Perspectivas emergentes I CONGRESSO NACIONAL DA ESCOLA CATÓLICA Perspectivas emergentes “Em boa hora decidiu a Associação Portuguesa de Escolas Católicas realizar um Congresso Nacional a fim de unir e valorizar esforços e vontades em prol da Escola Católica”. Estas palavras, com que se inicia a carta da Secretaria de Estado do Vaticano dirigida ao Congresso, expressam bem aquele que é o sentir geral de todos os congressistas. Sabemos que o ambiente educativo no qual vivemos é marcado por uma visão estatal de orientação claramente laicista., mas, apesar disso, e também por isso, não queremos deixar de partilhar e transmitir a nossa reflexão educativa, concretizando, assim, o direito, que é também para nós o dever, de exercer a cidadania, prestando um serviço á sociedade portuguesa. Nesse sentido, foi preocupação nossa, ao longo destes dias, “redesenhar com esmero a Identidade da Escola Católica, profeticamente aberta a todos, participada, verdadeira comunidade educativa, sem desmerecer a sua qualidade”, bem como “redescobrir que os valores evangélicos são moldura adequada para um projecto educativo e que é inesgotável o paradigma educador que é Jesus Cristo” (da mensagem inicial do Secretario Geral ao Congresso). E sejamos claros, o trabalho que aqui desenvolvemos ao longo destes dias não constituiu, sobretudo, uma questão religiosa, ou confessional, como alguns podem pensar e outros certamente gostariam de fazer crer, mas sim uma questão de liberdade. Com efeito, as liberdades de ensinar e aprender são uma realidade que integra o âmbito dos direitos fundamentais da pessoa humana. A nós compete o dever de exercer estas liberdades, ao Estado a obrigação de as garantir, defendendo-as de abusos e atropelos e criando as condições para o seu exercício (cf mensagem inicial do Secretário Geral, citando o Cardeal Patriarca) Escola católica – Propostas e Desafios É a partir do tema do nosso Congresso que aqui vamos tentar identificar quais as perspectivas e desafios que foram surgindo ao longo da reflexão. Uma primeira perspectiva emerge de uma forma destacada: A Escola Católica para concretizar a sua missão, na fidelidade à sua especificidade, tem de ser verdadeiramente escola e verdadeiramente católica. Se quisermos, podemos dizer que estas duas dimensões constituem as duas faces de uma mesma moeda, e como todos sabemos numa moeda as duas faces são igualmente importantes e indispensáveis. É desta realidade que surgem as propostas e os desafios, que vamos reflectir em duas direcções: Do mundo para a Escola Católica; Da Escola Católica para o mundo. Comecemos pela primeira – Do mundo para a EC. Hoje parece haver um consenso alargado em relação à importância da educação na construção do futuro do mundo, que todos queremos mais humano e mais fraterno.Todos sabemos como é fundamental e imprescindível que a(s) cultura(s) esteja(m) ao serviço da dignificação e promoção do ser humano. A partir desta necessidade, podemos perceber como emerge uma clara proposta de intervenção a todos aqueles que tenham a capacidade de reflectir e concretizar a educação. Também daqui emergem desafios inevitáveis: A Escola Católica deve ser, tem de ser, uma escola de todos e para todos. A criatividade e a ousadia são a este nível indispensáveis; A Escola Católica tem de testemunhar inequivocamente a sua identidade, fundada e centrada em Jesus Cristo. Nele encontramos o paradigma para a nossa intervenção pedagógica. A Escola Católica tem que ter significado e ser significante. Podemos estar muito atentos ao mundo, mas se não formos capazes da dimensão do transcendente, então corremos o risco de ser uma escola cujos significantes carecem de significado, uma escola como muitas outras escolas, uma escola que acaba por dizer pouco ainda que o diga muito bem. Podemos estar abertos ao transcendente, mas se não formos capazes de o concretizar na história concreta que vivemos, então corremos o perigo de ter significado, mas carecer de significante. Podemos ainda viver numa constante roda-viva de actividades convencionais e rotineiras, fechando-nos sobre nós mesmos, então corremos o risco de carecer de significado e significante (Cf Abílio de Gregório García, La escuela católica que escuela?,Anaya 21, Madrid 2001, 52-53). Se quisermos podemos aqui utilizar outra linguagem, a Escola Católica tem de ser sacramento. Vejamos, agora, a segunda direcção – Da EC para o Mundo Toda a educação, para ser verdadeira educação, tem de envolver sempre uma determinada concepção do ser humano e da vida. É a este nível que podemos colocar a proposta da EC ao mundo. Trata-se de propor uma cosmovisão, uma concepção do ser humano e uma experiência de vida, tendo como centro inspirador e instância crítica a pessoa de Jesus Cristo. A partir daqui emergem desafios evidentes: A formação integral da pessoa humana exige trabalhar a dimensão do religioso, da transcendência, da interioridade. Não pode haver verdadeira construção da personalidade sem valores a partir dos quais se podem discernir os caminhos a trilhar e as atitudes a assumir. Para promover esta educação são necessárias escolas enraizadas em verdadeiras comunidades educativas, e estas são muito mais do que simples comunidades laborais. Para alcançar este objectivo é indispensável promover a ‘cumplicidade’ com as famílias no processo de educação. Interpelações Por causa da sua missão, a Escola Católica tem de ser criativa, ousada e interventiva, por isso ela não pode deixar de exigir que os actos das nossas autoridades governativas sejam coerentes com o seu discurso. Na verdade, constantemente ouvimos que uma das grandes apostas do governo (de todos os últimos governos) é numa educação de qualidade e que por ela passam muitos dos passos a dar no sentido do progresso do nosso País. Também temos ouvido dizer, por parte das mesmas autoridades, que a Escola Católica é uma escola de qualidade. Pois bem: sejam então consequentes apoiando inequivocamente e sem medos, nem preconceitos políticos ou religiosos, aqueles que já deram provas sobejas de fazer bem e que continuam comprometidos nesse caminho. Como já se disse no início, o apoio à Escola Católica não é uma questão religiosa ou confessional; é uma questão de liberdade. E se nos acusam de ser elitistas ou apenas de chegarmos a algumas franjas (o que de todo nem é uma verdade absoluta), então ajudem-nos a chegar a todos porque, não restem duvidas que é essa a nossa vontade e o nosso querer. Neste caminho é também necessário assumir, com coragem outros gestos: Temos que reconhecer que mais do que Escola Católica, aquilo que ainda somos é, ‘escolas católicas’. Não se preconiza aqui evidentemente uma uniformização; o que se quer é uma maior unidade nos princípios, na reflexão e nas respostas aos desafios. Se queremos ser verdadeiras comunidades educativas, então temos que responder ao desafio da integração dos leigos, não apenas porque os religiosos e as religiosas já são poucos, nem somente na partilha das responsabilidades de gestão e administração. É preciso ir mais longe; e, com ousadia, assumir parcerias na construção da identidade e no discernimento da missão. Claro que a construção de uma comunidade destas exige vínculos muito mais profundos que os laborais; para isso é também necessário que as entidades tutelares e os leigos assumam atitudes e gestos que vão para além de um simples contrato laboral. Temos que assumir, com ousadia, que a Escola Católica não é um serviço à Igreja, mas é acima de tudo um serviço que a Igreja presta ao mundo, através da educação. Por isso ela tem que ser sentidamente acarinhada e apoiada pela comunidade eclesial, na qual, ao viver a experiência de encontro com Jesus Ressuscitado, adquire os traços da sua identidade e ganha a força para realizar a sua missão. O caminho que a partir deste congresso se nos abre é certamente difícil, mas a fidelidade ao que somos exige que o percorramos com coragem e esperança. I Congresso Nacional da Escola Católica Fátima 15 de Novembro de 2003
