A acção da Igreja na Arquidiocese de Braga não tem acompanhado a dimensão social da região, salienta o Arcebispo desta cidade. As conclusões de D. Jorge Ortiga constam de um diagnostico social apresentado esta sexta-feira pela Faculdade de Ciências Sociais do Centro Regional da Universidade Católica. Na apresentação do diagnóstico, o Arcebispo Primaz reconheceu a necessidade de maior ousadia, considerando mesmo que uma Igreja que despreze o social não é Igreja. Nas propostas da reflexão efectuadas, defende-se que o ciclo da acção social seja vivido sob o signo da conquista da cidade, mediante um anúncio destemido da Boa Nova. D. Jorge Ortiga reconhece que o percurso efectuado pela Igreja local na reflexão, na acção catequética e litúrgica não tem sido acompanhado pela dimensão social. Urge, por isso, repensar, com ousadia, esta acção e dar-lhe a estrutura que mais lhe convém… Até porque o prelado considera que uma Igreja que despreze o social não é Igreja. Para o Arcebispo Primaz, a vertente social da pastoral da Igreja é um serviço. Por isso, o prelado afirma que as comunidades paroquia precisam de vocações sociais, para um trabalho que não concorre com as responsabilidades estatais, nem aceita ser mero parceiro de associações que prosseguem objectivos de bem-fazer. Depois do Diagnóstico Social apresentado em intervenções de Vera Mónica Duarte e José da Silva Lima (e editado, para estudo e consulta), a arquidiocese de Braga deve avançar para a criação de um Observatório da Acção Social e Caritativa que faça convergir num espaço comum estratégico o trabalho de várias instituições eclesiais de cariz predominantemente social. Quanto a pormenores do diagnóstico, eis alguns: oitenta por cento das paróquias que responderam ao inquérito têm uma pastoral litúrgica organizada; mas só umas 48 por cento terão grupos sócio-caritativos constituídos. As respostas dos párocos são, aliás, bastante claras: na resolução dos problemas sociais – revelam – o papel da comunidade paroquial oscila frequentemente entre duas imagens: a comunidade solidária, que se organiza, detecta problemas e faz os possíveis (a maioria); e a comunidade egoísta e pouco sensível (com um peso de mais de 30 por cento). No quadro das necessidades que as paróquias apontam, os equipamentos para idosos são mencionados em 71 por cento dos casos – seguidos de actividades para a juventude, saneamento básico, centros sócio-culturais e de lazer, e habitação social. Já no que respeita aos equipamentos existentes, a dianteira vai para os jardins de infância, para o apoio domiciliário e para os ATL. Mas, naturalmente a situação revela as assimetrias rural-urbano…. Além disso, a maioria dos equipamentos pertence à sociedade civil, sendo notório que, nas zonas rurais, a propriedade é maioritariamente paroquial. As paróquias respondem, sobretudo, com apoio domiciliário, centros de convívio, Atl e creches. Ou seja: as paróquias bracarenses respondem, sobretudo, à qualidade de vida dos idosos e às situações de pobreza. Mas quais são os problemas sociais mais citados pelas paróquias da arquidiocese de Braga?… Por ordem de importância, o diagnóstico ontem divulgado diz que são o alcoolismo, o desemprego, a pobreza, o insucesso escolar, o analfabetismo e a droga. Serão estes, pois, campos de intervenção a considerar. Acção social à conquista da cidade O diagnóstico ontem apresentado permite, mesmo numa leitura apressada, forçada pelo jornalismo diário, verificar uma arquidiocese a duas velocidades: uma velocidade no meio rural e uma outra no meio urbano. Estes dois meios foram ontem caracterizados numa intervenção de José da Silva Lima, que falou de um espaço «não só extenso e diversificado do ponto de vista geográfico e social, mas também heterogéneo do ponto de vista populacional e cultural». Mas o sociólogo partiu do diagnóstico para as propostas de acção. Assim, falando do fim de um ciclo centrado no sector litúrgico, disse que «sem deixar deteriorar o aspecto cultual, [a arquidiocese] deve agora suscitar uma nova vaga, gerando um novo ciclo de atenção redobrada à caridade operativa». É o ciclo da “acção social”, que deve ser vivido «sob o signo da conquista da cidade», que «é o grande aglomerado de gente anónima, alheia e indiferente, pois escasseiam aqueles que possam proclamar a Boa Nova». Nesta cidade, «os bairros desenvolveram-se em sucessivas construções em altura, onde as famílias do Povo de Deus atravessam a aridez de um deserto sem palavras novas de conforto e com escassos horizontes de esperança, votadas que estão à labuta quotidiana sem transcendência». Ali, «as grandes superfícies comerciais são substitutos dos templos, dos espaços de culto, das igrejas». “Conquistar” a cidade exige um «anúncio destemido da Boa Nova de Deus, como Salvação e Paz para quantos atravessam o deserto». Porque de uma coisa ninguém pode duvidar: «a cidade necessita do Evangelho». O que implica que a Pastoral arquidiocesana se converta à cidade, «dedicando-lhe o melhor que possui para a salvação de todos», mediante a «transformação do seu centro gravitacional em termos de recursos humanos». Para José da Silva Lima, o ciclo rural, centrado sobretudo na estrutura clerical da Igreja, sendo o pároco a figura de proa, «não tem futuro». Importa, por isso que, sempre perder a figura do pároco, «como sinal da dimensão hierárquica da Igreja», se outorgue «ao Povo de Deus, e à sua índole laical constitutiva, a relevância a que tem direito». «Será impossível evangelizar o tecido urbano e manter assim a identidade cristã nas populações, sem a conversão ao modelo laical de evangelização, suscitando em todos a vontade imperiosa da missão que lhes é peculiar», sublinhou Silva Lima. Que enfatizou a formação para a corresponsabilidade, dando-lhe, porém, «um rosto prático». «A formação tem de ser prosseguida, num horizonte teórico e prático, de modo a criar uma estrutura nova, responsável, alicerçada em agentes qualificados. O novo ciclo não pode ser de qualificação de leigos nas escolas da Igreja, votados ao desemprego missionário, como se fossem intrusos na comunidade, mas tem de ser de harmoniosa inclusão dos que se revelam mais aptos para as tarefas apostólicas», disse. Uma nova organização paroquial Prosseguindo a explanação das propostas decorrentes do Diagnóstico, Silva Lima defendeu «uma nova organização pastoral, servindo os três sectores tradicionais de actividade, à qual se costuma chamar a organização em “unidades pastorais”». E explicou: «a expressão implica (…) a comunhão eclesial, como força sem a qual a organização seria ineficaz; implica também o cuidado de rever, com critérios de homogeneidade cultural e até de facilidade geográfica, a rede entre as comunidades paroquiais que dela seriam células vivas de vida cristã.» Para o sociólogo, a “unidade pastoral” «não será uma experiência puramente litúrgica, mas integrará os sectores evangelizador e sócio-caritativo, permitindo, talvez, uma maior lucidez e compromisso em relação aos reais problemas da comunidade». Mesmo consciente do caminho que há que percorrer, Silva Lima insiste que «importa dar os primeiros passos». A terminar, o desafio-convite: «aposte a Arquidiocese nesta nova via e estará mais perto dos problemas e saberá encontrar soluções mais adequadas e credíveis. Só no horizonte deste novo ciclo aberto, se poderá pensar na real efectivação de um “Observatório Social” que será, a curto prazo, um nome novo da caridade em acção e no qual a Igreja pode jogar um papel essencial, desperta que está para a escuta das necessidades e para a cura pastoral».
