Ano Agostiniano: fecho em beleza pede continuidade

A cantata Santo Agostinho, o cantor da sede de Deus, executada na Sé de Leiria completamente cheia, com cerca de um milhar de pessoas, atentas e silenciosas, encerrou, em clima de grande beleza e harmonia, o Ano Agostiniano, em que se celebraram os 1650 anos do nascimento do padroeiro da diocese de Leiria-Fátima. O prolongado aplauso da assistência ao solista, coro e orquestra, que executaram a obra musical composta pelo padre António Cartageno para esta ocasião, demonstrou bem a satisfação geral pelo momento de elevação espiritual e estética vivido na catedral. Concretizou-se bem o apelo do bispo de Hipona: louvamos a Deus agora que nos encontramos reunidos na igreja. Mas ele acrescenta: Não deixes de viver santamente e louvarás sempre a Deus. Deixas de o louvar quando te afastas da justiça e do que lhe agrada. Se nunca te desviares do bom caminho, ainda que se cale a tua língua, clamará a tua vida. É um apelo à continuidade. Nos dias anteriores, teve lugar uma outra realização agostiniana: o congresso O Homem, Deus e a Cidade. Durante ele, vários especialistas expuseram múltiplos aspectos da vida e do pensamento do autor das Confissões e da Cidade de Deus. Da vasta mensagem, impossível de resumir em poucas palavras, destacamos o seguinte: S. Agostinho fala do Deus que encontrou e lhe satizfaz plenamente a sua sede de ser, saber e amar. Nos seus inúmeros escritos, testemunha-O como a resposta para as inquietações e desejos mais profundos da alma humana. A sua experiência e pensamento sobre o mistério de Deus como Trindade continua a ser um desafio para as interrogações do homem actual. Foi na Sagrada Escritura que encontrou a Palavra divina que lhe abriu a porta da conversão. A reflexão agostiniana sobre a sua própria experiência espiritual e sobre Deus pode iluminar algumas das questões do homem moderno: o seu desejo de felicidade, as desolações pelas suas debilidades, as dificuldades de viver a fé num contexto de confronto com outras convicções e as tensões entre a solidão e a comunhão. A sabedoria da fé permite-nos aprender a conviver com o respeito pelos outros e suas diversas convicções, mantendo a própria. S. Agostinho soube usar das linguagens e pensamentos correntes no seu tempo e, ao mesmo tempo, superá-las pela perspectiva cristã da pessoa e do amor divino na comunhão trinitária, da relação mútua e do dom recíproco entre as pessoas. Ele continua a ser mestre de fé e vida cristão para hoje. Os eventos mencionados concluem um ano recheado de mais de duas dezenas de realizações, que incluíram iniciativas de estudo e reflexão, manifestações artísticas, não apenas musicais mas também de teatro e pintura, momentos de meditação e de oração, para o aprofundamento e assimilação espiritual, peregrinações a Fátima e aos lugares africanos do itinerário agostiniano, e celebrações, em várias ocasiões, e, finalmente, as publicações de vários estudos e documentação. Com todas as actividades mencionadas, multiplicaram-se as possibilidades de as pessoas acederem ao conhecimento da pessoa, vida e pensamento do sábio e santo doutor da Igreja Católica. O que fica? De tudo o que se realizou fica, em primeiro lugar, o louvor a Deus pelo dom deste “homem fantástico”, como lhe chamou D. Serafim, bispo desta diocese. Mas há também as marcas impressas na experiência de quantos participaram nas várias realizações, quer como protagonistas quer como assistentes e beneficiários. É difícil ficar indiferente à mensagem de vida deste Homem que viveu apaixonadamente na busca do “máximo” para a vida e o encontrou em Deus, a quem se entregou radicalmente, lamentando apenas ter amado tarde esta “beleza tão antiga e sempre nova”! O Ano Agostiniano suscitou ainda em muitas pessoas o apetite por conhecer mais em profundidade este Mestre tão antigo e tão actual. Para a Diocese e para a Sociedade leiriense ficam também as obras produzidas no campo da pintura e da música, e as publicações dos estudos e documentos. Não menos importante, é o estilo das realizações, todas elas de grande qualidade e envolvendo múltiplas parcerias com instituições eclesiais, sociais e culturais. Esta colaboração num projecto comum, segundo as competências de cada um, é uma marca que deverá ter continuidade noutras realizações. Este modo de descobrir, conhecer e honrar o padroeiro da Diocese é, inevitavelmente, um caminho que, a seu modo e nas suas dimensões, deverão seguir as paróquias, comunidade e instituições eclesiais. Não podemos festejar os padroeiros apenas com missas, procissões, música e foguetes. É preciso mais e melhor, para os honrar verdadeiramente e nos enriquecermos espiritualmente. A celebração dos padroeiros há-de contribuir para vincar a identidade daqueles que o têm como protector. A participação da Diocese As actividades do Ano Agostiniano envolveram, de variadas formas, muitas pessoas e instituições. Suscitaram empenho e entusiasmo em muitas pessoas. Superaram as expectativas dos mais desconfiados, não há dúvida. Revelaram que há na Diocese capacidades de projectação e de realização, que nem sempre são reconhecidas, valorizadas e aproveitadas. Abre-se, por isso, assim esperamos, uma nova etapa no caminho comum. É aqui que vem a continuidade que agora parece requerer-se, depois deste ano extraordinário. O Ano Agostiniano não chegou a envolver substancialmente o clero e muitos dos responsáveis pastorais das comunidades paroquiais, movimentos, serviços e grupos da Diocese. Foi mais a realização de alguns membros do corpo diocesano do que do corpo todo. Aqui há caminho ainda a andar. É preciso que o que faz a mão, o pé ou qualquer outro membro se torne verdadeiramente do corpo todo. E mais ainda quando se trata de algo de dimensão diocesana, como era a celebração do padroeiro. Certamente que se exige que seja a cabeça a coordenar e a mobilizar todo o corpo para agir em cooperação e unidade. Espero que o projecto diocesano de pastoral em elaboração dê um contributo no sentido desejado. Pe. Jorge Manuel Faria Guarda Dossier AE • Presença Agostiniana na Diocese de Leiria-Fátima • Ano Agostiniano • O Homem, Deus e a cidade • Santo Agostinho na cultura portuguesa

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