As dificuldades de saúde do Papa dão vida, ciclicamente, a rumores sobre a possibilidade de João Paulo II renunciar ao cargo, por impossibilidade de governar a Igreja. Para o Cardeal Mario Francesco Pompedda, antigo “ministro da justiça” no Vaticano e consagrado especialista em Direito Canónico, “mesmo a partir de um hospital, é possível a quem governa a Igreja exprimir a sua vontade, dar ordens e disposições”. Em entrevista ao quotidiano italiano “Il Giornale”, D. Pompedda considera que o Papa pode continuar a exercer a sua jurisdição universal sobre a Igreja, mesmo se a laringotraqueíte aguda o impedir de falar, “exprimindo a sua vontade por escrito ou por gestos”. Enquanto o Papa está doente, a gestão dos assuntos correntes do Vaticano e da Cúria fica a cargo do Cardeal Secretário de Estado, D. Angelo Sodano. O Código de Direito Canónico não prevê explicitamente situações de incapacidade prolongada, mas tem uma lei fundamental para a chamada “vagatura ou total impedimento da Sé romana” (cân. 335): “nada se inove no governo da Igreja Universal”. Em caso de “impedimento total”, é ao Cardeal Camerlengo que compete a gestão dos assuntos correntes, mas nenhuma das decisões que competem ao Papa pode ser tomada. As informações dos últimos dias, contudo, assinalam que a saúde de João Paulo II está a melhorar, pelo que é ele quem continua a governar a Igreja. “Penso que quando há questões que necessitam da decisão do Santo Padre, elas lhes são submetidas pelo Cardeal Sodano quando o visita no hospital”, afirmou o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls. Segundo o Cardeal Pompedda, o importante é que o Papa conserve as suas faculdades intelectuais: “João Paulo II parece sofredor e quase prisioneiro de um corpo que já não responde às suas ordens, mas é claro e evidente que está consciente da autoridade que continua a exercer”. Ainda hoje, aliás, foram nomeados pelo Papa dois Bispos Auxiliares para o Patriarcado de Lisboa, D. Anacleto de Oliveira e D. Carlos Azevedo.
