Numa teia de ruas estreitas por entre o branco casario barrado a azul sulfato, amarelo ocre e “sangue de boi”, pincelado de flores nos muros, bermas e janelas, a belíssima vila medieval de Óbidos revive, todos os anos, intensamente, na Semana Santa, a sua tradição histórico-religiosa. Senhora de uma história antiga, dote das rainhas de Portugal entre os séculos XIII e XVIII, Óbidos, “Vila de Rainhas”, soube desenvolver-se preservando a sua história através dos tempos, como é bem patente nas palavras de Ramalho Ortigão: “Restabeleçam sobre os alicerces que ainda existem alguns dos velhos edifícios arrasados pelo terramoto de 1755; suprimam não mais de uma dúzia de construções deste século; dêem ao que fica a ligeira restauração cenográfica de alguns detalhes arquitectónicos; e, sem tocarem na disposição geral das ruas e no agrupamento das casas, aqui têm Óbidos, fielmente e integralmente ressuscitado, um velho burgo português de há trezentos anos”. A Semana Santa é o ponto alto do calendário litúrgico e cultural na Vila de Óbidos. Um acontecimento religioso importante para comunidade local assim como para os vários milhares de peregrinos e turistas, que assistem às imponentes cerimónias. No passado Domingo, a vila viveu intensamente a procissão de Ramos e a procissão dos Passos, com as ruas cobertas de ramos de oliveira, alecrim, rosmaninho e um doce aroma a invadir toda a povoação. Foi sobre este tapete florido que teve lugar a procissão dos Passos, que saiu da Praça de Santa Maria, parando junto dos oratórios evocativos dos Passos da Paixão, recriando a caminhada de Jesus para o calvário. Este ano celebrou-se os 400 anos da realização da Procissão dos Passos onde foi lançada a segunda edição actualizada de um livro com uma colecção de recortes de diversos jornais, desde os anos 40 a 1995, sobre estas cerimónias religiosas, numa edição da Câmara Municipal de Óbidos e da Associação de Defesa do Património do Concelho de Óbidos, da autoria de Carlos Orlando Rodrigues. Na próxima sexta-feira vive-se a Procissão do Enterro, realizada sem qualquer iluminação, a não ser os archotes que ardem nas mãos de jovens que se colocam em pontos chave do percurso processional. Esta cerimónia, não estando determinada pelas rubricas do Missal Romano, estabeleceu-se em Portugal pela devoção dos fiéis no século XV e princípios do século XVI. Como manifestação cultural, é considerada o ponto alto das solenidades. A abrir o cortejo, a personagem do “gafaú”, que representava o carrasco, com a cabeça coberta com um pano e transportando nas mãos um “serpentão” (um trombone de varas em forma de serpente), anunciava à multidão a aproximação do condenado. As imagens de Maria e do seu Filho encontraram-se em frente à Igreja de São Tiago, num momento de fortíssima emoção. Em Abril, estão programadas as principais cerimónias religiosas, este ano com a novidade da realização da Via Sacra, nas ruas da Vila, numa encenação do caminho de Jesus Cristo até ao Calvário, pelo Grupo de Teatro “O Nazareno”. Os monumentos, as igrejas e sobretudo o cenário monumental da vila, são palco propícios à realização das cerimónias religiosas. Programa SÁBADO | 3 de Abril 21h30 Procissão da Mudança das Imagens DOMINGO | 4 de Abril 15h00 Benção e Procissão dos Ramos Missa da Paixão do Senhor Igreja de Sta. Maria 16h30 Procissão dos Passos 18h30 Concerto pela Cameratta Vocal de Torres Vedras Igreja de Sta. Maria QUINTA-FEIRA | 8 de Abril 21h00 Missa da Ceia do Senhor Igreja de S. Pedro SEXTA-FEIRA | 9 de Abril 15h00 Celebração da Paixão do Senhor Igreja de S. Pedro 19h00 Via Sacra com o Grupo de Teatro «O Nazareno» 21h30 Procissão do Enterro SÁBADO | 10 de Abril 21h30 Vigília Pascal Igreja de S. Pedro DOMINGO | 11 de Abril 17h00 Missa da Ressurreição Igreja de S. Pedro
