A diocese de Beja é tida no país como aquela que melhor tem sabido gerir, recuperar e potenciar o seu património religioso. Considerada há alguns anos como uma diocese pobre e sem património de destaque, a verdade é que um programa de inventariação e um arrojado projecto de recuperação revelou uma vasta riqueza que poderá tornar-se motor de desenvolvimento e de fixação da população no interior do país. O exemplo bejense foi ouvido durante as Jornadas Luso-Galaicas de Turismo Cultural e Religioso organizado, no fim-de-semana, em Braga, pela cooperativa TUREL – Desenvolvimento e Promoção do Turismo Cultural e Religioso. A dar voz pela diocese alentejana esteve o arquitecto José António Falcão, director do departamento do património histórico e artístico diocesano. Ao Diário do Minho, aquele responsável revelou que a necessidade de recuperar o património nasceu «no início da década de 80, quando a diocese de Beja, do ponto de vista patrimonial, bateu no fundo». O arquitecto indicou que, nessa altura, se multiplicavam os furtos e havia um conjunto de intervenções muito negativas em igrejas históricas – demolições de partes antigas, entrega das obras a pessoas não qualificadas – que provocaram fortes críticas. Foi decidido então pela diocese criar uma equipa que primeiro inventariasse e que depois apoiasse de alguma forma a tutelar o património. «O património mesmo desconhecido sempre existiu, embora algum não se encontrasse no seu sítio, pois tinha sido guardado em casas particulares, por razões várias, entre as quais por questões de segurança», afirmou José António Falcão. Ora, tal património estava «razoavelmente conservado» e tinha sido defendido de «tentativas de alienação e de incorporação em museus, inclusive do Estado». Embora degradadas muitas peças foram encontradas nas mãos de particulares sem que tenham sofrido atentados de recuperações de pessoal não qualificado. A diocese de Beja mantém, segundo o arquitecto José António Falcão, uma invejável média de recuperação de «uma dezena de igrejas e de 500 peças de arte por ano». Mas tal ritmo não seria possível com a actuação isolada da Igreja. «Conseguiu-se organizar um conjunto de acções de colaboração com organismos do Estado e com os municípios que disponibilizaram determinadas verbas para estes fins», indicou o director do departamento diocesano do património histórico. Assim, algumas igrejas estão a ser intervencionadas pelo Estado, outras conseguiram substanciais subsídios governamentais, noutros casos foram os próprios municípios que se mobilizaram e noutros – em obras de pouca complexidade – são as próprias comunidades locais que asseguram o financiamento, indicou o mesmo responsável. Outro dos aspectos cuidados pela diocese é a preocupação de dar alguma autonomia às pessoas tornando- as «auto-suficientes naquelas que são as tarefas básicas de salvaguarda do património». José António Falcão refere ser impossível conceber que uma diocese com cerca de 12.300 quilómetros quadrados – a segunda mais extensa do país a seguir a Évora – pudesse centralizar em Beja a gestão de todo o património diocesano. É preciso pensar o que fazer com igrejas “excedentárias” O arquitecto José António Falcão considera que a Igreja portuguesa, na sua hierarquia, enfrenta uma etapa decisiva no que respeita ao património que detém. «A Igreja não pode estar empenhada em recuperar e reabilitar património para depois o manter encerrado», frisou o responsável do departamento do património histórico e artístico de Beja. Por outro lado, o arquitecto refere que as igrejas históricas só conseguirão sobreviver se lhe for conferido um uso alternativo, já que «a maior parte delas são excedentárias para as necessidades das actuais comunidades », acrescentou. «A nível nacional se se fizesse um levantamento seguramente que o mesmo revelava que entre 45 a 50 por cento das igrejas são excedentárias para um uso quotidiano e permanente», garante José António Falcão. Nos próximos tempos, aquele especialista sustenta que a sua prioridade e a da sua diocese será fazer com que, «seja feita uma reflexão alargada a nível nacional sobre o que é que se pretende fazer com o património religioso. É que há ainda uma grande indefinição», frisou. A nível interno, Beja tem há dois anos no terreno uma iniciativa que integra as igrejas em rotas que possam ser seguidas por turistas. É claro que grande parte das igrejas não é possível manterem-se continuamente abertas mas foi estipulado um horário em que podem ser visitadas. Beja criou ainda uma imagem de marca no turismo patrimonial. Tal imagem passou pela concepção do designado “Caminho das Igrejas Brancas”, numa clara alusão ao alvo caiado das tradicionais construções alentejanas. Património como motor de progresso Beja fez ou está a completar “o trabalho de casa” no que respeita à preservação do seu património histórico- religioso. Agora todos os agentes querem potenciar essa tarefa como forma de desenvolvimento e de fixação das populações. Mesmo assim, José António Falcão salienta que «o turismo deve ser entendido como um complemento muito interessante » mas, defende terem de ser promovidas e criadas actividades económicas complementares. «Não podemos desejar que seja o turismo a sustentar o vasto território bejense», frisou o director do departamento do património histórico e artístico da diocese de Beja.
