Henrique Pinto, director da CAIS, fala à ECCLESIA sobre as difíceis condições dos sem-abrigo no nosso país O verão chega e as faltas de estruturas de acolhimento e de solidariedade para os sem-abrigo torna ainda mais difíceis as suas condições, tantas vezes de miséria e solidão. As férias, claramente, não são para eles, os que – cada vez – mais se encontram na rua. Henrique Pinto, director da revista, assinala à ECCLESIA que o ritmo de vida dos sem-abrigo “é igual todo o ano, mas durante o período habitual de férias ainda se torna mais pesado, porque são mais votados ao abandono, a população está mais ausente”. Mesmo os habituais compradores da revista estão longe. A CAIS é uma Associação de Solidariedade Social sem fins lucrativos. Nasceu em 1994 e a sua missão situa-se no apoio à reinserção social da população sem-abrigo em Portugal. Com a publicação de uma Revista, vendida exclusivamente pelos sem-abrigo, e mais recentemente, com a Ponte Digital, a CAIS tem procurado re-introduzir no mundo das relações interpessoais e do trabalho, homens e mulheres à margem. Uma caminhada que Henrique Pinto considera gratificante e que o deixa optimista em relação ao futuro. “A população portuguesa tem vindo a ganhar uma maior consciência de que problemas como a pobreza ou a exclusão social dizem respeito a todos”, assegura. Uma revista, tantas vidas A comparação com o resto da Europa mostra que ainda há muito a fazer. A história da revista, que é a história de muitas vidas, revela que nem sempre é fácil encontrar um cais de abrigo. A CAIS cultiva a cooperação com outras Instituições de Solidariedade Social, nomeadamente com as mais vocacionadas para trabalhar com a população marginalizada. A forma mais imediata de colaboração passa pela constituição de uma rede de Centros de Distribuição da CAIS, bem como uma atenção editorial prioritária em relação às acções destas instituições. Estas Instituições fazem a selecção dos vendedores e constituem a rede de distribuição da revista. José Brites, da Associação Companheiro – uma das que faz a selecção dos vendedores -, refere à ECCLESIA que esta é uma população com características específicas. “ avaliação inclui o foro psicológico, para saber se é possível um enquadramento socio-profissional e emocional, e uma entrevista”, aponta. Cada vendedor tem direito a 20 revistas diárias: 70% do resultado da venda será seu. O número de vendedores tem aumentado, seja pela situação económica no país ou pelo fluxo migratório de Leste. Há uma consciência cada vez maior de que os sem-abrigo não são apenas homens. Cada vez mais mulheres vivem na rua, a média de idades desce vertiginosamente, como ilustra José Brites: “temos feito alguma investigação na área e iremos publicar brevemente os resultados. Nos últimos anos aumentou o número de mulheres que vendem a CAIS, também os vendedores são cada vez mais jovens e o estigma de considerar um sem-abrigo como alguém ligado a problemas com o álcool vai desaparecendo”. Há, contudo, quem faça desta vida uma opção pessoal. “Temos alguns casos nessa situação, eles querem ser sem-abrigo, é assim que se sentem bem, sempre viveram assim: temos casos de pessoas que vivem na rua desde os 8 anos de idade e não têm outros modelos de vida em família nem em sociedade”, declara José Brites. Olhando em frente O projecto CAIS tem conseguido transformar vidas, embora Henrique Pinto faça questão de vincar que “a integração destas pessoas não tem de passar obrigatoriamente e de imediato pelo trabalho e a habitação”. “Vivemos mergulhados numa economia liberal, com objectivos de lucro e riqueza, mas não basta levar estes homens e mulheres para dentro da máquina”, acrescenta. Estas formas de estar na sociedade, completamente diferente e distinta, implica um caminho de adaptação, para acompanhar e não impor. O futuro passa também pelo prémio “Manus CAIS”, uma iniciativa que tem por finalidade nomear e premiar pessoas individuais e colectivas, dos mais diversos sectores, que tenham desenvolvido, ao longo dos últimos anos, projectos de apoio e ajudas humanitárias. A intenção é que o prémio tenha uma dimensão nacional, com cobertura televisiva, já em Dezembro deste ano. “A CAIS não quer apenas curar feridas, mas também tem apostado na reflexão, no debate de ideias, para ser mais interventiva na sociedade onde está”, afirma. A ideia é combater o preconceito em relação aos sem-abrigo, fazendo ver que a relação com eles “melhora a nossa vida”. Em jeito de conclusão, Henrique Pinto lembra aos portugueses que partem de férias que “ninguém pode viver sem afectos e todos poderão viver melhor se forem amadas”. O projecto CAIS pode ser conhecido em www.cais.pt
