China, a última fronteira

Primeiro, foram as prisões de dois Bispos fiéis ao Vaticano. Agora, é o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China a complicar a relação entre a Igreja católica e o país asiático, ao afirmar que é ao Vaticano que cabe a iniciativa de retomar as relações diplomáticas. “O Vaticano terá, primeiramente, de cortar relações diplomáticas com Taiwan, se for sincera a sua vontade de desenvolver relações com a China”, disse ontem o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Kong Quan. A posição de Pequim foi dada a conhecer por Kong em conferência de imprensa, em resposta a uma proposta da liderança católica de enviar um embaixador a Pequim. Segundo um responsável norte-americano, o vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, transmitiu aos dirigentes chineses uma proposta do Vaticano de enviar um emissário do Papa à China comunista. A possibilidade de um encontro oficial entre representantes dos dois Estados surge depois de ter sido anunciada, esta semana, a libertação do Bispo Jia Zhiguo, da Igreja “Clandestina”, em Shijiazhuang, na província de Hebei (nordeste), onde tinha sido preso no dia 5 de Abril. Segundo a Asianews, é prática das autoridades colocar na prisão os bispos fiéis ao Papa antes das grandes celebrações litúrgicas, como é o caso da Páscoa. O porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, contestou a prisão deste Bispo católico na China, por parte das autoridades locais, considerando que “mais uma vez, um membro da hierarquia católica é privado da liberdade pessoal sem que se forneçam motivos jurídicos. Isto é inadmissível num Estado de direito que declara garantir ‘a liberdade religiosa’ e diz respeitar e preservar os direitos humanos”. A detenção de Jia Zhigo seguiu-se à do bispo Wei Jingyi na cidade de Qiqihar (nordeste). Wei permaneceu detido entre 05 e 14 de Março durante a sessão anual do parlamento chinês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros, contudo, não se limitou a pedir o fim das relações com Taiwan. “Em segundo lugar, (o Vaticano) não deve, com a desculpa da religião, interferir nos assuntos internos da China”, acrescentou o porta-voz, do MNE chinês. O Vaticano cortou relações com Pequim há meio século, após a subida do Partido Comunista Chinês ao poder, em 1949, e mudou a sua sede para Taiwan, na sequência da proibição das práticas religiosas no país mais populoso do mundo em 1958. A China reabilitou as práticas religiosas em 1981, mas as religiões, quer a budista quer a cristã, são tuteladas por Pequim, pela Associação Patriótica Religiosa da China, não obedecendo a organismos externos como o Vaticano, no caso dos católicos. O Vaticano tem-se insurgido publicamente contra a perseguição movida por Pequim aos membros das chamadas “igrejas subterrâneas”, que não se vergam às condições impostas pelo ateu Partido Comunista para poderem existir de um modo legal. Os católicos chineses, cerca de 14 milhões distribuídos entre a Associação Católica Patriótica e a Igreja Católica “clandestina”, dividem-se entre a lealdade ao Papa João Paulo II e ao Partido Comunista Chinês. Embora o Partido Comunista (68 milhões de membros) se declare oficialmente ateu, a Constituição chinesa permite a existência de cinco Igrejas oficiais, entre elas a Católica, que tem 5,2 milhões de fiéis. Segundo fontes do Vaticano, a Igreja Católica “clandestina” conta mais de 8 milhões de fiéis, que são obrigados a celebrar missas em segredo, nas suas casas, sob o risco de serem presos. O baptismo e o ensino religioso entre menores de 18 anos são punidos na China com prisão ou confinamento aos “campos de reeducação pelo trabalho”.

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