Celebremos um novo ano com uma boa reserva (escatológica)

Luís Silva, Diocese de Aveiro

Um novo ano se abre diante de nós. Celebremos, portanto!

A longa história da enofilia lusitana, esse enraizado convívio dos portugueses com o vinho, e a circunstância de eu mesmo ter nascido na cidade onde se produzem alguns dos mais célebres champanhes do mundo (Epernay, cidade das margens do Marne, pertencente à região de Champagne, onde nasceu o abade Don Pérignon, criador deste néctar recolhido das uvas) dão-me o bom pretexto para a reflexão que aqui partilho.

Disponhamo-nos, então, a tomar em mãos uma boa ‘reserva’…

Antes, porém, aproveitemos para recolher da mitologia romana o que o calendário (termo recolhido da cultura latina que designava o primeiro dia do mês. Nome exclusivo dos romanos e inexistente entre os gregos, donde a expressão ‘deixar para as calendas gregas’, isto é, ‘para nunca’) nos disponibiliza.

Começamos o ano com Janeiro, o nome que deriva de ‘Jano’, segundo Pierre Grimal[1], um dos mais antigos deuses do panteão romano sendo a entronização de um rei que, apesar de vindo do estrangeiro, os romanos associam a um período de ouro (honestidade, paz, etc.), tendo, após a morte, sido entronizado como deus, e atribuindo-se-lhe o milagre de ter protegido os romanos do tempo de Rómulo contra os sabinos. Era representado com duas caras, para diante e para trás, sendo reconhecido como um especial orador, com capacidade de ver em todas as dimensões, isto é, direções.

Janeiro é, à luz desta visão mitológica, o mês em que ainda temos a memória do ano que passou (a face voltada para trás) e a luz do horizonte que se abre diante de nós (a face voltada para diante). Uma bela imagem para ilustrar a ideia de ‘reserva escatológica’. Já o perceberemos…

Na enologia, a ‘reserva’ é um ‘selo’, que nos certifica da qualidade de um vinho. Implica, por isso, o estatuto de ‘referência’ e de qualidade especial, reconhecida à luz de critérios que o distinguem. Nem todos os vinhos são da qualidade da ‘reserva’. E comporta, também, o envolvimento de uma entidade que reconhece essa qualidade especial.

Critérios interessantes para a reflexão que aqui nos traz.

‘Reserva escatológica’ é uma expressão cuja autoria é discutida, mas, após longa história de atribuição a E. Käsemann[2], pode afiançar-se, sem dúvidas, que se deverá a Erik Peterson e formulada no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

Esta circunstância não é de somenos importância.

Na verdade, o período entre guerras foi palco da emergência de leituras teológicas que ajudaram a legitimar abordagens políticas de pendor messiânico, isto é, linhas argumentativas que pretendiam fazer coincidir o ‘Reino de Deus’ com respostas ou regimes políticos concretos.

O conceito de ‘reserva escatológica’ (à maneira da dupla face de Jano) abre uma brecha neste entendimento, ao sublinhar, fundamentalmente, duas notas: (1) a fé cristã vive, na história, na tensão entre o ‘já’ e o ‘ainda não’, de que resulta uma leitura sempre ‘reservada’ em relação a todas as opções concretas de natureza política, mas de que (2) não deverá resultar uma lógica ‘descomprometida’, antes uma atitude de compromisso de transformação da sociedade, marcada pela esperança (que o Pe. José Miguel Cardoso propõe que gere uma ‘escatologia sapiencial’[3]), consciente de que, na história, se caminha para o definitivo que ainda aqui não está. É necessário ler, ‘sapiencialmente’, os sinais dos tempos.

Essa ‘reserva escatológica’, à luz da qual deverão ser lidos todos os acontecimentos e decisões (pessoais e coletivos, mesmo para além do âmbito estritamente político), define-se pela consciência crítica, enraizada no acontecimento crístico (vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo) de que não nos deveremos interrogar sobre se as nossas opções redundam numa derrota histórica, mas antes se resultam em ‘derrota escatológica’, isto é, derrota definitiva à luz dos critérios com que ‘seremos julgados no fim dos tempos’ perante a ‘entidade certificadora’, o próprio Deus.

Bebamos desta ‘reserva’…

Os cristãos, confrontados com propostas políticas e interpelados a posicionarem-se sobre elas, não deverão interrogar-se sobre se elas levarão a uma vitória histórica, a uma vitória na história, mas sim sobre se delas resultará a ‘vitória definitiva’, aquela que constataremos ao confrontá-la com o olhar da Trindade, Deus que é Amor, ‘Ser-que-é-sendo-com-o-Outro’, sabendo que em nenhuma delas se encontrará, já e de modo definitivo, no aqui e agora da história, o Reino.

A tentação dos messianismos sempre foi a de emitir um juízo que deveria ser reservado a Deus, e para cuja sedução já nos alertou o próprio Jesus Cristo: “Ninguém poderá afirmar: ‘Ei-lo aqui’ ou ‘Ei-lo ali’, pois o Reino de Deus está entre vós.” (Lc 17, 21)[4].

O conceito de ‘reserva escatológica’ faculta-nos um critério que nos serve para este e muitos outros contextos em que as derrotas na história nos levam ao desânimo e ao desalento. O que diriam e poderiam esperar, sem ela, os mártires cristãos de todos os tempos perante a iminente derrota histórica que lhes sorria com sarcasmo e ironia?

Quantos dos que lutam pela defesa dos mais esquecidos, dos mais frágeis, dos ‘ainda sem-nome’, dos ‘já-sem-nome’, dos ‘nunca-com-nome’, dos que só a memória de Deus conserva e conservará porque cilindrados pelas botas da história, dos…, dos…, precisam de que se lhes diga onde fica a ‘cave dos bons vinhos’, a verdadeira ‘reserva’…

Muitas derrotas parece ter sofrido, ao longo da história e na história, o Cristianismo… Mas não é assim que se encontra o vinho bom. O vinho bom está sob reserva…

[1] Cfr. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana, Lisboa, Antígona editores, 2020, p. 258.

[2] Cfr. Gabino Uríbarri SJ, «La reserva escatológica: un concepto originário de erik Peterson (1890-1960)», in Estudios eclesiásticos 78 (2003) 29-105 (https://www.academia.edu/105116841/La_reserva_escatol%C3%B3gica_Un_concepto_originario_de_Erik_Peterson_1890_1960_

[3] Tese defendida em brilhante obra publicada pela Livraria Diário do Minho: José Miguel Cardoso, Para uma escatologia sapiencial: a herança escatológica de Karl Rahner e Johann Baptist Metz, Braga. Livraria DM, 2023.

[4] Cfr. Teresa Bartolomei, «O primeiro concílio de Niceia entre ideologia e teologia» in Isidro Lamelas (coord.), O primeiro concílio ecuménico – Niceia 325: memória e herança, Apelação, Paulus editora, 2025.

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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