenção. Na profundidade, na sinceridade e na autenticidade das relações humanas e fraternas joga-se a beleza da vida da comunidade. Quem tem um campo de relações tão ricas e belas como um padre: com crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, doentes etc. Nesta missão, o sacerdote testemunha que o Cristo que anuncia e torna presente não só é verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de dar beleza à vida de cada um e de unir a todos na beleza de Deus e da comunhão fraterna. A beleza do ministério da esperança A comunhão no mistério eucarístico não se esgota em si mesma, no tempo presente. Tem uma dimensão de futuro: aponta, desde já, para a Beleza da comunhão eterna e plena em Deus. Por isso, a eucaristia é pão de vida eterna, alimento dos peregrinos a caminho da pátria definitiva, sacramento da esperança em Deus que não engana, que nos sustenta no meio das dificuldades e provações, nos abre caminhos novos de renovação e não nos deixa prisioneiros da resignação, da indiferença e do desânimo. Esta experiência eucarística leva os sacerdotes, em virtude do seu ministério de presidência, a serem sentinelas da Beleza do futuro absoluto, anunciadores da esperança teologal, sendo companheiros de caminho dos homens e capazes de levar com eles o peso do viver quotidiano e do quotidiano morrer. A esperança no “Deus sempre maior” é uma graça imensa e um serviço inestimável aos outros. É belo ser padre hoje! O Dom do sacerdócio não é só para a Igreja, mas também para a humanidade. É um raio da beleza de Deus no mundo! À semelhança de Cristo, o Pastor belo, o padre cuida da beleza espiritual da humanidade. Como homem do Evangelho, apela ao que há de mais belo e positivo no coração de cada ser humano, levando Cristo e semeando a sua Palavra nas grandes metrópoles ou nas aldeias mais recônditas. O serviço mais precioso a prestar a cada homem é fazer-lhe descobrir a dignidade única e ímpar de filho de Deus, ajudá-lo a compreender o valor da sua vida que é sem preço e que ela pode ser revestida de graça, de beleza divina e como é infinita a misericórdia de Deus por cada um! Tende fé no Sacerdócio e na Eucaristia Do mais íntimo do coração digo-vos, caríssimos padres e diáconos: tende fé no sacerdócio, no vosso sacerdócio. É participação no sacerdócio eterno e santo de Cristo que é o mesmo ontem, hoje e sempre, porque é o Ressuscitado; é participação, desde há dois milénios, na sua caridade pastoral, naquele seu amor forte e misericordioso que pode curar a nossa sociedade das infidelidades, das indiferenças, da idolatria, da violência. O nosso tempo é atravessado por grandes transformações culturais e por preocupantes problemas e tensões de ordem espiritual, moral e social. É necessário que os padres saibam oferecer, com o exemplo e a palavra, horizontes luminosos de sentido e motivos convincentes de esperança. Podem fazê-lo porque a nossa certeza é fundada sobre a rocha da Palavra de Deus e sobre o poder salvífico da Eucaristia. Hoje, mais do que nunca, há necessidade de padres que testemunhem a beleza da fé, que se façam companheiros de viagem dos seus contemporâneos, sem possuir as pessoas, mas ajudando-as a crescer na maturidade da fé e na verdadeira liberdade. Há necessidade de padres que consolem e confortem, mas que ao mesmo tempo, inquietem as consciências propondo com coragem e sabedoria os valores do evangelho, sobretudo aos jovens; há necessidade de padres que, morando no coração de Cristo cheio de amor e compaixão, saibam partilhar as dores e os sofrimentos da gente libertando-a do medo e abrindo-se a horizontes de serenidade e de paz. Há necessidade de padres que acreditam no amor forte de Deus pela humanidade e o querem anunciar com alegria e esperança! Para concluir, quero dizer a todos vós o meu testemunho de sincera estima e de viva e profunda gratidão. Em nome do Senhor, agradeço-vos por tudo o que fazeis, mas sobretudo por aquilo que sois. Obrigado pelo vosso testemunho! Obrigado pela vossa amizade, pela colaboração e fadiga do vosso ministério. Abraço-vos a todos e a cada um com grande afecto. “Ó Cristo do Cenáculo, do Calvário e da Ressurreição! Acolhe-nos a todos nós que somos os sacerdotes do ano do Senhor de 2005 e com o mistério desta Quinta-Feira Santa santifica-nos de novo, embeleza-nos com a tua santidade! Ámen!”.
