Évora: Arquidiocese responde a «desafio» e «provocação» da Capital Europeia da Cultura «com vagar e com fé»

Padre Mário Tavares adianta que projeto «extravasa» 2027, porque é «oportunidade de criar um elã, uma dinâmica cultural»

Foto Agência ECCLESIA/CB

Évora, 06 fev 2026 (Ecclesia) – O coordenador do projeto da Arquidiocese de Évora para a cidade e região que vai ser a Capital Europeia da Cultura 2027 afirma a provocação que sentiram “extravasa muito” o próximo ano, porque “é um desafio” a olharem o “património como um território de evangelização”.

“A cultura, a arte, hoje, são territórios de evangelização. As pessoas, muitas vezes, enchem os templos, visitam os templos e os lugares sagrados, também há vidas de um sentido, de uma mensagem, à procura do caminho da beleza, e nós, digamos assim, deveremos potenciar mais e melhor o nosso património, E, por isso, achámos que Évora, Capital Europeia da Cultura, era para nós um desafio, uma provocação”, disse o padre Mário Tavares, esta quinta-feira, à Agência ECCLESIA.

A Arquidiocese de Évora apresentou o seu Projeto ‘Évora Sacra’27 – com vagar e com fé’, preparado para a Capital Europeia da Cultura 2027, quando a Igreja Católica celebrou o dia da Senhora das Candeias, na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, na igreja do Espirito Santo.

“Achámos que era um momento oportuno e apresentámos já as linhas fundamentais do nosso programa. Dizer que é um projeto global é, se calhar, um exagero, ou uma pretensão muito grande, mas queremos chegar tão longe quanto for possível”, acrescentou o coordenador diocesano do Projeto “Évora Sacra’27 – com vagar e com fé”.

O diretor do Departamento de Pastoral da Cultura e dos Patrimoniais da Arquidiocese de Évora acrescentou que este “é um documento aberto”, que continua a “ser construído, e tem reajustes todos os dias”, como os que tinha estado a fazer fruto “da interação, dos contactos, dos diálogos das pessoas fantásticas” que encontram, e pessoas “muito interessantes” que querem colaborar, porque “este projeto está a criar sinergias”.

“O património é uma coisa fantástica e Évora tem um património de excelência, mas, atenção, os lugares são interessantes, mas achamos que as pessoas ainda são mais interessantes e, por isso, queremos também dar uma atenção muito grande às pessoas.”

Esta sexta-feira, dia 6 de fevereiro, a Associação Évora 2027, que como finalidade o planeamento, promoção, desenvolvimento e execução da iniciativa ‘Évora Capital Europeia da Cultura 2027’, promove uma petição pública para instituir-se o ‘Dia Nacional do Vagar’.

“Não tenho qualquer dúvida não só em assinar, como promover essa ideia, e certamente haverá essa preocupação de explicar o que é o vagar: O vagar não é a ausência de atividade, é uma atividade, é um fazer com outro olhar, com outro sentido. Portanto, é um estar, é um ser, é um preenchermo-nos, termos tempo para o essencial”, referiu o sacerdote eborense.

O coordenador do Projeto católico “Évora Sacra’27 – com vagar e com fé”, acrescenta que, se calhar, hoje existe tempo para muita coisa, e as pessoas fazem “muitas coisas”, mas, depois, o essencial fica esquecido.

“O vagar é o reencontro com o essencial, e isso é repousante, isso faz-nos estar bem connosco, com a nossa consciência, com a nossa intimidade, com a nossa interioridade, e esse vagar é urgente.”

Foto: Arquidiocese de Évora

A Arquidiocese de Évora apresentou também a imagem gráfica do projeto ‘Évora-Sacra’27 – com vagar e com fé’, e vão ter várias ferramentas complementares, como uma página na internet, “um site que servirá de plataforma para uma série de coisas” que querem propor, um guia em formato físico, e um passaporte, o coordenador salientou que, hoje, as pessoas visitam os lugares com o smartphone na mão, “que lhes serve de porta para uma infinidade de conteúdos, e isso é fundamental”, por isso, criaram “uma identidade digital”.

O logótipo do projeto é o pórtico da Sé de Évora, “de maneira estilizada, com as cores bem típicas do Alentejo”: “Que é o amarelo, o ocre, que simboliza, é a cor das cearas douradas, ao mesmo tempo é um apelo à terra, é também a cor do sagrado, do dourado, própria da contemplação”.

O programa da arquidiocese católica para Évora a Capital Europeia da Cultura 2027 inclui rotas, festivais e concertos, exposições, colóquios e conferências, doçaria conventual, formação para guias intérpretes, envolver, por exemplo, a pastoral juvenil diocesana e o setor da catequese das infância e adolescentes.

CB/

Foto: Arquidiocese de Évora

A escolha da cidade de Évora como Capital Europeia da Cultura 2027 foi anunciada a 7 de dezembro de 2022, e o conceito baseia-se no ‘Vagar’, o que para a arquidiocese católica foi uma “feliz escolha”.

“O ‘vagar’ é uma palavra, eu diria, inesperada para um tema de Capital Europeia da Cultura, mas parece-me extraordinariamente feliz, porque é um tema que engloba conteúdos muito impactantes, de grande atualidade, muito desafiadores, num mundo que tem tanto rebuliço, tem tantos ruídos, tanta azáfama. O ‘vagar’ surge quase como uma provocação e cheia de sentidos e de significados”, desenvolveu o padre Mário Tavares.

Segundo o sacerdote, coordenador do projeto ‘Évora Sacra’27 – com vagar e com fé’, este tema/conceito “são muito caros” à Igreja Católica, nomeadamente “à experiência da fé”, porque a experiência da fé “tem muito a dimensão do vagar para Deus, do estar em repouso com Deus, em contemplação, de estar no silêncio, de procurar Deus no silêncio”, para além do momento celebrativo, “da festa.

A arquidiocese alentejana rejubilou com a eleição de Évora para Capital Europeia da Cultura, e, como Igreja detentora e guarda de “um património tão rico na cidade e na região”, quiseram sentir-se “provocados por esta nomeação” e construir um projeto que tivesse o seu “rosto” para oferecer às pessoas que os possam visitar.

“A nossa ideia, digamos, extravasa Évora 27. Gostamos de olhar Évora 27 como oportunidade de criar um elã, uma dinâmica cultural, para que, como diocese, como Igreja, possamos ter sempre um programa cultural a oferecer, porque Évora 27 vai ser muito importante, mas Évora 28 também, Évora 29, Évora 30, Évora sempre.”

O diretor do Departamento de Pastoral da Cultura e Bens Patrimoniais destacou que Évora “tem uma pegada do sagrado muito significativa”, desde tempos remotos, como o cromeleque, “um conjunto de megalitismo de excelência, que era um santuário, coisas paleocristãs, ecos da Ocupação Árabe, do Islão – a rua da Mesquita, a mouraria” -,o Templo de Diana, a marca da ocupação romana, “a grande herança cristã”.

“Évora foi sempre um lugar sagrado, desde a pré-história; há uma pegada do sagrado, do religioso, na cidade, que até sob esse ponto de vista é muito interessante de reparar. E, claramente, somos desafiados ao turismo religioso, que não queremos que seja só turismo, também seja religioso no sentido da busca do sentido da vida”, acrescentou.

O padre Mário Tavares salientou que os turistas procuram o Templo de Diana, mas também as igrejas de São Francisco, a catedral, e a do Espírito Santo, “lugares que são de maior referência, e que foram sendo construídos, ao longo do tempo, como uma herança, uma tradição, que hoje continua viva”.

 

 

Partilhar:
Scroll to Top