Bartolomeu I no Vaticano

Patriarca de Constantinopla receberá as relíquias de São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo, num gesto simbólico do Papa. Diálogo entre a Igreja do Oriente e do Ocidente pode ser relançado O Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, a que preside o Cardeal Walter Kasper, anunciou a chegada, hoje, do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, para uma visita de dois dias ao Vaticano. No decorrer da mesma, o Patriarca receberá do Papa as relíquias de São João Crisóstomo e de São Gregório de Nazianzo, bispos e Doutores da Igreja. João Paulo II mostra-se, assim, decidido a promover uma aproximação significativa com a Igreja Ortodoxa na sua busca da unidade entre todos os cristãos. A entrega das relíquias surge na sequência de uma intensa actividade diplomática entre o Vaticano e a Igreja Ortodoxa, separadas desde o Grande Cisma de 1054. Segundo o Conselho Pontifício, a ideia nasceu quando o Patriarca esteve com o Papa, a 29 de Junho deste ano, e convidou João Paulo II para uma visita a Istambul. Bartolomeu I pediu ao Papa se as relíquias destes santos poderiam regressar à Catedral de Constantinopla e este acedeu. Ao encontro seguiu uma troca de correspondência cujo resultado é a visita desta semana. “A entrega das relíquias é um sinal profundo que alenta a percorrer o caminho da unidade: Os restos mortais dos dois Santos Patriarcas de Constantinopla, que trabalharam por proteger a unidade entre o Oriente e Ocidente, venerados na sua terra de origem, acolhidos com grande honra na Igreja de Roma, que durante muitos séculos os conservou e venerou com amor, encaminham-se de novo para o Oriente, graças a um gesto de compartilhar espiritual que nutre e fortifica a comunhão entre a Sé de Roma e de Constantinopla”, explica o Dicastério da Santa Sé responsável pelo Ecumenismo. João Paulo II pediu que as relíquias fossem colocadas em duas urnas de cristal custodiadas em dois relicários de alabastro. Quando chegarem a Istambul serão depositadas em uma capela do Patriarcado e, na festividade de Santo André, serão instaladas definitivamente na igreja patriarcal de São Jorge. No regresso a Istambul, para celebrar a festa de Santo And´ré (30 de Novembro), padroeiro do Patriarcado Ecuménico, Bartolomeu I estará acompanhado por uma delegação da Santa Sé da qual fazem parte o Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos; D. Brian Farrel, Secretário do mesmo Dicastério; o Arcebispo Edmond Farhat, Núncio apostólico na Turquia; e Dom Johan J. Bonny. Os dois Santos viveram no século IV, no território que é hoje a Turquia. As relíquias de São Gregório Nazianzeno encontravam-se em Roma desde o século VIII, num mosteiro de Beneditinas, tendo sido transferidas em 1580 para uma capela na Basílica de São Pedro por iniciativa do Papa Gregório XIII. Os restos de São João Crisóstomo foram roubados há mil anos, no saque a Constantinopla, um dos momentos mais dramáticos da história nas relações entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Estas relíquias estão na capela do Santíssimo Sacramento da Basílica de São Pedro desde o século XVII. O Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, considerou a decisão de João Paulo II de devolver a Istambul as relíquias de São João Crisóstomo como um “sinal de amor fraterno” para com os cristãos do oriente. Bartolomeu I descreveu a decisão papal como “um acontecimento histórico” que contribuirá para melhorar as relações entre Ortodoxos e Católicos que pertencem “a uma Igreja indivisível”. “Rezaremos para que o Papa ilumine e dê alento aos líderes das Igrejas e proporcione às comunidades cristãs outras ocasiões de inspiração espiritual”, referiu o Patriarca. Bartolomeu I louvou também o discurso de João Paulo II em Junho deste ano, em que apresentou um pedido público de desculpas pelo ataque dos cruzados a Istambul (antiga Constantinopla), durante a cruzada de 1204. No dia 1 de Julho deste ano, o Papa e o Patriarca Ortodoxo de Constantinopla assinaram no Vaticano uma declaração comum onde assumem “a plena vontade de continuar no caminho rumo à plena comunhão entre nós, em Cristo”. Os líderes das Igrejas Católica e Ortodoxa reconhecem que é importante que os cristãos vivam entre si em paz e harmonia, tendo em vista “um testemunho mais credível e convincente do Evangelho”. Apesar dos “muitos passos positivos” que o Papa e o Patriarca de Constantinopla assinalam, a declaração comum não esconde os obstáculos que o caminho ecuménico tem encontrado desde o histórico encontro entre Paulo VI e Atenágoras I, em Jerusalém, no ano de 1964.

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