Missionários descrevem o drama do Darfur

«Não se consegue entender como um conflito local entre agricultores e pastores se tenha transformado no decorrer de um ano num genocídio contra a população civil» Os números da crise humanitária no Darfur, província do Sudão ocidental, espantam mesmo o leitor mais desprevenido: mais de 1 milhão e 200 mil pessoas foram forçadas a abandonar os seus lares e estão espalhadas por um território duas vezes superior ao de França, segundo a Caritas Internationalis. A organização católica assinala que uma em cada pessoa está subnutrida na região, número que poderá subir para uma em cada duas já em Outubro, segundo as previsões da ONU. As Nações Unidas estimam que mesmo que a ajuda internacional seja imediatamente entregue, 300 mil pessoas estão em risco de morte. “Não se consegue entender como um conflito local entre agricultores e pastores, semelhante a tantos outros em todo o mundo, se tenha transformado no decorrer de um ano num genocídio contra a população civil. Como pode um governo combater tão duramente o seu próprio povo?”, pergunta-se o Pe. João Batista Antonini, missionário Comboniano com uma longa experiência no Sudão, comentando para agência do Vaticano para as missões, a Fides, o conflito no Darfur. “Darfur sempre foi uma região paupérrima, privada de recursos e infra-estrutura”, explica. Os habitantes da região, os Fur (de onde vem o nome “Darfur”, que em árabe significa “Casa dos Fur”) são principalmente agricultores. Com o passar dos anos, assentaram em Darfur outras populações, na maioria pastores árabes provenientes de diferentes partes do Sudão. Periodicamente deflagravam-se, entre os agricultores Fur e pastores estrangeiros, lutas pela água e a divisão das poucas terras férteis. Hoje em dia, além das tensões étnicas, existe um conflito político muito sério: “Os Fur sempre acusaram o governo central de ignorar a sua região, negando-lhes os meios para se desenvolverem”, diz Pe. Antonini. “Não existem hospitais, estradas. Nasceram, então, dois movimentos de guerrilha em oposição ao governo: não tenho condições de dizer quem está a financiar estes movimentos. É verdade, contudo, que as armas são de fácil acesso na região desde quando terminou a guerra civil no vizinho Chade, nos primeiros anos da década de ‘90’, diz o missionário. A reacção do governo em resposta à rebelião do Darfur foi feroz. Manipulou-se o conflito latente entre agricultores e pastores, transformando-o numa guerra aberta. “Os pastores árabes foram organizados na milícia suicida ‘Janjaweed’ que com o apoio dos helicópteros e dos aviões do exército regular, ataca de modo sistemático as vilas das populações que se supõe apoiam a rebelião”, acusa o Comboniano. “Um dos problemas mais profundos do Sudão é derivado da diferença das populações periféricas nas fronteiras das etnias do Vale do Nilo, que sempre têm governado o país. Mudam os regimes e ideologias, mas no fim de contas, a classe dirigente sai sempre destas etnias”, lamenta. No sul do Darfur, 100 pessoas estão a morrer a cada dia que passa, pelo que as organizações cristãs de assistência e solidariedade Action by Churches together International (ACT) e Caritas Internationalis uniram forças numa resposta ecuménica conjunta à actual emergência humanitária. As duas organizações, de carácter confessional, representam as igrejas protestante, ortodoxa e católica, bem como organismos vinculados às mesmas em todo o mundo. A missão conjunta denomina-se “Resposta de Emergência Darfur ACT/Caritas” (ACDER). A ACDER lançou um apelo internacional para juntar cerca de 18 milhões de dólares, de modo a poder assistir mais de 500 mil pessoas que vivem perto das suas aldeias destruídas. Para saber mais • A Guerra no Sudão

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