Bíblia: Frederico Lourenço afirma que tradução das Escrituras lhe deu «razões para voltar à Igreja»

Prémio Pessoa destaca «beleza inesgotável» dos Evangelhos e a atualidade dos «dilemas morais» do Antigo Testamento

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Lisboa, 24 jan 2026 (Ecclesia) – O tradutor e ensaísta Frederico Lourenço afirmou que o processo de tradução da Bíblia a partir do grego, na última década, representou um desafio interior que abriu caminho para regresso à prática na Igreja Católica.

“Sabia, à partida, que ia ser uma viagem longa e que não iria chegar ao fim da viagem da mesma forma como parti para o início da viagem. Até brincava comigo próprio e dizia: bem, no final disto ou chego ao fim completamente ateu ou chego ao fim tendo encontrado as razões para voltar à Igreja”, disse o docente universitário, em entrevista à Agência ECCLESIA.

O Prémio Pessoa (2016) explicou que o trabalho começou pelo interesse em aprofundar a história do Cristianismo e os textos do Novo Testamento, acabando por transformar a sua vida pessoal.

Como é que a pessoa pode explicar a fé? Não consegue explicar, nem eu consigo explicar a minha atração tão forte por Jesus e porque é que me sinto seguidor de Jesus, sentia mesmo quando não era católico praticante, são coisas que escapam um bocadinho à explicação racional. Ao mesmo tempo, é possível trazer a razão, a inteligência, a reflexão teológica, evidentemente, mas também filosófica, para a leitura destes textos.”

Na conversa, Frederico Lourenço destacou a qualidade literária do texto bíblico, estabelecendo paralelos diretos com o cânone da literatura antiga.

“Para mim, o Evangelho de João, como obra literária, não fica atrás das grandes obras da literatura grega clássica”, sustentou o especialista.

O tradutor sublinhou a densidade única destes relatos, descrevendo os quatro Evangelhos como “os textos mais extraordinários” que conhece e aos quais regressa sempre com a sensação de novidade, porque “nunca envelhecem”.

“São textos a que eu consigo voltar, conhecendo-os tão bem, com a sensação de que estou a lê-los pela primeira vez”, referiu.

Para o professor da Universidade de Coimbra, a leitura reiterada leva a uma descoberta contínua de novos significados e beleza.

“Nunca tenho a sensação de fastio ou de ‘ah, já li isto e está a cansar-me’. Não. Tenho sempre a sensação de que, em todos os momentos, há uma coisa nova”, confessou.

Frederico Lourenço acrescentou que as palavras de Jesus possuem uma força singular, capaz de surpreender o leitor, inclusive nas passagens mais conhecidas.

“Mesmo a frase que eu já li dezenas de vezes, centenas de vezes, que eu pensava que já tinha compreendido, de repente tem um significado novo”, apontou.

O tradutor explicou que a abordagem académica e o método crítico-histórico não foram impedimento para a fé, considerando mesmo que essa leitura questionadora tem raízes bíblicas.

“Os primeiros leitores crítico-históricos do Antigo Testamento foram Jesus e São Paulo”, sustentou, sublinhando que ambos olharam para a Escritura judaica e a ressignificaram à luz de uma nova mensagem.

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Frederico Lourenço abordou também as dificuldades sentidas na tradução do Antigo Testamento, nomeadamente o confronto com narrativas de violência e guerra que ganham nova ressonância no atual contexto internacional.

O docente da Universidade de Coimbra admitiu que estas passagens levantam um “dilema moral” ao apresentarem um povo que se diz “autorizado por Deus a exterminar os outros”, o que obriga a um confronto sério com o texto.

“Talvez Josué tenha sido o livro que mais me custou traduzir, é um livro que levanta perguntas que também são incómodas”, referiu.

O especialista assumiu “um grande afeto, não só pelo Judaísmo como pela Escritura judaica”, antes de sublinhar a necessidade de refletir sobre “esse dilema moral”.

“Estamos permanentemente a ver na comunicação social o que se passa atualmente em Israel e em Gaza e, com tudo isso, começamos a pensar que esses textos nos remetem para um problema que continua há séculos”, observou.

Se no Antigo Testamento é atribuída a Deus a afirmação ‘exterminai os vossos inimigos’, o que Jesus Cristo diz é ‘amai os vossos inimigos’. É o absoluto contrário.”

A entrevista é emitida este domingo no Programa ECCLESIA (06h00), na Antena 1 da rádio pública, no dia em que a Igreja Católica celebra o Domingo da Palavra, instituído pelo Papa Francisco.

OC

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