Bispo de Angra lembrou que documento de Abu Dhabi «é de todos», ainda que nem todas as religiões o aceitem

Coimbra, 03 fev 2026 (Ecclesia) – O presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização convidou hoje, em Coimbra, a rejeitar o medo, defendendo o abraço entre crentes de diferentes religiões.
“O nosso século começou nestes 25 anos sob o sinal do medo, 11 de setembro, gripes, pandemias. Já está provado que o medo muda a humanidade, mudou-nos. O medo da segurança, das seguranças. Qual é a nossa segurança de hoje? Se calhar o abraço do irmão”, afirmou D. Armando Esteves Domingues, no Convento de São Francisco.

O 7.º aniversário da Declaração sobre a Fraternidade Humana, assinada pelo Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, foi assinalado hoje com uma sessão promovida pela Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso, da CEP.
“No mundo onde estamos inseridos, temos que ser estes homens e mulheres sem medo, que abraçam”, disse o bispo de Angra, no encerramento da iniciativa.
“O encontro, se é de abraço, é performativo, é como foi naquele dia a assinatura do documento”, recordou.
Na intervenção, D. Armando Esteves Domingues agradeceu a “todos os homens sem medo da história”, como Francisco de Assis, que se encontra num abraço com o Sultão Al-Kamil, bem como o antecessor de Leão XIV e o grande imã de Al-Azhar.
O responsável enfatizou que a declaração de Abu Dhabi é “um documento que é de todos, mesmo se nem todos aqueles que ele representa ainda o aceitem”.
“Nem todos os católicos, nem todos os muçulmanos aceitam sem reflexão ou sem questionamento este documento. Há quem mesmo não aceite, sabemo-lo até entre católicos”, lamentou.
D. Armando Esteves Domingues recordou depois um episódio relacionado ao ódio contra muçulmanos que o obrigou a tomar uma atitude.

“Devo dizer que na minha vida cancelei duas pessoas na minha comunicação. Um padre, porque me reencaminhava e-mails alimentando uma cultura anti-muçulmana. Avisei uma vez, duas vezes, à segunda disse, se vem mais alguma coisa, a minha caixa fica fechada”, recordou.
No final da intervenção, o bispo de Angra desejou que em diversos espaços, como na universidade, se ensinasse “a cultura da fraternidade”, para que espoletasse vontade de “conhecer” e “estudar” outras religiões.
“Mas isso depende de nós todos, professores de Moral, bispos, padres”, sublinhou.
D. Armando Esteves Domingues agradeceu à a Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso, integrada na Comissão Missão e Nova Evangelização, por colocar na agenda como “prioridade” “aquilo que já está desde o Concílio em tantos documentos da Igreja”.
“Oxalá nós, e agora digo para a nossa comissão e termino, não nos limitemos a ter uma comissão”, desejou.
Antes de D. Armando Esteves Domingues, o padre Adelino Ascenso, fez uma série de agradecimentos, nomeadamente aos membros das confissões religiosas ali presentes, à Câmara Municipal e Diocese de Coimbra pela cedência do espaço, recordando a ocasião que ali todos reuniu.

O sacerdote, que dirige a Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso, assinalou que o organismo não podia, “de forma nenhuma, deixar passar em claro o 7º aniversário da assinatura do documento de Abu Dhabi”, pois lhe parece “ser um documento com muitos pontos necessitados de ser implementados”.
“Dizia um escritor japonês que, cada vez que se realiza um encontro genuíno, permanecem elos indestrutíveis. Desejo que este tenha sido um belo e genuíno encontro e que, como tal, deixe elos indestrutíveis”, expressou.
No dia 4 de fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram nos Emirados Árabes Unidos o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, que condena o terrorismo e a intolerância religiosa.
Na sequência desse texto que ficou conhecido como a Declaração de Abu Dhabi, a Assembleia-Geral das Nações Unidas proclamou o dia 4 de fevereiro como Dia Internacional da Fraternidade Humana.
LJ/OC
