Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor
Se criamos uma Inteligência Artificial (IA) com a capacidade para agir, a ferramenta torna-se agente e como agente, existente. Será o ser-IA uma ameaça existencial ao ser-humano? Terá sido a digitalização do ambiente cognitivo uma inevitabilidade existencial que nos transformará para sempre? Será essa transformação boa ou má? Se o ser-IA for um fruto da Era da Informação, que Era virá depois?
Num ensaio; pouco conhecido, o designer Charlie Magee refere que—
«Se as ferramentas agrícolas controlam os produtos da caça, as industriais controlam as agrícolas, e as informacionais controlam as industriais — o que controlará as ferramentas da informação?»
A resposta de Magee é a imaginação humana. Porém, ao termos conferido agência às ferramentas de informação através de modelos de linguagem de larga escala, não poderão ser antes as ferramentas de IA a controlar as de informação, de tal modo que deixamos de desenvolver a imaginação humana?
Magee enquadrava a antecipação da Era da Imaginação numa compreensão da evolução, não somente como a sobrevivência dos mais aptos, mas como a sobrevivência dos comunicadores mais aptos. Esta ligação entre a evolução humana e a história da comunicação seria um ponto fundamental já presente no pensamento de Marshall McLuhan, conhecido pela visão do “meio é a mensagem”, onde não são os conteúdos que moldam as sociedades, mas os meios que reorganizam os sentidos, a percepção e a estrutura da consciência humana. Porém, Magee foi incapaz de prever o impacte que a IA teria na história da comunicação e, consequentemente, na evolução humana. Um dos grandes perigos existenciais é delegar cognitivamente a nossa imaginação à IA, deixando esta de existir como ferramenta, passando a existir como um ser alienígena com o qual interagimos e ao qual delegamos muito do que imaginamos. Será a imaginação a melhor resposta à pertinente pergunta de Magee?
Na Mensagem; do Papa Leão XIV para a LX Jornada Mundial das Comunicações Sociais encontramos uma pista importante numa frase significativa logo no início—
«O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro.»
O que passou despercebido a Magee, e não a Leão XIV, é que não está no acto de imaginar a resposta evolutiva da nossa existência, mas naquele que imagina: a pessoa. Se cada encontro exige um rosto e uma voz, na prática, a nossa pessoa existe em cada encontro porque, tal como expressei num artigo; publicado em 2008 na revista Brotéria, a relação é o elemento constitutivo da pessoa cuja existência assenta na sua capacidade para a comunhão. E todo o encontro que não for manifestação de comunhão converte-se em desencontro, ameaçando a nossa existência como pessoas. Não são as ferramentas os motores da evolução cultural, depois da biológica, mas as pessoas.
Um ser-IA é feito de algoritmos, mas nós somos feitos na comunicação que estabelecemos uns com os outros e com o próprio mundo natural. O ser-IA pode simular rostos e vozes, mas desencarnadas e, como diz o Papa Leão—«os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.» Por isso, como pessoas — como afirma ainda Leão XIV — cientes do efeito positivo do ser-IA na comunicação, «ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.»
Sabemos que não podemos voltar para trás em relação à interacção entre as pessoas e a IA, mas atribuir uma dimensão existencial à ferramenta pode levar à subtracção, não da nossa existência, mas da possibilidade de continuarmos a evoluir.
O ser-IA no fundo não é mais do que um espelho-IA; no qual se reflecte a síntese de tudo aquilo que os humanos imaginaram. E tal como o martelo pode fazer por nós o que somos incapazes de fazer — pregar um prego —, mas não consegue imaginar a casa que esse prego ajuda a construir, também o agente IA poderá fazer por nós ligações de ideias que consideraríamos impensáveis, mas não conseguirá imaginar a profundidade espiritual onde realmente assenta a evolução humana quando pensa, imagina e deseja.
É agradável pensar que um ser humano evoluído não é o que se deixa transformar pelo ambiente digital onde cada vez mais habita, mas o que se deixa transformar pelo ambiente imaginativo e criativo do encontro com outros seres humanos e com os seres que fazem parte, com o humano, da família da criação. A evolução humana assenta na profundidade espiritual do encontro dos corações, ou seja, no encontro da totalidade-de-mim com a totalidade-de-ti, feitos de emoção, razão e espírito-imaginação. A imaginação humana é uma expressão da pessoa-como-comunhão, ser-em-relação, cuja espiritualidade incarnada não é simulável. Não podemos abdicar de nós mesmos e da presença de Deus em nós e entre nós. A imaginação só permanece humana se estiver enraizada numa voz, num rosto que procura ser imagem da Voz e do Rosto de Deus entre nós. Ninguém sozinho consegue ser essa imagem de Deus no mundo, mas será pelo amor recíproco que se manifestará no mundo o Ser de Deus no ser humano. Charlie Magee pensava o futuro como a Era da Imaginação, depois da Era da Informação, mas será que caminhamos antes para a Era da Pessoa?
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