João Paulo II está convencido de que a nova Europa está a nascer “sem alma” e fez questão de o dizer publicamente, repetidas vezes, nestes últimos dias, marcados pela assinatura do Tratado Constitucional Europeu. O Papa referiu-se a este facto, ocorrida em Roma no dia 29 de Outubro, na sua alocução aos peregrinos, antes do Angelus deste Domingo, assinalando que “foi um momento particularmente altamente significativo na construção da nova Europa, para a qual continuamos a olhar com confiança”. Apesar desse voto de congratulação, João Paulo II vincou que esta “é a etapa mais recente de um caminho que ainda será longo e que parece cada vez mais absorvente”. Na sua intervenção, o Papa lembrou que a Santa Sé sempre foi favorável à promoção de uma Europa unida em torno valores comuns que fazem parte da sua história, mas precisou que “ter em conta as raízes cristãs do continente significa valer-se de um património espiritual que continua a ser fundamental para o desenvolvimento da União”. Nesse sentido, João Paulo II manifestou o desejo de que os cristãos continuem a colaborar em todos os âmbitos da construção europeia com “os fermentos evangélicos que são garantia de paz e colaboração entre todos os cidadãos, no compromisso compartilhado de servir o bem comum”. Antes da assinatura do Tratado Constitucional, o Papa recebera o presidente em exercício da Comissão Europeia, Romano Prodi, a quem não escondeu a sua desilusão pelo facto de o texto ignorar as raízes cristãs da Europa. “Reconhecido ou não nos documentos oficiais, este é um dado inegável que nenhum historiador pode esquecer”, atirou João Paulo II. Este sábado, ao receber o primeiro-ministro da Polónia, Marek Belka, o chefe da Igreja Católica mostrou-se confiante de que os valores do Evangelho irão continuar a inspirar os que têm responsabilidades na construção europeia, “apesar de faltar na Constituição europeia uma referência explícita às raízes cristãs da cultura de todas as nações que compõem hoje a UE”. “A Santa Sé e eu, pessoalmente, procurámos apoiar o processo de alargamento para que a Europa pudesse respirar plenamente com dois pulmões: com o espírito do Ocidente e do Oriente”, frisou. O Papa entende que a assinatura do Tratado representa, em certo sentido, “a conclusão do processo de alargamento da comunidade daqueles Estados que sempre cooperaram na formação dos fundamentos espirituais e institucionais do Velho Continente, mas que durante os últimos decénios permaneceram à margem, por assim dizer”. A conclusão do discurso, contudo, voltaria à principal preocupação de João Paulo II neste momento: “não é possível construir uma unidade duradoura separando-nos das raízes das quais cresceram os países da Europa ou da grande riqueza da cultura espiritual dos séculos passados. Não haverá unidade da Europa até que esta não se fundamente na unidade do espírito”.
