D. José Pereira fez análise do percurso pela diocese, que se iniciou em março de 2025

Guarda, 08 jan 2026 (Ecclesia) – O bispo da Guarda fez um balanço dos nove meses desde a ordenação episcopal, enviado esta quinta-feira à Agência ECCLESIA, no qual destacou as surpresas, apreensões, desafios e primeiras experiências, entre elas a do acolhimento.
“Foi uma marca profundamente acentuada: a alegria de receber o novo bispo, depois de uma longa espera; as manifestações de carinho, com as palavras e presentes de boas-vindas”, afirmou D. José Pereira, no artigo publicado no mês de dezembro na revista da Santa Casa da Misericórdia da Guarda e disponibilizado no site da diocese.
Ordenado bispo a 16 de março de 2025, o responsável católico salienta “a receção sempre cuidada, e em especial na primeira visita”, bem como “a abertura e cooperação dos diferentes poderes e instituições para com a nova autoridade eclesiástica”.
Vindo do litoral e da capital, D. José Pereira mencionou como segunda experiência a descoberta do “interior de Portugal”, realçando que na Guarda não há “só a beleza natural beirã, serrana e raiana, a gastronomia rica, a história secular traduzida em iniciativas culturais, em castelos e solares, em festas religiosas”.
“Há a beleza humana forjada pelo frio, pelo trabalho e pela solidariedade em personalidades que lutam e que criam respostas às necessidades com que se deparam”, referiu, apontando uma série de serviços na diocese paras as mais variadas idades.
No entanto, o bispo vincou que “muitas das iniciativas e formas locais de organização esbarram num centralismo administrativo nacional que pouco respeita o princípio da subsidiariedade aplicado às instâncias regionais e locais”.
“A este centralismo nacional parece poder associar-se, por vezes, algum provincianismo local […] Por vezes parece acentuar-se um certo discurso, algo depressivo, de que não vale a pena tentar porque somos todos idosos e isolados, com frio e sem capacidade de responder. Somos mais que isso. Em nove meses já crismei quase mil adolescentes e jovens”, indicou.
Sobre as surpresas com que se deparou no território, o bispo diocesano assinalou o “estado jurídico-administrativo de muitas das realidades eclesiais”, o “fácil julgamento das relações e comportamentos” e a “acentuada clericalização” e “a dificuldade em se experimentar formas mais generalizadas de sinodalidade”.
Os órgãos de corresponsabilidade, diocesanos e paroquiais, salvos algumas exceções, são ainda muito incipientes na constituição e funcionamento. Surpreendeu-me esperar-se ver o bispo ou o padre a decidir ou fazer sozinho o que compete a um conjunto de agentes ou até aos leigos”, acentuou.
No texto, D. José Pereira mostrou-se também surpreendido com “a situação de isolamento e instabilidade em que se encontra” o Seminário Inter-diocesano.
“Sabendo, pela experiência de formador durante quase vinte e nove anos, que os Seminários são para muitos cristãos ‘quase ilustres desconhecidos’, não esperava que mal chegasse à Diocese fosse preciso tomar decisões quanto à localização e viabilidade do projeto iniciado há doze anos”, explicou.

Como última surpresa, D. José Pereira ressaltou “o número imenso das já referidas respostas sociais de acolhimento a crianças e jovens fora do seu contexto familiar”.
No que toca às apreensões, o bispo diocesano expôs “a desacomodação necessária para acolher e seguir o que o Espírito” diz e pede e a realidade da “conversão missionária da pastoral”.
“Temos uma pastoral que ainda é sobretudo de manutenção e religiosidade natural, revestida de ritualidade cristã. A conversão missionária não é uma revolução sociologicamente programada nem uma espontaneidade individual ou grupal”, evidenciou, acrescentando que é necessária a estimulação entre todos para promover “teologia que não se confine a uma reflexão teórica”.
Na área dos desafios, o bispo da Guarda destacou como “o primeiro e maior”, “em linha com a missão de toda a Igreja”, “o da evangelização”: “Temos de encontrar caminhos de anúncio da fé que conduzam à experiência do encontro com Cristo vivo. Encontro pessoal que se torne inegável para quem o faz”.
Só quem se encontra com Jesus descobre a urgência de O anunciar ao mundo. A evangelização não é proselitismo. Mas é a urgência de que ninguém fique impedido de poder encontrar-se com Jesus. E de que o mundo não fique à margem desse encontro. A evangelização é a conversão de todas as relações, a partir de Cristo”, pode ler-se.
D. José Pereira indicou também como desafios o “cultivo da vida interior e da espiritualidade cristã” e a “fraternidade”.
“A Igreja tem de voltar a mostrar a filiação que Deus oferece a todos como fundamento para a fraternidade, a igualdade e a liberdade. Foi a consciência dessa filiação que permitiu à Europa os avanços civilizacionais acima referidos, e foi a sua regressão que permitiu que os mesmos sejam hoje muito mais frágeis”, exprimiu.
Ainda no mesmo campo e a concluir, D. José Pereira apontou ao “cuidado pelas vocações e diferentes ministérios, batismais e ordenados”, expressando que “o seu desenvolvimento será o melhor antídoto contra a perpetuação de algum clericalismo dos padres e contra a clericalização dos leigos”.
“A clareza quanto ao perfil e significado de cada vocação e ministério deve levar os responsáveis das comunidades a cuidar do discernimento junto dos que revelam perfil e idoneidade para determinadas missões. E não a confiar tais missões a quem as reclama para si ou deseja assumir algum lugar ou poder”, escreveu.
LJ/OC
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