Cultura: «Todos os artistas são necessários para fazer pontes e mostrar que a arte não é um luxo» – Daniela Luís

Arquiteta de formação, artista de aguarela, canetas e papel por paixão, Daniela Luís foi ao Jubileu dos artistas confirmar o seu dom e desenhar os sons e os cheiros de uma experiência «intensa»

Lisboa, 26 fev 2025 (Ecclesia) – Daniela Luís, arquiteta de formação e artista, participou no Jubileu dos artistas, no Vaticano, e recorda o encontro como um convite a olhar a arte como importante – “não é um luxo” – e que todos os artistas são necessários.

“Foi um sinal de que todos nós importamos. Há quem ache que a arte não serve para nada mas chamar visões diferentes para uma coisa desta magnitude, colocar os artistas aos pés de uma basílica às escuras, torna-nos todos iguais, mesmo chamando artistas sem relação com a Igreja”, recorda a artista.

Daniela Luís decidiu regressar a Roma sozinha, depois de ter estado na cidade eterna em 2015, quando era estudante de arquitetura, e viver dias “intensos” e sentir-se parte de um chamamento para entregar os seus dons ao serviço da construção de pontes entre artistas.

“Foi muito intenso. Há muito a ideia de que a arte não serve para nada. Mas naqueles dias fomos desafiados a encontrar uma via para construirmos pontes, porque a arte cria muitas pontes. Eu conheci pessoas de outros países, com visões diferentes do mundo, mas as pessoas podem entender-se e a procura da beleza é uma ponte para nos ligarmos”, explica.

Habitada a conhecer os espaços através dos desenhos, em Roma, foram vários os locais onde Daniela Luís se sentou e desenhou, procurando ser invisível e absorver com os sentidos, os momentos, porque acredita que os desenhos “vão mais fundos que as fotografias”.

“Cada traço meu tem a memória do que se passa à minha volta. Normalmente fico num canto e as pessoas não me veem, sou eu que as observo. E os meus desenhos, mais do que as fotografias, ficam guardados na minha memória. Lembro-me, em cada desenho, do traço que faço, como o faço, porque o faço. E tudo isso vem acompanhado de cheiros, de sons. Quando as pessoas veem os meus desenhos, encontram determinada imagem, eu vejo um bocadinho mais”, traduz.

Daniela Luís entende que a arte traduz “pedacinhos” do artista, e que estes respondem a dons que devem ser trabalhados e entregues a outros.

O programa do Jubileu ofereceu aos artistas um percurso noturno, na Basílica de São Pedro, iluminada em determinados focos, ao som de música, propondo, no entender da artista portuguesa, um percurso de ressurreição.

“Uma experiência absolutamente fantástica: a Pietá, o baldaquino, aqueles mármores e as pinturas iluminadas com focos específicos como habitualmente não se veem, é impossível ficar indiferente ao momento. Recordo pessoas emocionadas naqueles instantes, com um violoncelo a acompanhar”, recorda.

Depois do curso de arquitetura terminado, “um tempo duro”, Daniela voltou a pegar nos lápis, nas canetas, nas aguarelas, em 2022, e decidiu deixar de “ter medo do julgamento dos outros”.

Sem formação em artes, Daniela Luís resiste em olhar-se como artista, mas reconhece o seu gosto em experimentar, em misturar materiais, em pintar círios pascais, velas, traduzir paisagens nos desenhos e experimentar cores.

“Quando voltei a pintar, percebi que precisava de acreditar um bocadinho mais no meu dom e que o posso pôr ao serviço dos outros, para o seu bem, para fazer despertar qualquer coisa. Em 2022 percebi que não preciso daquele desenho perfeito; preciso é de desenhar sem ter medo e de colocar no papel quilo que sinto”, assinala.

Foto: Agência ECCLESIA/MC

A trabalhar num atelier de arquitetura, Daniela Luís não esconde o desejo de poder projetar uma igreja.

“Com os materiais podemos fazer o que quisermos – uma igreja em betão pode convidar ao mesmo que uma feita em madeira. Mas importa perceber um caminho. Não é só meter uma cruz, porque uma igreja tem que ter uma cruz. É meter uma cruz e perceber que aquela cruz está ali por algum motivo. E qualquer coisa pode ser uma catequese”, explica.

A conversa com Daniela Luís pode ser acompanhada esta noite, no programa ECCLESIA, na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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