Especialista em Cuidado paliativos, Isabel Galriça Neto passou de médica a doente oncológica e, antecipando o Dia Mundial do Cancro, assinalado a 4 de fevereiro, fala sobre a procura de sentido na «travessia do tratamento» e da necessidade de «afirmar a esperança e a coragem» sem recurso a «linguagem bélica»

Lisboa, 28 jan 2026 (Ecclesia) – Isabel Galriça Neto, médica especialista em cuidados paliativos, depois de um diagnóstico de cancro de mama, “o mais agressivo”, e estando em remissão após tratamento de um ano, assume estar “mais próxima da experiência” dos seus pacientes.
“Os meus pacientes sempre foram, ainda antes da doença, meus mestres e eu estou profundamente grata aos milhares de doentes que tive o privilégio de cuidar e de tratar. Ao atravessar a doença, eles continuaram a ser meus mestres mas considero que estou mais próxima das experiências que eles vivem”, explica Isabel Galriça Neto à Agência ECCLESIA.
A médica, diretora do Departamento de Cuidados Continuados e Paliativos de um hospital, em Lisboa, foi diagnosticada, em fevereiro de 2024, com um cancro de mama triplo negativo, “mais agressivo que existe, felizmente localizado”.
“Eu trato estes doentes ainda hoje. Acompanham-me muitas mulheres, mais jovens, porque o triplo negativo é um câncer da mama característico das mulheres mais jovens, e nós hoje vemos isso acontecer com pacientes de 20 e 30 anos, portanto, mulheres bem mais jovens. Eu sabia que teria que enfrentar quimioterapia, imunoterapia, cirurgia, radioterapia, ou seja, todas as terapias que hoje temos. Felizmente há muitos progressos”, sublinha.
O Dia Mundial do Cancro é assinalado a 4 de fevereiro com o objetivo de consciencializar para a doença e para a sua prevenção, alertar para fatores de risco e para o seu diagnóstico precoce.
A responsável alerta para a “busca de sentido” que quem atravessa situações de fragilidade deve perseguir, mas refuta qualquer “linguagem bélica” sobre “luta” e “combate”.
Ainda que uma atitude mais positiva possa ser facilitadora para fazer esta travessia de tratamento, não é por eu ter mais ou menos vontade que eu recupero, curo-me ou não curo. As pessoas não estão num combate, não é por vontade própria ou por serem mais corajosas que se curam ou não. São fatores da doença e do tratamento que ditam o desfecho.”
Isabel Galriça Neto dá conta que a “fragilidade” faz parte do processo: “Há uns dias em que nós podemos ver várias janelas e portas fechadas mas vamos procurar algumas que podem estar abertas; noutros dias, enquanto travessia, não vemos nada e isso é permitido. Mas importa pensar quer se vai chegar ao outro dia, e que eu me vou deixar cuidar – pelos médicos, pelos amigos, pela família”.
“É importante ter noção que não implica fazer coisas grandiosas: pode ser nós abraçarmos um filho e dizer-lhe ‘eu agradeço que estejas aqui comigo’ e partilharmos o silêncio, porque não se consegue dizer mais. Ter consciência da fortaleza não é ter grandes gestos”, reconhece.
Depois de um ano em tratamentos “muito duros”, Isabel Galriça Neto está em remissão tendo consciência que será doente oncológica para o resto da vida e sabendo que o tipo de cancro que teve pode voltar.
“Somos sempre desafiados a perceber que síntese se faz das experiências pelas quais passamos. Às vezes não é no imediato. Estive um ano a fazer tratamento, vou celebrar agora em Fevereiro o meu primeiro ano sem tratamento e os dois anos de diagnóstico não sei o que é que a vida me trará. No processo houve muitos «se’s» até na fé, mas eu assumir «Senhor eu não entendo nada. Cuida de mim». Só Deus sabe realmente o que vai na nossa vida”
A médica, originalmente especializada em medicina geral e familiar, há mais de 30 anos a trabalhar em Cuidados Paliativos, está neste momento a fazer Doutoramento na área.
“Eu não sei quais são as circunstâncias (que vou ter para concluir) e tenho muito trabalho pela frente. Mas, efetivamente, isto era um objetivo já antes de adoecer e eu comecei o doutoramento durante os tratamentos. É uma afirmação de vida. Sobretudo só Deus sabe o que virá”, resume.
A conversa com Isabel Galriça Neto pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido esta noite na Antena 1, e disponibilizado no podcast «’Alarga a tua tenda’.
LS
