Frade dominicano aborda tema dos direitos humanos, que esteve na base da criação e ação da organização ‘Mosaiko’
Lisboa, 07 jan 2026 (Ecclesia) – O frade dominicano Danilson Lopes, da organização angolana ‘Mosaiko’, alertou para as desigualdades sociais em Angola, que colocam em causa o respeito pelos direitos humanos.
“É um problema que persiste. A falta de justiça social, que é algo que tanto a Igreja tem insistido tanto, e daí o Congresso de Reconciliação, promovido pelos bispos também, a falta de justiça social é algo gritante”, afirmou o religioso, no Programa ECCLESIA, transmitido hoje, na RTP2.
Recorrendo a um exemplo, o frei Danilson Lopes referiu que, num mesmo país, “não faz sentido que alguém” tenha “uma piscina em casa, o que não é problema nenhum, mas ao mesmo tempo alguém morra de sede” ou “não tenha água limpa para beber”.
O frade dominicano deu conta que no Nzagi, Cambulo, existe um rio “muito grande”, com “água que poderia servir a população”, no entanto “por ser uma zona de exploração”, está “completamente poluído”.
“A água do rio está castanha, e ao entrar para a cidade, tu vês as pessoas em fila, com bidões de água, à espera de uma cisterna, que vem uma cisterna de água limpa, isto perto do rio. Então é só para ver onde é que nós estamos e o que é que tem de ser feito, para que necessidades básicas não faltem a ninguém em Angola”, destacou.
O frei Danilson Lopes integra a organização ‘Mosaiko’, que surgiu em 1997, cujo objetivo é contribuir para uma cultura de Direitos Humanos em Angola.
“Os dominicanos portugueses chegaram a Angola em 1982. E de lá para cá, desde 1982 a 1997, tiveram uma missão vasta no meio da Igreja, com paróquias, com institutos de educação que pertenciam à Conferência Episcopal”, explica.
Foi em 1977 que o frei João Domingos desafiou “dois jovens dominicanos para começar uma obra propriamente dominicana” que, segundo o religioso, sonharam a organização enquadrando-a num dos pilares da espiritualidade da ordem religiosa: “missão de fronteiras”.
“Nós, os dominicanos, temos que estar na fronteira”, reforçou o frei Danilson Lopes.
O frade dominicano lembra a época em que a organização foi criada, quando o país estava inserido num contexto de guerra civil e havia muitas ajudas e muita movimentação civil, mas todas “elas do ponto de vista humanitário, assistencialista”.
“Estes frades reconheceram que, mesmo que isto fosse necessário, e era necessário, não bastava para construirmos uma sociedade realmente de paz. Era necessário preparar os cidadãos, os angolanos e as angolanas”, recordou.

Assim nasce o ‘Mosaiko’, que hoje soma 28 anos.
No ano passado, a 10 de dezembro, a organização sem fins lucrativos lançou um “Manual de Direitos Humanos”, uma das cartas de identidade do ‘Mosaiko’.
Depois da primeira edição ter sido publicada em 1999, o frade dominicano assinala que existia a necessidade de atualizar a questão que trata a publicação.
“Hoje, a nossa realidade política mundial está a ver o crescimento de linhas de pensamento, linhas ideológicas, que vão deixando de lado a questão dos direitos humanos, a questão do cuidado das pessoas, dos direitos”, assinalou.
O Manual conta com mais de 50 autores de Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde e Portugal, que trazem as suas experiências sobre temas diversos e atuais.
“Não é um livro para ler de capa a capa. É um manual que cada um é convidado a pegar, procurar o que lhe interessa, ler e preparar formações, também enriquecer-se a si mesmo sobre as diferentes temáticas”, referiu.
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