Diálogo Inter-religioso: «Ideia de fraternidade humana é indissociável do projeto europeu», afirmou reitora da Universidade Católica

Isabel Capeloa Gil falou de «fraternidade e diálogo cultural» e do seu impacto nas sociedades

Coimbra, 03 fev 2026 (Ecclesia) – A reitora da Universidade Católica Portuguesa (UCP) afirmou hoje que “a ideia de fraternidade humana é indissociável do ‘projeto europeu’”, numa sessão sobre o ‘Declaração de Abu Dhabi’, documento estruturante para a paz mundial e para o diálogo inter-religioso.

“Num tempo de guerra como o que vivemos, a construção da fraternidade é certamente o maior desafio do presente. Da perspetiva da Europa, podemos dizer que o dissenso e a guerra são presenças perenes no percurso da grande geografia histórico-cultural que podemos, de forma lata, designar por Europa e que se alarga do Mar Cáspio ao Atlântico”, disse Isabel Capeloa Gil, numa reflexão apresentada perante mais de uma centena de pessoas, no Convento de São Francisco, em Coimbra.

A reitora da UCP, professora catedrática de Estudos Alemães, salientou que conflito e reconciliação “têm sido ancilares na construção” da comunidade de valores, instrumentais na abertura “à diversidade de culturas, de perspetivas”, e que se destaca em relação a qualquer outro bloco atual, “seja na África, na Ásia ou nas Américas”.

“A Europa é um continente milenarmente ferido, com uma geografia cinzelada por violentas fraturas que deixaram cicatrizes profundas na memória genética das nações; todavia, também a ideia de fraternidade humana é indissociável do projeto europeu que, com todas as vicissitudes, não deixa de ser herdeiro do desenvolvimento de uma tradição, e de uma espiritualidade que nasce no Médio Oriente, se institucionaliza e universaliza em e com Roma”, desenvolveu.

A Igreja Católica em Portugal assinalou hoje o 7º aniversário do Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, com um encontro promovido pela Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso da Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização, da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP); esta declaração conjunta foi assinada pelo Papa Francisco e pelo grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, no dia 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Foto Agência ECCLESIA/PR – Encontro da CEP para assinalar os sete ano do documento sobre a Fraternidade Humana

Isabel Capeloa Gil salientou que este documento manifesta o “comprometimento” do Papa Francisco e do grande imã Ahmad Al-Tayeb em promover a fraternidade “ancorada em três princípios”: “Adotar a cultura do diálogo como caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento mútuo como método e critério”.

“A fraternidade humana entendida como gesto universal, tal como é proposto no documento de Abu Dabhi, apela a um diálogo que não anula a singularidade mas que a recupera como riqueza para a compreensão. O compromisso de Abu Dabhi é de trabalhar em diálogo, além do universalismo abstrato para atingir a paz universal concreta”, referiu a oradora.

Segundo a reitora da Universidade Católica Portuguesa, a declaração de Abu Dhabi é “estruturante para a paz no mundo, para o diálogo inter-religioso”, é o resultado da “convicção profunda da responsabilidade das religiões” para prosseguir, defender e garantir a “fraternidade humana como valor universal”, e numa Europa polarizada esta fraternidade humana “não pode ser apenas deixada ao discernimento das lideranças políticas”, mas deve ser exercida também “na micro realidade do dia-a-dia da vida dos crentes, dos responsáveis das comunidades religiosas, das instituições”.

“O documento de Abu Dhabi ao centrar a fraternidade não na simples tolerância de uma existência lado a lado, mas no diálogo, uma cultura do diálogo assume um outro risco, porque traz consigo a necessidade de reconhecer a razão do outro”, realçou, observando que o entendimento da cultura como diálogo e encontro “era recorrente no pensamento do Papa Francisco”.

Foto Agência ECCLESIA/PR – Encontro da CEP para assinalar os sete ano do documento sobre a Fraternidade Humana

A sessão desta tarde começou com uma intervenção do cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, seguiu-se Adnane Mokrani, professor de Teologia Islâmica, antes de Isabel Capeloa Gil, o comentário do presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, Pedro Vaz Patto, e a conclusão do presidente da Comissão Missão e Nova Evangelização, D. Armando Esteves Domingues (bispo de Angra).

Na sequência da assinatura da Declaração de Abu Dhabi, a Assembleia-Geral das Nações Unidas proclamou o dia 4 de fevereiro como Dia Internacional da Fraternidade Humana.

CB/OC

A reitora da Universidade Católica Portuguesa apresentou uma perspetiva europeia para este documento através dos conceitos, a interpelação, a perspetiva da teoria cultural, e da realidade de própria universidade, “afirmadamente católica na sua missão,  na sua identidade universal”, que acolhe “estudantes de 113 nacionalidades, crentes e não crentes, maioria não crentes, cristãos, católicos, muçulmanos, judeus, hindus, budistas”.

E homenagem também os dois signatários da Declaração de Abu Dhabi que, em tempos diferentes, estiveram na UCP, o Papa Francisco no dia 3 de agosto de 2023, enquanto o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, a 15 de março de 2018, que “falou justamente de diálogo inter-religioso”.

Como exemplos concretos de “fraternidade e de um diálogo que se pratica” entre católicos e muçulmanos, Isabel Capeloa Gil começou por mostrar uma imagem da capital da Indonésia, na cidade de Jacarta a maior mesquita islâmica da Ásia, construída em 1956, está frente à Catedral Nossa Senhora da Assunção, construída pelos holandeses e inaugurada em 1901, templos visitados pelo Papa Francisco a 5 de setembro de 2024.

A reitora da UCP terminou a sua reflexão com uma fotografia da jovem iraniana Mahoor Kaffashian com o Papa Francisco; a bolseira Fundo de Acção Social ‘Papa Francisco’, enquanto estudante de Medicina Dentária, esteve com o pontífice argentino, na sede da Universidade Católica, a 3 de agosto de 2023, e recordou a sua intervenção.

 

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