Padre Román Ángel Pardo defende que a questão central, mais do que a tecnologia, é «quem é o homem», rejeitando a ideia de uma salvação pela ciência

Albufeira, 21 jan 2026 (Ecclesia) – O decano da Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia de Salamanca afirmou, em Albufeira, que o pensamento transumanista é o perigo “oculto” por trás do desenvolvimento da inteligência artificial (IA), representando o risco de autodestruição da humanidade.
“O que fica escondido é um pouco o pensamento transumanista, por trás disso pode estar um dos grandes riscos”, disse o padre Román Ángel Pardo à Agência ECCLESIA, à margem das Jornadas de Atualização do Clero das dioceses do Algarve, Beja e Évora.
Para o especialista, esta corrente de pensamento funciona como uma “pseudorreligião” que promete a salvação através da ciência, alimentando o desejo de “criar o próprio homem” sem perceber que, “tal como Saturno, devoremos os nossos próprios filhos”.
O padre Román Ángel Pardo, que intervém no encontro com uma conferência sobre ‘Os desafios da IA à Ética Cristã’, comparou o momento atual às grandes mudanças de época históricas, evocando o papel da Escola de Salamanca no século XVI perante a descoberta do Novo Mundo.
“A Igreja continua atenta”, observou, assumindo o desafio do que se chama “entre aspas, inteligência artificial”.
“Em que medida posso aplicar um conceito verdadeiramente humano, como é a inteligência, a uma máquina?”, referiu, questionando a própria terminologia.
O teólogo sublinhou que a tecnologia não deve causar fobias, mas sim uma procura do bem comum, recordando que “as coisas não são boas ou más no seu uso, mas sim no seu abuso”.
“Todas as questões sociais, no final, resolvem-se a partir da questão “quem é o homem?”. Depende de como compreendemos o homem, veremos o que faremos com a inteligência artificial”, sustentou.
O sacerdote espanhol apontou a popularidade de autores como Yuval Noah Harari, que se inserem na cultura “pós-moderna e pós-verdade”, e para o perigo de se perder a “essência do ser humano” em nome de um futuro ciborgue.
Citando o filme ‘Blade Runner’, Román Ángel Pardo deixou uma provocação final: “Vamos ver se os ciborgues vão valorizar o ser humano mais do que nós mesmos”.
As jornadas de formação, organizadas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora (ISTE), terminam esta quinta-feira, contando ainda com intervenções do padre Peter Stilwell e do padre José Frazão Correia.
OC
