Bispo emérito da Guarda, rumou a Angola, em abril, para assumir a reativação do Centro de Espiritualidade da Missão Dom João de Oliveira Matos, na Diocese de Sumbe, Província Eclesiástica de Luanda. É a partir de Angola que concede à Renascença e à Agência ECCLESIA esta entrevista, em plena época de Natal

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
Senhor bispo, o que é que motivou esta mudança, este desinstalar, esta ida ao encontro de uma certa periferia?
Isto resultou do meu próprio Ministério na Diocese da Guarda, porque em 2012 eu vim aqui inaugurar este Centro Missionário que ficou a funcionar sob a responsabilidade e orientação de três irmãs da Liga dos Servos de Jesus que aqui constituíram comunidade. E durante nove anos, até 2021, o Centro Missionário funcionou com uma escola primária protocolada com os serviços do Estado, com o Estatuto de Escola Católica, com um Centro de Espiritualidade e Formação erigido pelo Bispo Local e com uma residência. Com a pandemia elas regressaram e eu, ficando livre em março passado, entendi que devia pessoalmente pôr-me à disposição do meu sucessor para vir dar andamento a estes serviços.
Por isso, com a autorização expressa do meu sucessor, também tive os seus aconselhamentos, eu dirigi-me para Angola e tive cá uma primeira etapa de cinco meses. Fui resolver alguns assuntos aí a Portugal e regressei para continuar os serviços.
Está na Kilenda, na Diocese de Sumbe?
Não estou na Kilenda, estou a 30 quilómetros da Kilenda, porque eu não quis viver no lugar do Centro Missionário. Eu quis viver numa comunidade sacerdotal, a 30 quilómetros de distância, numa terra chamada Gabela, constituída por padres da Boa Nova, onde eu sou muito bem acolhido, onde me sinto muito bem e diariamente desloco-me 30 quilómetros para ir ativar estes serviços.
E como é que é o seu dia a dia?
Habitualmente eu levanto-me sempre antes das seis horas. Às seis e meia celebro Missa, tomo um pequeno-almoço e fico disponível para aquilo que é preciso fazer. É claro que a primeira parte da minha presença aqui, essencialmente, foi fazer a requalificação da logística, porque a logística, estando quatro ou cinco anos desativada, com certeza que precisa de algumas reparações.
Consegui fazê-lo e neste momento a logística está preparada para receber estes serviços que estão praticamente a funcionar. Menos a residência, essa está à espera dos voluntários missionários.
Passar de gestor de uma diocese portuguesa para missionário no terreno, lidando com a formação de leigos e a educação de crianças, de alguma forma rejuvenesceu o seu ministério?
Foi uma oportunidade que eu tive. Nosso Senhor deu-me saúde para isso, estou a tê-la e agradeço-lhe esta oportunidade, porque assim eu estou a continuar certas preocupações que tive no exercício do Ministério como Bispo da Guarda durante vinte anos e dois meses. Portanto, neste momento estou a continuar este serviço aqui e sinto-me bem. Enquanto Deus quiser, a saúde não é eterna. Porém, a saúde é para pôr à disposição e eu sinto-me bem a pôr a saúde que tenho à disposição deste serviço.
Referiu recentemente que aí os catequistas são o braço direito dos padres. Essa corresponsabilidade dos leigos é mais visível em Angola do que em Portugal?
Na paróquia onde estou é bastante visível. Até mais visível do que a experiência que eu trazia da diocese da Guarda. Claro que temos de continuar a formação. E quando diminui a formação, depois os serviços também não correm bem. Daí que a formação é o fator número um de preocupação. Eu participei numa Assembleia Diocesana de quatro dias, que foi para fazer a revisão do que se fez no ano de 2025 e preparar a programação de 2026. E um dos fatores principais apontados foi o de não podermos arrefecer no esforço da formação a todos os níveis, incluindo a formação sacerdotal. Porque aqui há muitos padres, mas a formação tem de ser cuidada. Porque senão também o número pode ser um problema e também não queremos que seja um fator.
Aqui há muitos padres, em agosto passado participei numa celebração nesta Diocese, em que, só numa celebração, foram ordenados 28 padres. Eu no fim, ao bispo local, rindo-me com ele, disse: o senhor de uma vez ordena 28. Eu durante 20 anos ordenei 24. Claro que também ordenei 25 diáconos permanentes e eles aqui não sabem o que é isso, até entendem que não é preciso, é um assunto que não está na agenda. Por isso, são situações muito diferentes.
Realidades diferentes, portanto…
São completamente diferentes. Em geral, há aqui três níveis de catequistas. É o visitador, é o catequista geral e o catequista local.
O visitador assume praticamente as funções dos nossos diáconos permanentes. Por isso, é uma realidade com uma experiência provada aqui e estou convencido que esta experiência influenciou o próprio Papa Francisco quando ele publicou a “Antiquum Ministerium” sobre os catequistas, a instituição de catequistas.
A imagem tradicional de um bispo Emérito é de alguém que abranda o ritmo, que fica na sua diocese ou até regressa à sua terra natal. O senhor fez o oposto. Fez as malas e partiu para Angola. O que é que falou mais alto para esta mudança radical de vida? Foi a necessidade de ir às periferias ou cumprir um sonho antigo que o governo de uma diocese não permitia?
A experiência que fiz, vindo aqui em 2012 com muita esperança, foi isso que me motivou em primeiro lugar a vir para aqui. Claro que eu tinha outra solução, com certeza que não deixaria a diocese da Guarda, mas o meu lugar de origem é a Diocese de Viseu. Eu já tinha falado com o bispo de Viseu no sentido de eu recolher-me na minha Diocese de origem sem prejuízo de me deslocar à Guarda quando as circunstâncias o permitissem. Todavia, eu penso que para mim também foi uma oportunidade positiva dar cumprimento a esta responsabilidade. Eu vim aqui inaugurar, fechei no tempo da pandemia, e agora tenho possibilidade de contribuir e foi essa a razão. E com certeza que agora também estou a ver periferias.
Repare que vou viver o Natal sem luzes na rua, sem pais Natal por aí a passear, sem reclames de comerciais. Eu esta manhã fui sair à rua, apenas encontrei uma estrela de Natal, de resto mais nada. E apenas encontrei dois anúncios de Réveillon, porque de Natal nem vi nada. Quer dizer que aqui a realidade, a simbologia implantada na praça pública, aqui não existe. Em contrapartida, eu hoje, às cinco e meia da manhã, fui inaugurar a novena de Natal aqui numa comunidade, às cinco e meia da manhã, e a igreja estava bastante cheia. Portanto, significa que também viver aqui o Natal, nesse aspeto, com uma parcimónia de símbolos, mas também voltado para o essencial, que é o Presépio e é o Menino Jesus.
Já está há quase um ano em Angola, tempo suficiente para sentir o pulso ao país. A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé tem sido uma voz muito crítica, falando na corrupção como a pior desgraça dos últimos 50 anos e alertando mesmo para o agravamento da fome. É um retrato muito duro o que os bispos fazem. No terreno, na Kilenda, ou a 30 quilómetros de Kilenda, sente essa urgência? As pessoas batem à porta com fome, com falta de esperança nas políticas públicas?
Com certeza. Aqui há situações de pobreza bastante extrema. Todavia, as pessoas já se habituaram a uma certa parcimónia de vida. Eu até tenho dito a algumas pessoas que aqui devia ser proibido haver fome. Porquê? A gente olha para um lado e vê bananas, olha para o outro lado e vê abacaxi.
Os feijões, todos os meses há a nova colheita dos feijões. Quer dizer que aqui a alimentação imediata está ao alcance da mão. É verdade que também os hábitos de trabalho aqui não são por aí além.
As pessoas querem os objetivos, mas muitas vezes não estão dispostas a pôr os meios, nomeadamente o meio de trabalho. Claro que também há casos aqui de situações de doença, situações de pessoas com abandono e que não podem, por si, gerir. E com certeza que isso, a paróquia onde me encontro, tem uma Cáritas bastante bem organizada e que vai ao encontro das pessoas.
Ainda agora, por exemplo, nestas duas semanas, nós vamos visitar pessoas doentes, idosas e também pobres que nos indica o catequista. Ele próprio vai, vê quem são as pessoas que estão nessas circunstâncias e nós vamos ao encontro delas pela mão do catequista. E quando vamos, vemos a doença, vemos a velhice, vemos o abandono, que a velhice não é assim tanto como aí, mas vemos o abandono e vemos também as necessidades. Portanto, aqui a própria estrutura está também organizada no sentido de não esquecer essas periferias.
Falou na CEAST, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, que é verdade que denunciam a corrupção, mas tiveram um gesto muito interessante, foi um simpósio, um congresso.
O congresso da reconciliação…
Por ocasião dos 50 anos da independência, onde convidaram não só pessoas dentro da igreja, mas da sociedade civil, do exército, da segurança; o próprio presidente da República. Foram três dias e ele esteve lá sempre presente esses três dias e é verdade que eles aí fazem denúncias concretas. Mas o presidente ouviu-as. Ouviu-as e certamente que não as vai deixar em saco roto.
Eu sublinho em particular uma delas. É que é preciso que aqui acabem os medos. As pessoas vivem com medo. Portanto, que haja uma lei da amnistia geral em que as pessoas deixem de ter medo por alinhamentos políticos ou sociais que tiveram e que agora estão a pagar faturas elevadas, algumas na prisão e outras mesmo fora da prisão, mas praticamente marginalizadas de todo. Ora bem, esse foi um gesto bonito, que não só denunciou, mas também anunciou com a presença do próprio presidente nesse congresso de cinco dias, Congresso da Reconciliação.
Foi um gesto muito bonito e que nós agora aqui vamos procurar levar à prática o quanto possível. Como disse, as nossas preocupações são estas que eu já relatei aqui.
Precisamente, perante este contexto de grande dificuldade, como acaba de nos relatar, como é que se consegue fazer passar uma mensagem de esperança neste Natal onde, como me disse ainda há pouco, não se veem luzes de Natal nas ruas?
Ainda hoje de manhã às cinco e meia, eu disse na abertura da novena o seguinte: Meus amigos, eu venho habituado a um Natal diferente. Aqui não há consoada, aqui não há Missa do Galo, aqui não há luzes, não há pais Natais, não há. Mas há uma coisa. Estamos aqui na novena de Natal para olhar, contemplar o Menino do Presépio. E disse-lhes, isto é um mistério, um mistério maravilhoso, um sinal maravilhoso.
E o Papa Francisco, no texto sobre o Presépio que escreveu em 2019, ele motiva-nos muito a vivermos a mensagem do Natal como a grande lição que o Natal nos há de transmitir. Então, eu estarei aqui convosco a esta hora, durante estes nove dias, precisamente para contemplarmos a lição do Presépio. E eu penso, mesmo para mim pessoalmente, fora desta simbologia que nos envolve habitualmente no Natal, também vou ter uma oportunidade de concentrar mais a minha atenção no Presépio, no mistério do Presépio da Encarnação, que às vezes aí também era distraído como toda a gente, não é? Estou-lhe a citar uma preocupação que hoje às 5h30 da manhã tive com o grupo com que me encontrei para inaugurar a novena.
Essa é, portanto, uma forma de pregar a esperança neste contexto de Natal, e neste contexto particular de Angola, que como dizem os Bispos, os salários são precários e a política fiscal é violenta?
É sim, senhor. Vou por aqui e vejo lojas fechadas por causa do fisco. O fisco chega lá e fecha os comércios. E há vários fechados, acorrentados, e depois só quando pagam é que reabrem.
É claro depois as pessoas perguntam-me: para onde é que vai o resultado do fisco? Não se veem os resultados nos melhoramentos que deviam existir, nomeadamente as infraestruturas que ficaram danificadas desde a guerra e ainda não estão minimamente requalificadas. Repare que eu, para ir daqui à sede da Diocese, são 100 km, eu demoro no mínimo duas horas e meia.
Porquê? Porque o jipe algumas vezes tem de sair fora da estrada para depois encontrar a estrada mais à frente, porque os buracos são mais que muitos. Portanto, aqui o problema é esse. Aqui já se não fala, por exemplo, em água, em água ao domicílio, não se fala, vai-se com o caneco buscá-la onde é preciso.
A eletricidade está aqui a dois passos, mas na Kilenda não há. E a eletricidade é praticamente de graça, porque vem aqui das barragens de Kwanza. São 20 km de rede que há muito tempo andam a prometer, mas não fazem. Portanto, são situações que todos os dias nos incomodam, mas nós estamos aqui. Se eles sofrem, nós também sofremos com eles, e estamos aqui à procura de soluções. É verdade que a igreja aqui tem procurado fazer este trabalho, não só ao nível superior da Conferência Episcopal, mas também aqui nas comunidades. Este trabalho está a ser feito. Pode ser potenciado. A minha presença aqui também poderá ajudar um bocadinho nesse sentido.

Este vai ser o seu primeiro Natal em Angola. O que espera desta celebração? O que é que é diferente na forma como as comunidades angolanas celebram o nascimento de Jesus, comparando com o frio – não só climático, mas às vezes humano – da Europa?
Bom, aqui frio, frio climático não há. Neste momento temos calor que chegue. Frio humano vai-se corrigindo. Com certeza que também há indiferenças. E é uma das coisas que tenho falado.
Mas não se compara com o frio na Europa, pois não?
Não, nem pensar nisso. Na Europa vigora a tese: governa-te que eu também me governo. Cada um para si. Aqui a solidariedade é maior. Repare que aqui, alguém que vai ter com outro familiar, é sempre acolhido.
Se há comer para todos, há a comer para todos. Se há menos, cada um come menos, mas todos comem. E fica o tempo que entende junto da família.
Esta é uma lei geral que nós vemos aqui aplicada. Este sentido do acolhimento, este sentido da família alargada, aqui existe. E é um valor. É um valor que há de ser posto em evidência. E isso, o Natal, também potencia e diz que, vivendo este valor, estamos a viver o Natal.
De maneira que eu, como é que vou viver aqui o Natal? Olhe, sem consoada, sem Missa do Galo, sem essas simbologias todas, eu espero que isto contribua para que com as pessoas com as quais diariamente estou, com as quais celebro, isso me ajude a ir ao essencial do ministério. E uma coisa é certa. Eles não têm Missa do Galo. Mas, repare, no dia de Natal, o que se prevê é que a celebração única na praça pública tenha milhares de pessoas e no mínimo quatro horas. As pessoas aqui não olham para o relógio quando estão a celebrar pontos essenciais.
Será um Natal diferente, mas talvez o essencial esteja mais presente do que em muitas circunstâncias que nós temos por aí. Porque às vezes, no dia de Natal, celebrar três, quatro Missas é importante fazê-lo, mas tiramos-lhe peso e valor à própria celebração em si. Aqui há mais esforço por valorizar a própria celebração.
E será um Natal com comida na mesa?
Com certeza. Eu espero não passar fome nesse dia, mas estarei atento e, havendo algumas pessoas com mais necessidade, também sou capaz de partilhar com elas. Sabe que essas situações de maior carência, elas não se vêm a olho nu.
Por isso, ao longo destes dias, até ao Natal, sobretudo nos contatos que vamos ter com os doentes, os mais abandonados, através da mão e dedicação do catequista visitador, que foi nas comunidades ver onde é que estão os problemas. E nós agora vamos, ao longo destes dias, às tardes principalmente, ao encontro das pessoas. A uns damos a Santa Unção, a outros falamos, rezamos um bocadinho e, portanto, é o nosso contacto, ao longo destes dias. Sobretudo durante as tardes dedicamo-nos a contactar com as pessoas em necessidade daqui até ao Natal. Espero também, eu próprio, sentir-me bem na disponibilidade para ir ao encontro daqueles que mais sofrem, que estão em mais dificuldade.
Apesar da distância, sabemos que continua atento à realidade portuguesa. Ao olhar para Portugal a partir de África, a perspetiva muda? O que é que o preocupa mais no nosso país neste momento, seja a nível social ou na vida da Igreja?
A Igreja em Portugal tem estado atenta aos problemas da sociedade. Por exemplo, na mensagem de Natal do Presidente da Conferência Episcopal vê-se bem a preocupação pelos migrantes, pelos idosos, pelos abandonados, por aqueles que estão sozinhos, por aqueles que até têm disponibilidades materiais, mas não têm os que mais estimam junto deles, e estão em situação de abandono. Essas são realidades que estão a preocupar a Igreja portuguesa. E agrada-me muito que isso faça parte da preocupação do Natal da Igreja em Portugal. Evidentemente que a própria sociedade civil também, em meu entender, tem de progredir no sentido de inclusão total de todos, inclusão de todos, para que ninguém fique de fora, isto a todos os níveis.
Estive atento à greve geral que se fez. É verdade que nós temos de dar atenção aos direitos dos trabalhadores, mas também temos de dar atenção a todos. Há alguns que não têm a voz do trabalho, e agora também não podem ser esquecidos.
E por isso, os responsáveis da nossa sociedade têm de dar atenção a todos. Àqueles que têm voz para reivindicar e aos outros que não têm voz para reivindicar. E isso é importante que aconteça.
E eu espero que também este Natal e a mensagem de Natal leve os nossos responsáveis a darem conta que, como líderes de um povo, têm que não deixar ninguém de fora, mas estar atentos às necessidades de todos. É um bocadinho o desejo que eu quero deixar nesta minha mensagem.
Especialmente tendo em atenção aqueles que vêm de fora, os migrantes, não é?
O presidente da Conferência Episcopal sublinhou muito esse aspeto. E aqui têm-me perguntado: então, e vós lá, como é que é a migração?
E eu tenho dito aqui que os portugueses precisam de quem trabalhe. Os portugueses precisam de acolher, até por necessidade.
Com certeza que há outras razões para além da necessidade material. Para além de haver necessidade de quem trabalhe, acolher quem nos procura é um dever que todos nós temos. Porque todo ser humano tem o direito de ser acolhido onde quer que se encontre e para onde quer que vá. Todavia, além disso, nós portugueses temos um déficit grande de pessoas que trabalhem. Por exemplo, eu venho daí e com a consciência de que o nosso sector social, se não for a migração, não tem gente para responder às necessidades dos nossos lares. Não tem gente para responder às necessidades mesmo dos trabalhos ao domicílio. Isso é uma realidade. E, portanto, também deve motivar os nossos responsáveis nas leis que fazem que não sejam leis de exclusão, mas sejam leis de integração.
É certo, temos de cuidar a segurança, temos de cuidar a educação das pessoas para saberem ocupar o seu lugar e, com certeza, quando há maus comportamentos, que se chame à responsabilidade; mas por isso temos também forças de segurança, temos tribunais, que também exercem o seu dever.
E repito, eu aqui tenho dito que em Portugal, nós precisamos de gente que vá daqui ajudar-nos nos serviços essenciais, como nós portugueses também, em determinada altura, tivemos de sair da nossa terra e fomos ajudar outros. Agora, precisamos também de quem nos ajude. Este fator tem de estar na cabeça dos nossos responsáveis, que ao fazerem leis não podem ignorar isto. Tem de tê-lo em consideração.
E estamos a dar uma imagem negativa, nomeadamente no que diz respeito ao acolhimento e às leis que estamos a produzir… Estamos a dar uma imagem negativa da forma como queremos acolher ou estamos dispostos a acolher?
Olhe, eu aqui, às pessoas que me perguntam sobre se, com as novas leis, já é impossível ir para Portugal, trabalhar? Eu respondo: acho que não, e é de continuar a tentar, porque há procedimentos que ainda estão em vigor.
Com certeza tem de haver garantias, e eu tenho dito aqui, é possível, uma carta de chamada. Eu estou aqui em Angola, porque tive uma carta de chamada, neste caso da Conferência Episcopal, em que diz que garante a minha manutenção, a minha saúde, tudo aquilo que eu preciso. Ora bem, eu estou aqui por isso, e com visto por 365 dias renovável, no próximo mês de abril. Também nós aí temos procedimentos dessa natureza, vamos usá-los.
Eu aqui tenho dito que não, não é impossível ir para Portugal trabalhar, temos de seguir os procedimentos, e isso é possível.
A questão mais pertinente tem a ver com uma outra coisa. O problema da migração desviou-se para outro ponto, que eu acho que era desnecessário, que é a chamada lei da nacionalidade. O que nós tínhamos estava bem, não precisávamos de mais. Agora o que nós tínhamos de apostar era numa migração humanizada, uma migração em que as pessoas são contempladas nos seus direitos e também motivadas para os seus deveres. A lei da nacionalidade acho que foi desviar a questão, em meu entender, do que eu vejo aqui, do que é essencial.
De qualquer maneira, este é um ponto sensível, sensível. Tem estado presente muito até nos pronunciamentos da Igreja e da Conferência Episcopal e que espero que tenha um desfecho positivo para a nossa sociedade portuguesa e também para estrangeiros que nos procuram para relançar a sua própria vida.
E aqui vejo que algumas pessoas desejariam relançar a sua vida e têm possibilidade para isso, até ajudar-nos-iam com a sua capacidade de trabalho.
E têm receio de vir para Portugal nesta altura?
O que se tem dito aqui é que as leis endureceram muito. Todavia eu tento explicar que o que agora se tem estado a falar, é mais na nacionalidade do que propriamente na lei da migração, porque o acolhimento existe, com algumas dificuldades. O discurso público, nem sempre é aquilo que as leis exigem.
A lei, felizmente, ainda tem uma certa capacidade de acolhimento e, portanto, vamos valorizar a lei como ela está. Certamente vai haver algumas modificações, ainda não as sei todas.
Mas está de alguma forma criada uma perceção de maior dificuldade, não é?
Sim. A sensação que aqui há é de que há maior dificuldade na migração para Portugal. Alguém me disse até: ah! o nosso presidente também devia pôr dificuldades a quem quer vir daí para cá.
E eu respondo: está bem, com certeza. Mas eu penso que aqui devemos também ter capacidade de diálogo e o acolhimento é o fator número um que nós temos de valorizar. E certamente, a nível dos responsáveis, há possibilidades de diálogo que não existem a nível do cidadão comum.
Espero que nos responsáveis esse diálogo exista e, sobretudo, entre nós, quer PALOP quer CPLP, nós sintamos que também temos ligações históricas, institucionais e até de deveres uns para com os outros, que nos obrigam a ter uma lei e uma atitude de acolhimento com discriminação positiva, não é? É mais ou menos isto que eu tenho dito às pessoas que me interpelam e sobre esse aspeto, várias têm sido aquelas que vêm ter comigo.
