É uma das ‘características mais marcantes da Igreja em Portugal’ e precisa de maior “unidade e eficácia operativa”. Com esse objectivo foi elaborado um Plano, que o Presidente da Comissão Episcopal das Missões aqui apresenta Agência Ecclesia – O Simpósio sobre a Missionação, “Diálogo, Testemunho e Profecia – para uma Missão Ad Gentes no III Milénio” é um sinal de que a Igreja Católica está à procura de respostas para renovar a vida missionária em Portugal? D. Manuel Quintas – A realização deste Simpósio pretende proporcionar uma reflexão sobre a Missionação, nas suas diversas dimensões (bíblica, teológica, espiritual, histórica, pastoral…) tendo em conta as vertentes do diálogo, do testemunho e da profecia. Dirige-se, particularmente, a quantos na Igreja em Portugal, têm uma responsabilidade directa ou indirecta, no serviço de animação mis-sionária: Directores diocesanos das OMP, Reitores de Seminários, Párocos, Professores de EMRC e de Teologia, membros dos Institutos Missionários, responsáveis dos diferentes movimentos e associações eclesiais… O objectivo principal prende-se, necessariamente, com a sensibilização de todos, com vista a promover e a estimular a vida missionária da Igreja em Portugal. AE – Nesse sentido, foi elaborado um plano de actividades de cariz missionário para a Igreja em Portugal, que já foi apresentado à Conferência Episcopal Portuguesa. Que espera do mesmo? MQ – Este plano foi proposto pelo Conselho Nacional das Missões, órgão que procura congregar as iniciativas no âmbito da animação missionária, de modo a conseguir-se maior unidade e eficácia operativa. Esperamos contribuir para dar um renovado impulso àquela que é uma das características mais marcantes da Igreja em Portugal, a sua acção mis-sionária. Na Redemptoris missio o Papa refere que é preciso inverter a tendência negativa, verificada em muitas partes, traduzida num certo afrouxamento da missão específica ad gentes. Esta situação deve-se a dificuldades de vária ordem que enfraquecem o dinamismo missionário da Igreja. O impulso missionário foi sempre, na vida da Igreja, sinal da sua vitalidade e da sua renovação, do revigoramento da sua fé e da sua identidade, proporcionando-lhe um novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece! (cf RM 2). AE – A Igreja Católica foi desafiada por João Paulo II a renovar o compromisso missionário, que o Papa classificou como uma “urgência” na mensagem para o próximo Dia Mundial das Missões. Esse sentido de urgência está presente na nossa Igreja? MQ – A “urgência” do anúncio tem a sua origem já nas recomendações que Jesus faz aos seus discípulos, quando os envia a anunciar o Evangelho (Lc 10,3ss). Urgência repetida ao longo dos tempos e renovada pelo Papa João Paulo II, mais que uma vez. Diria que o “anúncio” do Evangelho é tão essencial na vida da Igreja e de cada cristão, que não pode ser realizado senão de modo urgente e permanente. À urgência podemos chamar também “ardor”, “entusiasmo”, “audácia”… “santidade”. O Evangelho, entregue à Igreja e por ela assimilado, deve ser anunciado e testemunhado de modo permanente. É esta a vocação da Igreja em todos os tempos e lugares. Certamente que, hoje, como em todos os tempos, essa “urgência” constitui um desafio permanente para a Igreja, na fidelidade ao mandato que Jesus lhe confiou. AE – Começam a surgir na Igreja Católica, em Portugal, novas formas de missão, que passam por projectos de volunta-riado de alguns meses ou anos. É um sinal de esperança ou de medo do compromisso definitivo? MQ – É sem dúvida, em meu entender, um sinal de esperança, que pode também constituir, para alguns, um caminho de compromisso definitivo. Nunca será demais salientar a importância destas experiências, na sensibi-lização e no “despertar” para o anúncio do Evangelho, tanto para os que nelas participam como para as suas Dioceses e Paróquias, quando são devidamente envolvidas na sua preparação e concre-tização. De facto, são beneficiadas não só as Igrejas que acolhem estas “novas formas de missão”, mas também as Igrejas que enviam. AE – Portugal ainda tem muitos missionários em todo o mundo, apesar da propalada “crise de vocações”. Pode-se dizer que continuamos fiéis à nossa vocação missionária? MQ – A missão ad gentes constituiu e continua a constituir, sem dúvida, umas das características mais marcantes da história da Igreja em Portugal, concretizada nos muitos missionários portugueses presentes em tantas partes do mundo. É evidente que, atendendo à necessidade de anunciar o Evangelho a uma parte, cada vez maior, da população humana, o número de missionários revela-se profundamente insuficiente. A diminuição do número de presbíteros e consagrados, motivada pela “crise de vocações”, não deveria constituir um impedimento para que as Igrejas particulares não assumam a realização desta exigência da Igreja universal. AE – Faz sentido pensar que os tradicionais países de missão passarão a missionadores? É legítimo esperar que a Europa (com Portugal) seja, rapidamente, terra de missão para católicos do resto do mundo? MQ – Penso que isso não constitui novidade para ninguém. Portugal vai, gradualmente, incluindo-se no grupo daqueles países europeus tradicionalmente cristãos, nos quais a par duma nova evange-lização se requer, em determinados casos, a primeira evangelização, que poderá também vir a ser realizada por “missionários” oriundos de países evangelizados por nós. Aliás, eles já estão presentes em algumas das nossas dioceses. Como refere o Papa, mesmo no “velho” continente existem extensas áreas sociais e culturais, onde se torna necessária uma verdadeira e própria missio ad gentes (cf RM 37).
