Exposição no Museu de Arte Sacra e Etnologia, em Fátima
O Museu de Arte Sacra e Etnologia, dos Missionários da Consolata em Fátima, irá inaugurar, dia 2 de Outubro, a exposição temporária: «Do Som à Imagem» – Pintura de Eugénia Tomaz. A mostra, composta por 18 obras da pintora, é inspirada na vasta obra do compositor francês Olivier Messiaen (1908 – 1992) e também no recente livro de poemas de João Paulo II, intitulado Tríptico Romano. “A relação que existe entre uma obra e outra não deixa de ser surpreendente. Por isso, toda a sequência de imagens é orientada segundo as ideias-chave de Tríptico Romano” – revela Gonçalo Cardoso, do referido Museu. O interesse da pintora pela música de Olivier Messiaen deve-se, em primeiro lugar, ao facto de o compositor conjugar na sua obra o fenómeno som / cor. Os temas que atribui às suas composições são “profundamente poéticos”, prestando-se a tomar forma pela imagem. “A música é um perpétuo diálogo entre o espaço e o tempo, entre o som e a cor, diálogo que termina numa unificação: o tempo é um espaço, o som é uma cor, o espaço é um complexo de tempos sobrepostos, os complexos de sons existem simultaneamente como complexos de cores.” A Exposição irá estar patente ao público diariamente (excepto à 2ª feira) até ao dia 2 de Janeiro com o seguinte horário: 10h00 às 19h00 (Outubro); 10h00 às 17h00 (Novembro a Janeiro). Museu de Arte Sacra e Etnologia Rua Francisco Marto, 52 Apt. 5 2496-908 FÁTIMA Tel. 249 539 470 Fax 249 539 479 Email [email protected] A exposição segundo a autora O título desta exposição de pintura, Do Som à Imagem, é inspirado na vasta obra do Compositor francês Olivier Messiaen (1908 – 1992), e também no recente livro de poemas de João Paulo II, intitulado Tríptico Romano. A relação que existe entre uma obra e outra não deixa de ser surpreendente. Por isso, toda a sequência de imagens é orientada segundo as ideias-chave de Tríptico Romano. Olivier Messiaen nasceu em Avignon no ano de 1908, da poetisa Cécile Sauvage. Aos onze anos de idade entra para o Conservatório em Paris. É nomeado em 1931, com apenas 23 anos, titular do órgão da Igreja da Sainte-Trinité, em Paris. Este órgão foi adaptado à especificidade da música de Messiaen. Em 1936 é nomeado professor na escola normal de música e na Schola Cantorum, uma função que continua a exercer no Conservatório de Paris, depois de ter sido libertado do campo de concentração nazi de Görlitz (como prisioneiro de guerra), em 1942. O meu interesse, como pintora, pela música de Olivier Messiaen deve-se, em primeiro lugar, ao facto de o compositor conjugar na sua obra o fenómeno som / cor. Os temas que atribui às suas composições são profundamente poéticos, prestando-se a tomar forma pela imagem. “A música é um perpétuo diálogo entre o espaço e o tempo, entre o som e a cor, diálogo que termina numa unificação: o tempo é um espaço, o som é uma cor, o espaço é um complexo de tempos sobrepostos, os complexos de sons existem simultaneamente como complexos de cores. O músico que pensa, vê, entende, fala, por meio destas noções fundamentais, pode em certa medida, aproximar-se da transcendência.” Messiaen foi sempre um “católico de fé convicta, assumida e inabalável” apesar de ter nascido de pais não crentes e de ter vivido “numa sociedade de envolvente agnosticismo”. Deve-se à genialidade do seu talento artístico esta aproximação aos mistérios da Fé Cristã. O compositor trabalhou muitos temas com base nos sons da natureza (sobretudo o canto dos pássaros, que ele considerava como a visibilidade dos anjos na terra). Inspirou-se também em muitos temas bíblicos, com especial preferência pela visão escatológica do Apocalipse. “ O Apocalipse descreve a Cidade Santa com uma profusão de cores, tema ideal para o músico colorista, que usou os instrumentos específicos (…) para pintar a policromia apocalíptica” . Um dos “dramas” de Olivier Messiaen era precisamente a dificuldade em fazer entender a existência de cores na sua música. Esta relação som / cor é ainda considerada um fenómeno pouco comum e de difícil compreensão. “…ouvindo os sons, eu vejo intelectualmente as cores. Digo-o ao público, repito-o à crítica, expliquei aos meus alunos, mas ninguém me acredita (…) os ouvintes compreendiam mas não viam nada”. Por este motivo o compositor privilegia os sentidos do ouvido e da visão. Abre, neste sentido, possibilidades a uma ligação futura entre a sua música e a pintura. “Não se trata apenas de uma codificação de símbolos (…) mas de uma transferência psíquica de sensações: Messiaen ouve sons e percebe cores. É como se fosse dotado de um transformador mental da banda de frequências acústicas no espectro de frequências ópticas”. Ao escutar e captar a profundidade teológica e religiosa dos temas de Messiaen podemos levantar a questão da experiência mística na vida do compositor. “A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de percepção ou “visão”: a visão dos sentidos, ou seja, a percepção externa corpórea; a percepção interior; e a visão espiritual (Visio sensibilis, imaginativa, intellectualis).” Será, talvez, neste sentido que Messiaen classifica os três tipos de música; a música litúrgica, a música religiosa e a música colorida. As duas primeiras valem para o tempo “convocam os sentidos”, sendo a música litúrgica exclusivamente dependente do culto; ela celebra Deus na Igreja. A música religiosa atinge e une todos os tempos porque toca a matéria e o espírito e faz percepcionar Deus em tudo. Porém, a música colorida, refere-se “à contemplação real, à visão beatífica depois da morte. (…) a música colorida produz o mesmo efeito dos vitrais e das rosáceas da Idade Média: trazem-nos o deslumbramento” . Deve-se a isto a “estranheza” dos sons de Messiaen. Ao tratar-se de uma percepção intelectual, e, portanto, pura, brilhante, essencial – sem características discursivas ou narrativas -, ele tenta em simultâneo transmitir formas. “Fiel à estética debussysta (…de Debussy, que Messiaen admira como um dos maiores coloristas musicais…) Messiaen usa o pentagrama como uma tela, onde as pinceladas sonoras modelam ao mesmo tempo contornos lineares e um espaço colorido” . É precisamente aqui que entra a relação com a minha pintura. Apesar desta ligação, que estabeleço, ser sobretudo intuitiva e imaginativa, assenta na profunda convicção de que o som necessita da imagem para se completar. Em Tríptico Romano, João Paulo II “grita” esta realidade. “Invoco-vos “videntes” de todos os tempos. / A visão espera a imagem (…) / Desde que o Verbo se fez carne, a visão, / desde então, espera.” Na minha pintura tenho como objectivo uma certa aproximação ao universo dos Ícones. Penso que a linguagem musical de Olivier Messiaen está muito próxima dos códigos de linguagem do Ícones. “As formas e as cores do Ícone não são subjectivas. Elas revelam as formas e as cores da criação ideal, unidas pelo Criador; elas manifestam visivelmente a Glória de Deus já presente neste mundo.” Poderíamos ser levados a considerar que a dificuldade da música do compositor se deve ao facto de ser demasiado intelectual e, portanto, abstracta. O que acontece na realidade é a percepção de imagens ao mais elevado nível intelectual. “Numa época em que triunfa a arte abstracta, Messiaen escreve música figurativa; (…) e, antes como depois do Concílio Vaticano II, professa a consagração do mundo a Deus!” Para o enriquecimento da sua linguagem musical Messiaen, não se limitou às restrições de uma única cultura. Ele tem uma visão universal da realidade. “… a palavra música deriva da expressão indo-europeia Men que designa os movimentos do espírito” Por isso ele vai buscar elementos aos ritmos provinciais hindus, à métrica grega, à natureza, à cosmologia e à teoria da relatividade. A “visão” não pode ser remetida para o domínio subjectivo e individual. Ela é património comum de todos nós, e só se conhece partilhando. “Deus é totalmente diferente, mas Ele é suficientemente poderoso para se nos revelar; pois criou as suas criaturas de modo a serem capazes de o “ver” e amar.” Isto significa que com a Encarnação do Verbo de Deus na história da humanidade, abriram-se possibilidades aos sentidos (corpóreos e espirituais) de modo a percepcionar e a fazer a experiência de Deus nesta realidade visível em ordem à Eternidade. É esta a transcendência da música em Messiaen.
