Falta de apoios compromete actividade da instituição, confrontada com os mesmos problemas de várias famílias portuguesas quando os seus filhos voltam à escola O início do ano lectivo não é fácil para a maioria das famílias portuguesas, condenadas a gastar pequenas fortunas com os novos livros e demais material escolar. A situação é comum à Fundação “Obra do Ardina”, embora neste momento todos os seus 52 residentes, que esperavam voltar ontem à escola, continuem sem saber quando é que as aulas irão, efectivamente, começar. A Obra do Ardina atravessa um período de sérias dificuldades de sobrevivência e é quase um milagre que haja capacidade de oferecer livros, roupa e material escolar a todos estas crianças e jovens, provenientes de famílias disfuncionais, órfãs e abandonadas. Alexandre Martins, responsável há mais de duas décadas pelos destinos desta instituição que apoia e acompanha crianças e jovens em risco, revela à Agência ECCLESIA que apenas “a fé e a esperança num futuro melhor nos levam a não desistir”. As dificuldades do início de ano escolar são as que conhecemos dos relatos de tantos pais de família: “temos os livros para comprar, eles não param de crescer e é precisa roupa nova – sobretudo porque os mais velhos, que não vivem escondidos e também são afectadas pela febre da roupa de marca”, refere este responsável. As despesas exorbitantes para integrar os jovens e crianças num sistema de ensino que é considerado “gratuito” não deixam indiferente quem guia os destinos da Obra do Ardina. “Os livros são caríssimos e há alguns anos que até o papel higiénico os nossos rapazes têm de levar para a escola”, aponta. Neste momento, outro dos problemas é o facto de os “meninos” estarem sem aulas desde meados de Junho, sobrecarregando a instituição, que se vê obrigada a inventar actividades para os manter ocupados. Na nossa visita foi possível encontrar muitos deles diante da TV, no computador ou simplesmente a passear, porque a espera também os satura. “Por muitas actividades que lhes ofereçamos, eles também estão fartos desta espera”, assegura Alexandre Martins. Um trabalho em equipa A Obra do Ardina necessita de uma equipa alargada de técnicos especializados para fazer face às necessidades específicas dos jovens e crianças que se lhe apresentam. Em casa há o ensino para os que apresentam dificuldades de inserção na escola. Jovens com mais de 15 anos que não foram escolarizados têm, assim, a oportunidade de acabar o 9º ano com uma formação profissional e partirem para a aventura de procurar emprego. Além dos professores, a Obra conta ainda com as educadoras de infância para os mais novos. O Estado cobre as despesas com estes profissionais, mas nos últimos dois anos o seu número passou de 20 para 5. Técnicos de Serviço Social, psicólogos, sociólogos, monitores e vigilantes asseguram um acompanhamento de 24 sobre 24 horas que emprega 97 pessoas. Uma atenção em permanência que constitui ponto de honra e que existe na instituição muito antes do recente escândalo da Casa Pia. Ebulição constante Os prédios da Rua Dr. Oliveira Ramos, em Lisboa, são antigos e enfermam dos mesmos males que tantos outros na capital portuguesas: falta de espaço, escadas íngremes e estreitas, paredes degradadas, uma manutenção caríssima e sempre necessária. Escondida entre edifícios e ruas, a Obra do Ardina parece ficar longe do coração de quem a poderia ajudar a crescer e renovar-se. “Esta localização é muito negativa, complica em muito o nosso trabalho”, refere Alexandre Martins, recordando com saudade os tempos em que a Obra funcionou na Bela Vista (1986-2000), num espaço cedido pelo Ministério da Justiça. Aproveitando o espaço de todas as maneiras possíveis, os lares possuem salas de aula, biblioteca, sala de informática, refeitório e duas empresas de inserção: a Adriferro e a Ardigráfica. Esta última está à espera de novas encomendas para rentabilizar o investimento feito. Os trabalhos em ferro e outros elaborados por voluntários estão agora expostos numa loja, no rés-do-chão de um dos lares, que merece uma visita. Crise profunda Além das 52 crianças e jovens dos 6 aos 20 anos residentes nos seus lares, às quais presta todas as valências de alimentação, saúde e formação pessoal e profissional, alarga a sua acção a cerca de 500 crianças de bairros degradados e problemáticos – como a antiga Curraleira, Picheleira, Musgueira, Intendentes-Anjos ou Chelas -, na linha da prevenção, através de actividades dos tempos livres, com acompanhamento sócio, psico-pedagógico. Face a tantos encargos, a actual situação de crise financeira põe em causa a execução de algumas actividades e, talvez, a sobrevivência da instituição. A Obra imaginada em 1942 por Monsenhor Moreira das Neves, foi concretizada por Maria Luísa Ressano Garcia e um grupo de outras mulheres noëlistas de então. Seis décadas mais tarde, o futuro destas crianças em risco continua a ser uma incógnita. “A manutenção da Obra tem custos muito elevados”, diz Alexandre Martins, acrescentando que o seu financiamento resulta exclusivamente de “protocolos estabelecidos com a Misericórdia e com a Segurança Social, que não cobrem mais de um quarto das nossas despesas e das dádivas que nos chegam essencialmente através do nosso jornal”. “As dificuldades são muitas e de toda a ordem, agravadas pela falta de apoio estatal”, assegura. Pelo que pudemos ver, o elevador está avariado – há mais de um ano -, apenas uma das três carrinhas que faz o transporte dos residentes nos lares está a funcionar e os prédios precisam urgentemente de reparações e pinturas. Os móveis não são substituídos, não há um encarregado para a manutenção dos espaços e os seus utentes, como se sabe, são irrequietos e estragam muitas das coisas que lhes saem a caminho. Com custos permanentes superiores às receitas que consegue obter, a situação financeira tem vindo a degradar-se a ponto de Alexandre Martins temer mesmo pelo seu futuro: “estamos numa situação de insolvência – só em juros e amortizações em dívida temos mais de 150 mil Euros para pagar”, esclarece. No final da conversa, fica um lamento: “as pessoas que se deparam com a Obra são generosas. Assim o Estado o fosse”.
