Padre Hugo Gonçalves, Diocese de Beja
Por vezes escutamos a conhecida expressão pronunciada por Jesus, «a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21), usada para salientar a salutar e desejável separação entre aquilo que pertence à política e aquilo que é da esfera religiosa. Contudo, a realidade não segue tão linearmente esse desejo de separação, até porque é humanamente impossível, na medida em que um católico bem formado, empenhado nas diversas causas publicas, que não só na política, não deixa de pensar e agir de acordo com a sua consciência, iluminada pela fé que professa e pratica (pratica não só no culto mas também nas diversas ações no dia-a-dia). Talvez a forma mais apropriada de ler esta expressão é a de que a Igreja, as suas estruturas, não têm filiação politica, mas já os católicos leigos devem envolver-se neste campo, contribuindo para uma sociedade mais justa, promovendo o bem comum, tendo por base os valores cristãos. Numa audiência, na Sala Paulo VI, no Vaticano, o Papa Francisco afirmava a este respeito: «Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão (…) Devemos envolver-nos na política porque a politica é umas das formas mais elevadas da caridade, porque ela procura o bem comum» (cf audiência de 07 de Junho de 2013).
Trago à estampa este tema por dois motivos diferentes: o primeiro está relacionado com a política internacional, mais concretamente com dois insignes políticos mundialmente conhecidos; o segundo com está relacionado com a situação politica nacional, mais concretamente com as eleições que se avizinham.
O primeiro motivo – relacionado com a política internacional – tem por sujeitos e alvos da minha critica, dois atuais vultos da política norte americana – falo, obviamente de J. D. Vance, Vice-presidente dos Estados Unidos da América, e Marco Rubio, Secretário de Estado dos E.U.A. Tratam-se de dois católicos publicamente assumidos, ‘praticantes’, como atesta uma recente foto de Rubio, que surgiu, na quarta-feira de cinzas, com uma visível cruz na sua fronte. Contudo, o recente evento, mundialmente difundido pelos meios de comunicação social, que os envolveram, conjuntamente com Donald Trump, num ataque cerrado ao presidente ucraniano Zelenski, naquilo que podemos definir como ‘bullying político’, deixaram-me surpreendido e dececionado. Se do presidente norte americano, Donald Trump, tudo e o inesperado se pode espectar, já de Vance e Rubio, por serem católicos, se esperava outro comportamento, coincidentes com a fé que professam e que se esperava que vivessem. Diante de Zelenski, que representa um povo martirizado com três anos de guerra, milhares de mortos e feridos, com territórios ocupados por um tirano que não olha a meios para atingir os seus fins expansionistas, para quem a vida humana – a não ser a sua – não tem qualquer valor, esperava-se que tivessem a capacidade de escutar, de empatia diante do sofrimento de um povo que ali vinha pedir, mais uma vez, a ajuda para se defender de um agressor muito mais poderoso. O episódio desse dia, a insensibilidade destes dois políticos católicos, trouxeram-me à memória o episódio bíblico de Lázaro e o homem rico que se banqueteava e ignorava por completo aquele que jazia chagado à sua porta, sem nada para comer. Um servidor da causa publica que seja católico, não pode deixar à porta do seu gabinete, ministério ou assembleia da república ou similar, a fé que professa, a Palavra de Deus que escuta, a Eucaristia que comunga, os valores que formam a sua consciência; se porventura o faz, então as palavras de Jesus, «Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu» (Mt 7, 21), tornam-se uma realidade na sua vida.
Passemos agora ao segundo motivo e que está relacionado com a proximidade de vários atos eleitorais, sendo o primeiro, as eleições legislativas. Alguns dos católicos serão chamados a desempenhar funções politicas, mas a maioria será chamada a participar com o seu voto consciente, ponderado. O bem comum deve ser – como dizia o Papa Francisco – o grande motivo que levará cada um a fazer a sua escolha por esta ou por aquela força partidária; mas tal decisão deve ser bem pesada, ponderada, iluminada pela Palavra de Deus e os valores que dela dimanam. O crescimento económico não pode ser feito à custa de salários baixos e do consequente crescimento da pobreza; o valor da vida desde a sua conceção até à morte natural não pode ser vendido pelo preço de um aumento de reformas ou de qualquer outro benefício que este ou aquele partido possa prometer. Torna-se, nesse sentido, importante acompanhar os debates que surgirão, ler as propostas que cada força politica quer implementar e fazer uma justa avaliação. Relativamente a todos aqueles católicos que forem chamados a servir a causa publica, espera-se que não deixem a fé à porta da Assembleia da República, que se comportem com verticalidade, aquela verticalidade dos filhos de Deus, chamados a amar o próximo como a si mesmos, procurando ser sal e luz, não o seu contrário.
Pe. Hugo Gonçalves
Diocese de Beja
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