Histórias da viagem da humanidade

Três realizadores de renome internacional juntam-se em “Tickets” para contar três histórias diferentes, todas passadas num comboio. É a viagem da humanidade e a descoberta do próximo, sobre as notas das memórias, das solidões e da juventude sem esperança, como a descreve a Rádio Vaticano. A viagem vai do centro da Europa até Roma. Do comboio saem e entram pessoas, levando consigo recordações, angústias, solidões, desejos de amor, dilemas morais, existências diversas – muitas das quais à margem. Os três realizadores apresentam-nos três bilhetes, mas um único comboio, metáfora de uma humanidade em viagem. A obra mostra-se, naturalmente, com três estilos cinematográficos diferentes, mas numa narração coerente, não concebida em capítulos, mas em episódios, de uma estação à outra. O filme esteve em destaque na 55.ª edição da Berlinale. O italiano Ermanno Olmi, dos últimos representantes do neo-realismo, segue um vagaroso professor às voltas com uma descoberta inesperada: o imprevisto sentimento de amor e com ele a felicidade de uma longínqua recordação da infância, que ameniza a aridez do presente. O realizador de “L’albero degli zoccoli” e “Il mestiere delle armi” afirma que “é mesmo na última estação da vida que se percebe melhor a importância de certos sentimentos e que se podem viver com a sábia plenitude de uma maravilhosa aventura do espírito”. No seu compartimento repleto de várias humanidades, o professor acaba por perceber que os outros que passam e vivem a seu lado não mais são o “estranho”, mas o “próximo”, a amar como a si próprio. O realizador iraniano Abbas Kiarostami coloca-se, por sua vez, lado a lado com um passageiro diferente: uma viúva, anciã, que a vida tornou arrogante e rezingona, inspira no final da sua vida um sentimento de piedade por uma velhice que chega sem alegria nem amor. Finalmente, o inglês Ken Loach mostra-se muito mais atento às questões sociais, apresentando uma divertida aliança de refugiados políticos e torcedores de futebol como solução possível para os problemas da humanidade: três jovens adeptos do Cletic de Glasgow, em viagem rumo a Roma, revelam o seu lado bom e muito escondido no encontro-desencontro com uma família de refugiados albaneses. Neste caso, a chegada à estação terminal de Roma conclui-se com uma nota positiva: a violência e intolerância associada às claques dá lugar a um acto de generosidade e de altruísmo. Uma viagem de comboio pode mudar uma existência.

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