Amar os corações de pedra

José Luís Nunes Martins

Foto de Diego Fabra no Unsplash

Não esperes receber dos outros tanto quanto lhes dás, pois há cada vez mais gente com o coração de pedra.

Quando amamos alguém e, por isso, fazemos das suas tristezas e alegrias, tristezas e alegrias nossas, isso nunca pode garantir que teremos do outro o mesmo que lhe estamos a dar. Aliás, se o amássemos à espera de receber, seria um negócio, uma troca, algo que retiraria a maior parte do valor à nossa amabilidade.

Quem ama não deve esperar recompensa. Por mais que a mereça, ainda mais a merecerá se a desconsiderar desde o início.

Quem dá com inteireza e generosidade corre um risco silencioso, porque parte do princípio de que aquele a quem se entrega aceitará o que se lhe estende com a mão aberta. No entanto, o mundo é cada vez mais duro e cru. São já muitos os que aprenderam ou escolheram proteger-se através do endurecimento do coração. Assim, é bem possível que mesmo aqueles que estão famintos de atenção não abram a porta a quem lha quer oferecer sem esperar nada em troca.

A insensibilidade resulta por vezes de feridas antigas que teimam em não sarar; outras vezes, de simples medos que não se deixam resolver. O coração encolhe-se e cria uma capa dura que impede o contacto. De acordo com esta lógica, é melhor ficar só do que arriscar o encontro e sofrer mais um ataque qualquer.

Estas são as pessoas que mais precisam de ser amadas. Além disso, ao amá-las garantimos também algo muito importante: a fidelidade ao que somos. Porque, apesar de tudo, ser quem somos e quem podemos ser de melhor é tudo quanto de verdade importa.

E por mais golpes que tenhamos de suportar, e ainda que não nos aceitem ou até nos tratem mal, é essencial que nunca deixemos que os nossos corações endureçam.

Além disso, é importante que nunca nos deixemos tomar pela vaidade ou pelo orgulho de nos sentirmos acima dos outros. Amar aproxima-nos da felicidade, ainda que a um preço que, para muitos, pareça ser insuportável, a ponto de julgarem que a felicidade não vale a pena.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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