Pe. Tolentino Mendonça fala em «crise da expressão cultural da Fé» O Pe. José Tolentino Mendonça, secretário da Comissão Episcopal da Cultura, defende que a Igreja Católica em Portugal precisa de um projecto cultural. Para este responsável, conhecido pela sua contribuição para a vida cultural portuguesa, é necessário “afrontar seriamente a dramática questão da tradução cultural da experiência cristã” e “recuperar o valor central da mediação entre Fé e Cultura”. “Integrada na crise mais geral da transmissão da Cultura, a hodierna crise da expressão cultural da Fé pede uma capacidade de leitura interpretativa da realidade do mundo, atravessada por transformações múltiplas, diversificadas e aceleradas” pode ler-se no editorial do nº2 da publicação “Observatório da Cultura”, disponível também on-line (www.ecclesia.pt/cec). Vincando que na nossa sociedade democrática e plural, a Igreja é desafiada a apresentar a sua proposta cultural, o “padre poeta” afirma que “há que pensar a relação Fé e Cultura não para suscitar, em regime de substituição, uma cultura dita cristã, mas para comprometer os cristãos numa interacção criativa entre os conteúdos essenciais da Fé e as características mais salientes da cultura contemporânea”. O alerta do Pe. Tolentino Mendonça serve para percebermos que o desafio maior com que o catolicismo hoje se debate é, mais do que na acção externa da Igreja, a crise da linguagem religiosa: que palavras, formas, gestos podem hoje dizer Deus de um modo plausível? Jean-Marie Tillard, teólogo católico, defende que a presente geração é a última testemunha de um certo modo de ser cristão. Na nossa sociedade, a Fé não mais se transmitirá pelas veias da assimilação a um determinado contexto sócio-cultural. Como diz o poeta Tolentino, “a perenidade da Mensagem sempre dialogou com a historicidade dos contextos epocais em que o anúncio se desenrola” e mesmo quando estes constituiram um horizonte de problematização “sempre foram olhados como lugar necessário ao dizer da própria Fé”.
