Abusos sexuais: «Muitas vezes o escândalo na Igreja é porque a porta foi fechada e as vítimas não foram acolhidas», afirma Papa

Leão XIV recordou problema que hoje ainda é uma «ferida» em muitos lugares, na conclusão do Consistório extraordinário

Foto: Vatican Media

Cidade do Vaticano, 10 jan 2026 (Ecclesia) – O Papa Leão XIV lembrou a crise causada pelos abusos sexuais na Igreja, no discurso de encerramento do Consistório extraordinário, divulgado hoje, apontando o motivo pelo qual as vítimas têm o sofrimento mais acentuado.

“Muitas vezes a dor das vítimas foi mais forte pelo facto de não terem sido acolhidas e ouvidas. O abuso em si causa uma ferida profunda que talvez dure toda a vida; mas muitas vezes o escândalo na Igreja é porque a porta foi fechada e as vítimas não foram acolhidas, acompanhadas com a proximidade de pastores autênticos”, afirmou Leão XIV.

Na intervenção proferida na quinta-feira e publicada hoje pela Santa de Imprensa da Santa Sé, o pontífice destaca que este problema “ainda hoje é verdadeiramente uma ferida na vida da Igreja em muitos lugares” ao qual ninguém “deve fechar os olhos nem os corações”.

Uma vítima, há pouco tempo, disse-me que, para ela, o mais doloroso era precisamente o facto de nenhum bispo querer ouvi-la. E, portanto, também aí: a escuta é profundamente importante”, salientou.

O primeiro Consistório do pontificado do Papa Leão XIV decorreu nos dias 7 e 8 de janeiro, reunindo 170 cardeais, entre os quais quatro portugueses: D. Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa; D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima; D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação; e D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal.

O Colégio Cardinalício elegeu a “Sinodalidade” e a “Evangelização” como os temas prioritários do encontro, que tinha como opções de trabalho uma lista de quatro temas, incluindo também a Liturgia e a reforma da Cúria Romana.

“O caminho da sinodalidade é um caminho de comunhão para a missão, no qual todos somos chamados a participar. Por isso, os laços entre nós são importantes”, referiu Leão XIV, no encerramento da reunião extraordinária.

A “importância da ligação do Santo Padre, em particular com as Conferências Episcopais e com as Igrejas locais; e a importância das Assembleias continentais” foram pontos sublinhados pelos cardeais, mas, segundo o Papa, “estas não devem tornar-se reuniões ‘a mais’ a acrescentar a uma lista”.

“[Devem ser] locais de encontro e de relações entre bispos com os presbíteros e os leigos, e entre Igrejas, que ajudam muito a promover uma autêntica criatividade missionária”, realçou.

Foto: Vatican Media

Sobre o outro tema votado pelos cardeais, Leão XIV sublinhou a importância de todos viverem “verdadeiramente uma vida espiritual autêntica que possa ser testemunho no mundo de hoje”.

“Os temas escolhidos estão profundamente enraizados no Concílio Vaticano II e em todo o caminho que se iniciou a partir do Concílio. Nunca será demais sublinhar a importância de continuar o caminho que se abriu com o Concílio. Encorajo-vos a fazê-lo”, disse.

Na intervenção, o Papa abordou “a formação de todos” – nos seminários, dos sacerdotes, dos bispos, dos colaboradores leigos – ressaltando esta “deve estar enraizada na vida ordinária e concreta da Igreja local, das paróquias e de tantos outros lugares significativos onde as pessoas se encontram, em particular aquelas que sofrem”.

“Como vocês viram aqui, não bastam um ou dois dias, nem mesmo uma semana, para aprofundar um tema a ponto de vivê-lo. Seria importante, portanto, que a nossa maneira comum de trabalhar juntos fosse uma ocasião de formação e crescimento para aqueles com quem trabalhamos, em todos os níveis, desde o paroquial até à Cúria Romana”, mencionou.

Leão XIV apontou como exemplo “de onde se pode crescer normalmente num estilo sinodal” as “visitas pastorais”, acrescentando que “também todos os organismos de participação devem ser revitalizados”.

A conclusão da terceira e última sessão de trabalhos do primeiro Consistório extraordinário ficou marcada também pelo anúncio de consistórios anuais e um novo encontro de cardeais para junho.

LJ/OC

Vaticano: Papa anuncia consistórios anuais e convoca novo encontro de cardeais para junho

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