Ao encontro de Portugal emigrado

Um país de emigrantes que espalha a dimensão mariana da sua vivência católica um pouco por todos os cantos do mundo: são assim os portugueses e a agenda da Igreja Católica em Portugal fica marcada no, mês de Maio, pelas visitas às comunidades portuguesas no estrangeiro. D. Januário Ferreira, D. António Rafael, D. António Montes, D. Antonino Eugénio, D. Manuel Martins, D. Manuel Pelino, D. Manuel Quintas, D. Teodoro Faria são alguns dos Bispos que se deslocam ao estrangeiro para enviar uma palavra de apoio e apreço. O Pe. Rui Pedro, director da Obra Católica Portuguesa de migrações (OCPM) explica à Agência ECCLESIA que “desde o 25 de Abril até ao dia das comunidades, 10 de Junho, há muita movimentação nas comunidades portuguesas, sobretudo nas celebrações do 13 de Maio. Há já alguns anos a OCPM tem recebido pedidos para enviar sacerdotes que visitem as comunidades e nós apostamos neste tempo forte para restabelecer laços.” “O mérito é dos próprios emigrantes, porque se organizam para financiar as visitas, porque os consulados geralmente não dão nenhum apoio. Por causa do esforço de alguns leigos, sobretudo mulheres, o nome de Maria é honrado por todo o mundo”, refere. O director da OCPM passou a Semana Santa na Alemanha, indo depois até à ilha de Jersey, no Reino Unido, onde há um pedido explícito para o envio de um sacerdote português. “10% da população local são portugueses, com uma grande comunidade madeirense, e há necessidade de formação de leigos, de catequese. Além disso, as dificuldades linguísticas afastam e isolam as pessoas”. O Pe. Rui Pedro passou, depois, pela periferia de Paris, onde se realiza a mais antiga peregrinação-Festa a Nossa Senhora de Fátima e no País Basco, onde há um grupo de portugueses que celebra o 13 de Maio com uma festa que envolve também a comunidade local. Estas experiências trazem à baila a necessidade de se fazer um acompanhamento das comunidades portuguesas, mormente num momento em que a Europa abre as suas fronteiras: “a maior mobilidade faz com que os trabalhadores portugueses desempenhem as actividades que faziam no nosso país, mas em melhores condições e com melhor remuneração. Pescar no País Basco, fazer a vindima na França, colher morangos em Agen ou cultivar a terra em La Rioja é muito mais lucrativo do que fazer a mesma coisa em Portugal”. Este tipo de trabalho temporário traz consigo a dificuldade acrescida da falta de integração dos emigrantes na comunidade local, tanto a nível civil como religioso, pelo que a Igreja não os consegue detectar. “Esta situação é agravada pelas redes de subcontratação, que coloca os trabalhadores numa situação ilegal”, acusa o Pe. Rui Pedro. O perfil do emigrante português também começa a alterar-se, começando a aparecer nas comunidades problemas que até agora não eram associados aos nossos conterrâneos, como a toxicodependência, a criminalidade. “Há graves problemas de desajuste familiar, de endividamento, de droga, que criam problemas na comunidade e são mal recebidos pelos emigrantes instalados há mais tempo.” Por tudo isso, o director da OCPM diz que “na emigração podemos ver que tipo de evangelização está a ser feita em Portugal e que tipo de problemas sociais tem o nosso país. Uma paróquia que não forma cristãos com a consciência de que muitos poderão, amanhã, ir para outros países e lá se deverão integrar nas comunidades locais, está a negligenciar uma dimensão importante para a vida dos nossos dias”. O facto de, durante muitos anos, se terem enviado sacerdotes portugueses para acompanhar as comunidades de emigrantes criou, em determinadas circunstâncias, situações de isolamento. “Acontece que se perdeu nos leigos a consciência de missão, em conjunto com a Igreja local”, revela o Pe. Rui Pedro. Neste momento são necessários 15 sacerdotes para as missões junto das comunidades portuguesas, mas o director da OCPM não tem grandes esperanças que seja possível dar resposta aos pedidos. “Na última reunião da Comissão Episcopal para as Migrações e Turismo foi abordado o tema, mas não se vislumbram soluções”, constatou.

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