Patriarca latino de Jerusalém aponta Terra Santa como «laboratório» onde se testa a fraternidade contra o ódio

Coimbra, 03 fev 2026 (Ecclesia) – O patriarca latino de Jerusalém afirmou hoje, em Coimbra, que a Terra Santa é um “laboratório” onde a fraternidade é posta à prova diariamente, alertando para o impacto da guerra em Gaza.
“As recentes escaladas de violência em Gaza e as divisões entre povos e religiões parecem tornar cada vez mais distante o sonho de uma convivência pacífica e fraterna”, reconheceu o cardeal Pierbattista Pizzaballa, em ligação vídeo, na sessão comemorativa do 7.º aniversário da Declaração sobre a Fraternidade Humana, em Coimbra.
O cardeal italiano sublinhou que “Deus não pode ser invocado contra o homem”.
“Numa época em que o nome de Deus é muitas vezes instrumentalizado para justificar divisões, exclusões e até mesmo violência, esta premissa inicial é uma aposta profética”, declarou.
No dia 4 de fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram nos Emirados Árabes Unidos o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, que condena o terrorismo e a intolerância religiosa.
“A fraternidade que o Documento promove não pode ser uma mera abstração, mas deve confrontar-se com a realidade de uma terra que vive diariamente o ódio alimentado por diferenças políticas, religiosas e históricas”, sustentou o cardeal Pizzaballa.
O patriarca latino de Jerusalém descreveu a região do Médio Oriente como um cruzamento de “fés e feridas”, onde o conflito desafia a visão de paz proposta pelo documento de 2019.
“Em particular, na Terra Santa, onde as divisões entre israelitas e palestinianos são profundas e enraizadas, o convite para ver o outro como parte da nossa própria humanidade não pode ser subestimado”, observou.
A violência e o ódio que permeiam Gaza e toda a região são um triste lembrete das consequências de uma desumanização sistemática. A proposta de um ‘vínculo constitutivo’ com o outro é um desafio que questiona as nossas próprias convicções.”
O patriarca latino de Jerusalém alertou para as consequências da “desumanização sistemática” do outro, considerando que a fraternidade proposta em Abu Dhabi é uma necessidade atual.
“A questão que o Documento de Abu Dhabi nos deixa é ainda mais urgente hoje, quando Gaza e outras regiões da Terra Santa nos lembram todos os dias o quão difícil, mas fundamental, é o caminho para a paz. A fraternidade que nos é pedida não é um sonho irrealizável, mas um desafio”, apontou.
O cardeal sublinhou que a pequena comunidade católica em Gaza tinha “pouquíssimas relações” com a comunidade circundante, tradicionalmente, situação que mudou nestes anos de guerra.
O patriarca destaca que, durante o conflito, tem sido possível levar à paróquia alimentos e bens essenciais, gesto que “criou relações” com os outros setores da sociedade.
“Isso criou laços tão fortes que mantiveram viva a humanidade, naquele contexto”, acrescentou.
D. Pierbattista Pizzaballa pediu que o dialogo inter-religioso volte ao “terreno”, evitando o crescimento dos extremismos e das “narrativas radicais”.
A violência que assolou Gaza e o risco de outras regiões do Médio Oriente sofrerem o mesmo destino tornam o diálogo uma necessidade urgente. As religiões, em particular, são chamadas a promover uma cultura de paz, que não apenas suporte as diferenças, mas que as viva como parte da riqueza da humanidade.”



Para o cardeal, o diálogo inter-religioso deixou de ser um “luxo” para teólogos e tornou-se uma “necessidade histórica” para evitar a segregação.
“Podemos escolher a coexistência como ‘paralelismo ignorante’, onde comunidades diferentes vivem lado a lado sem nunca se encontrarem, alimentando suspeitas e estereótipos. Ou podemos escolher a convivência como ‘tecido relacional’”, indicou.
A reflexão abordou ainda o tema da responsabilidade, com o patriarca a criticar a “confusão entre religião e poder” e a apelar a um “trabalho interno de purificação da memória, de desconstrução de estereótipos, de educação para uma fé madura e sem medo”.
A sessão comemorativa é promovida pela Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso (SCDIR) da Conferência Episcopal Portuguesa, decorrendo no Convento de São Francisco.
A concluir, o cardeal Pizzaballa deixou um desafio direto aos participantes e às comunidades de crentes, questionando se a fé serve para gerar fraternidade real.
“O silêncio, o fechamento ou, pior ainda, a cumplicidade com lógicas de poder injustas tornam as religiões cúmplices das feridas do mundo”, advertiu.
Na sequência da assinatura da Declaração de Abu Dhabi, a Assembleia-Geral das Nações Unidas proclamou o dia 4 de fevereiro como Dia Internacional da Fraternidade Humana.
OC
