Diálogo Inter-religioso: Teólogo tunisino defende que Islão deve rejeitar legitimação religiosa do terrorismo

Adnane Mokrani interveio em sessão comemorativa do 7.º aniversário da declaração sobre a fraternidade humana

Foto Agência ECCLESIA/PR – Encontro da CEP para assinalar os sete ano do documento sobre a Fraternidade Humana

Coimbra, 03 fev 2026 (Ecclesia) – Adnane Mokrani, professor de Teologia Islâmica, afirmou hoje, em Coimbra, que o Documento sobre a Fraternidade Humana exige uma interpretação do Alcorão que rejeite a “legitimidade” religiosa do terrorismo.

“Os terroristas não devem gozar da legitimidade de serem considerados representantes de uma religião abraâmica e universal como o Islão”, declarou o especialista, na sessão que assinala o 7.º aniversário da declaração conjunta do Papa Francisco e do Grande Imã de Al-Azhar, promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

O docente da Universidade Pontifícia Gregoriana sustentou que o texto de 2019, firmado em Abu Dhabi, representa o “ápice da relação do Papa Francisco com o mundo muçulmano”.

Numa reflexão apresentada no Convento de São Francisco, perante mais de uma centena de pessoas, Adnane Mokrani sublinhou que a violência deve ser tratada como uma questão hermenêutica, defendendo que “uma interpretação adequada do Alcorão se opõe a qualquer forma de violência”, como escreveu Francisco na exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’ (2013).

Foto Agência ECCLESIA/PR, Adnane Mokrani

Para o teólogo tunisino, empenhado na promoção da não-violência, o caminho passa por dar “voz e visibilidade aos muçulmanos pacíficos”, isolando os violentos para os levar à conversão.

“Se o Islão é uma ‘religião verdadeira’ e não uma mera ideologia política ou bélica, deve necessariamente opor-se à violência e servir de remédio para este mal”, acrescentou.

A intervenção destacou também a dimensão política do documento de Abu Dhabi, nomeadamente a necessidade de superar o conceito de “minoria” em favor de uma cidadania baseada na igualdade de direitos e deveres.

Adnane Mokrani alertou que o termo “minorias” traz consigo “os germes do isolamento e da inferioridade”, sendo urgente renunciar ao seu uso discriminatório.

“Estas afirmações são importantes no contexto islâmico, onde, em alguns países, as minorias, incluindo as cristãs, sofrem várias formas de discriminação”, recordou, apontando ainda o crescimento da islamofobia no Ocidente.

Sobre o diálogo teológico, o docente universitário rejeitou que este seja inútil ou perigoso, definindo-o antes como uma missão de transformação.

“O diálogo não é negociação; pelo contrário, exige a escuta plena do homem, onde Deus reside. Em cada homem há uma centelha divina, manifesta ou oculta”, referiu o teólogo muçulmano.

O especialista advogou uma “teologia da perplexidade”, onde o teólogo não se apresenta como detentor de todas as certezas, mas alguém que partilha dúvidas e procura a verdade com o outro.

“O teólogo é um infalível que procura partilhar as suas dúvidas antes das suas certezas. Por isso, precisa da sua comunidade religiosa, para discutir, para se corrigir sem censura e para crescer”, sustentou.

No dia 4 de fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram nos Emirados Árabes Unidos o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, que condena o terrorismo e a intolerância religiosa.

Adnane Mokrani destacou simbolismo histórico do documento, que evoca o encontro de há 800 anos entre São Francisco e o sultão al-Kamil, surgindo agora num tempo também ele marcado por guerras.

O conferencista denunciou o “genocídio” em Gaza, falando do Documento de Abu Dhabi como um “paradigma de futuro”, explicando “para que serve a religião”, como “instrumento de paz, de humanização e de divinização”.

“A guerra moderna, de hoje, é uma guerra que não evita danos colaterais. Atingir civis é um objetivo, uma arma da guerra, de forma intencional, com a ajuda da inteligência artificial”, disse.

O especialistas apelou a uma resistência global, “não-violenta”, com base nos valores enunciados pela declaração sobre a fraternidade humana.

A sessão desta tarde, organizada pela Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso da CEP, começou com uma intervenção do cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, e vai ser encerrada por Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa.

Na sequência da assinatura da Declaração de Abu Dhabi, a Assembleia-Geral das Nações Unidas proclamou o dia 4 de fevereiro como Dia Internacional da Fraternidade Humana.

OC

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