Conferência Episcopal lamenta «a magreza dos apoios oficiais» A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) defende que o nosso país deve reconhecer o contributo fundamental da Ordem Hospitaleira na área da saúde mental, lamentando “a magreza dos apoios oficiais”. “Em Portugal, nunca se poderá escrever nem a história da Igreja nem a história da Psiquiatria sem ter em conta a gesta de amor, de ciência e de humanidade levada a cabo por esses homens e mulheres que, através de S. João de Deus, descobriram o rosto de Cristo nos pobres e nos doentes”, referem os Bispos na Nota Pastoral “Testemunhas de solidariedade e evangelização hospitaleira”, saída da 156ª assembleia plenária da CEP que ontem se concluiu em Fátima. O texto, publicado por ocasião do 75º aniversário da restauração da Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira, fala de “testemunhas de solidariedade cristã e de evangelização pela hospitalidade”, vincando que a saúde mental em Portugal deve muito à acção do Instituto de São João de Deus e do Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, seja na área de prestação de cuidados, seja na área de formação de agentes. Os números falam por si: mais de 50% das camas do Serviço Nacional de Saúde, para a psiquiatria, sendo que nas Regiões Autónomas a dimensão é mesmo de 100%. A capacidade de reposta assistencial dos Institutos contrasta com uma certa apatia do Estado, sendo que a importância da assistência psiquiátrica não tem só a ver com o números de camas, mas também com a qualidade e as valências que são oferecidas Esse papel nem sempre tem sido reconhecido, com a CEP a constatar que “os apoios dos organismos oficiais ficam muito aquém de uma distribuição equitativa dos recursos nacionais”. “A magreza dos apoios oficiais nunca impediu que se caminhasse na promoção da dignidade dos utentes, particularmente no que se refere às áreas da inserção social e familiar e à área da prevenção”, acrescentam os Bispos, num momento em que a remodelação do modelo de gestão hospitalar traz consigo problemas acrescidos para a área, ao excluir do espaço dos hospitais públicos os “doentes crónicos”. A Nota Pastoral deixa um louvor particular às “residências intra e extra-institucionais bem como as terapêuticas ocupacionais que se inserem nesse esforço de inovação, de promoção da qualidade de vida e de dignificação da pessoa humana”. Essas residências, que em muitos casos o Estado não financia, promovem “o treino de competências pessoais e sociais, orientadas para a responsabilização e para a autonomia progressivas, em articulação com outras terapêuticas apropriadas”, e proporcionam às pessoas, afectadas por doenças mentais e outras limitações, “a possibilidade de usufruir melhor qualidade de vida e praticar um estilo de cidadania mais dignificante”, como reconheceu a CEP. História e desafios A presença da Ordem Hospitaleira em Portugal estende-se ao longo de dois períodos. O primeiro, desde 1611, data em que se estabeleceram em Montemor-o-Novo os primeiros Irmãos, para aí recuperar a casa onde nascera o seu Fundador até 1834, data em que foram extintas, entre nós, todas as congregações religiosas masculinas. O segundo período de permanência em Portugal iniciou-se em 1891. Em 1928, foi restaurada a Província de S. João de Deus em Portugal da qual, durante muitos anos, estiveram dependentes todas as casas do actual território português e bem assim as de África, da Ásia e da Oceânia. Os Bispos portugueses lembraram que “o carisma hospitaleiro dá prioridade aos mais humildes e a todos aqueles a quem não são reconhecidos os inalienáveis direitos de cidadania”. “Ao acolher evangelicamente as pessoas afectadas por limitações mentais graves, garantindo-lhes tratamentos técnicos apropriados e dispensando-lhes os cuidados humanos a que têm direito, enquanto membros da grande família humana, a Ordem Hospitaleira apresenta-se como consciência crítica do individualismo egoísta, do consumismo desenfreado, da cultura de morte e da insensibilidade aos valores espirituais, que se vão fazendo sentir na nossa sociedade”, apontam. Em conclusão, o documento da CEP deixa um desafio a todos os jovens, para que, “impulsionados pela generosidade que os caracteriza, se deixem cativar pelo exemplo arrebatador de S. João de Deus, Santo Universal da Hospitalidade Solidária, que a todos propõe um dos mais sublimes ideais, alguma vez sonhado por um jovem”. A Nota Pastoral da CEP • «Testemunhas de solidariedade e evangelização Hospitaleira»
