Capelão no Estabelecimento Prisional de Coimbra, sacerdote partilha sinais concretos de esperança que encontra no contacto com os mais de 550 reclusos
Coimbra, 13 dez 2025 (Ecclesia) – O reitor do Seminário Maior de Coimbra desafiou os cristãos a “desmontar ilusões” e erguer “andaimes” de esperança baseados nas relações e na natureza, na caminhada para o Natal.
“A primeira coisa é desmontar ilusões. Há muitas ilusões, que tudo acaba depressa, que o mal vai desaparecer, que a guerra acaba. Quando se vendem ilusões, rapidamente recolhemos desilusões”, afirmou o padre Nuno Santos, convidado da série de conversas de Advento da Agência ECCLESIA.
O sacerdote alertou para o perigo de vender a ideia de que o mal desaparece instantaneamente, num contexto global marcado pela guerra.
Para o responsável, a esperança não é a ausência de escuridão, mas a capacidade de identificar pequenos sinais de luz, recordando uma máxima de Madre Teresa de Calcutá: “Quanto maior for a escuridão, mais fácil é ver uma pequena luz”.
Numa reflexão sobre a necessidade de estruturas de apoio para a vida espiritual, o entrevistado utilizou a metáfora dos “andaimes”, estruturas provisórias que permitem a construção ou o restauro.
“Nós precisamos de muitos andaimes. O primeiro, desde logo, é os cenários (…), contemplar a natureza. Outro andaime tem a ver com as pessoas com quem vivemos, partilhamos, rezamos”, explicou.
O reitor do Seminário de Coimbra sublinhou a importância de distinguir o “provisório” do “permanente”, notando que o inverno e os momentos de aridez são essenciais para o florescimento da vida, tal como a poda na agricultura.
“A esperança não vê tudo o que está a acontecer. Acredita também muito que aquilo que fez, ou aquilo que está a acontecer, vai florir”, sustentou, acrescentando que “sem inverno não há primavera”.
O sacerdote alertou ainda para o risco da “esperança não celebrada”, que classificou como uma “espécie de indiferença no dia-a-dia”, defendendo a necessidade de valorizar o “tempo comum” e os pequenos gestos.
“O problema é que, às vezes, o ambiente não é de esperança. A comunidade devia ser esse grande lugar de sobrar essa força da esperança”, apontou.
Capelão no Estabelecimento Prisional de Coimbra, o padre Nuno Santos partilhou sinais concretos de esperança que encontra no contacto com os mais de 550 reclusos, destacando a presença de um recluso em regime precário no Seminário Maior.
“É uma esperança enorme. Nós podemos estar a partilhar o mesmo espaço, conversarmos juntos, rezamos juntos”, referiu.
O responsável destacou ainda o crescimento vocacional na diocese, que conta atualmente com 14 seminaristas, contrariando a narrativa de declínio.
“Não somos das dioceses que estão a dizer ‘estão a acabar’. Somos das dioceses que estamos a dizer que temos cada vez mais seminaristas”, concluiu.
O tempo do Advento marca o arranque de um novo ano no calendário litúrgico da Igreja Católica, englobando os quatro domingos anteriores à solenidade do Natal.
Marcada pela cor roxa e pela ausência do Glória na Missa, a liturgia é marcada pelos apelos à vigilância, destacando figuras bíblicas como o profeta Isaías, São João Batista e, de modo particular, a Virgem Maria.
A entrevista ao padre Nuno Santos integra o programa de rádio ECCLESIA deste domingo (06h00), na Antena 1, que ao longo das quatro semanas do Advento vai abordar a temática da esperança.
OC
