Situação das famílias portuguesas preocupa a Igreja Católica

Novo documento procura respostas da Igreja para casos «não-canónicos», como os segundos casamentos D. José Policarpo abordou ontem em Fátima o conteúdo do futuro documento da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) sobre a família, não escondendo as preocupações, nomeadamente quanto à sua situação na actual sociedade portuguesa. Falando no final dos trabalhos da assembleia plenária do episcopado, que decorreu em desde segunda-feira, o presidente da CEP adiantou que esta aprovou, na generalidade, o documento “A Família, esperança da Igreja e do mundo”, que será divulgado depois de introduzidos alguns aperfeiçoamentos. O texto é considerado como uma tomada de posição que vem na sequência do Congresso Nacional da Família, em 2002 (www.ecclesia.pt/congressofamilia). “É um documento que apareceu como muito ambicioso, à partida, e é longo. Esse é aliás um dos problemas que colocámos, porventura será depois ‘trocado por miúdos’ com coisas mais pequeninas”, adiantou o Cardeal-Patriarca. A redacção final será reanalisada pelo Conselho Permanente da CEP (a próxima reunião tem lugar a 11 de Maio) e sabe-se desde já que há uma parte do documento que os Bispos consideram “particularmente delicada”, relativa às respostas pastorais da Igreja para as famílias que vivem situações difíceis ou “não-canónicas”. Citou, como exemplos, os segundos casamentos, as famílias monoparentais ou as que integram pessoas deficientes no seu seio. “Há uma busca, dentro dos parâmetros das orientações do Santo Padre e da Santa Sé, porque essa gente espera uma resposta nossa. Essa matéria voltará aos Bispos para eles darem um parecer sobre o texto e penso que dentro de um mês isso estará feito”, revelou. A propósito da situação fiscal de muitas famílias – que, em alguns casos, pagam mais impostos do que os divorciados – o Patriarca referiu que “a fiscalidade é um dos aspectos de um problema mais vasto: em Portugal, fala-se muito da família, há alguns gestos pontuais, mas o nosso país nunca teve uma política unificada da família.” “A família é uma realidade multi-departamental e é urgente haver uma real política de promoção da família de apoio à família”, acrescenta. D. José Policarpo contou ainda ter tido uma conversa recente com um responsável governamental, que lhe confessou não ser possível atender as reclamações dos pais em relação aos custos de produtos associados a bebés, como o leite ou as fraldas. E, falando em concreto das famílias numerosas, afirmou que, num contexto em que o Ocidente tem “na baixa natalidade um problema crucial de subsistência”, essas famílias “merecem um apoio privilegiado”. Vocações Apesar das preocupações sobre a “carência” de vocações ao sacerdócio, o presidente da CEP não está pessimista quanto ao futuro da Igreja. “Nós estamos a notar um aumento de quantidade e diria mesmo um aumento de qualidade, na medida em que a maior parte das vocações é minimamente dependente daquilo que era o desejo pessoal de uma pessoa e é, fundamentalmente, a resposta a um chamamento que lhe é feito no quadro de um aprofundamento, de um amor à igreja”, assegurou. Embora reconhecesse que as estatísticas não são o mais importante, o presidente da CEP disse que o panorama, em Portugal, “não está mal, comparado com outros países embora se registe uma situação de “carência”, cujo reverso é a evolução positiva” que tem havido no número de ordenações de padres. Nas suas declarações, D. José Policarpo afastou os cenários mais pessimistas, negando que a Igreja estivesse “em fim de estação”. O Cardeal justificou a sua posição com o aumento de ordenações no Patriarcado de Lisboa realçando que, hoje, “há padres novos que nos chegam da Índia, da Colômbia e do México”. E porque a igreja é universal, D. José Policarpo entende que esta questão vai muito além da realidade portuguesa. “A Igreja não é só Portugal, não é só Ocidente, hoje a Igreja tem um fenómeno de partilha de vocações. Temos de ver o problema na sua globalidade”, acrescentou. De acordo com o Secretariado Geral da Conferência Episcopal Portuguesa (Anuário Católico de Portugal 2003), o nosso país conta com 9.404.000 católicos para um total de sacerdotes que ronda os 4.300. A relação é, assim, de 1 sacerdote para cada 2.200 católicos. Apesar desta situação, a esmagadora maioria das paróquias é administrada pastoralmente por sacerdotes (4.322) e apenas perto de 40 (0,9%) são administradas por diáconos, religiosas e leigos. No mundo a proporção de sacerdotes para cada católico é de 1 para cada 2.600. A ligeira subida registada ultimamente no clero diocesano é contrabalançada pela queda vertiginosa no número de sacerdotes religiosos. D. José Policarpo alertou para o facto de o problema das vocações “dever ser visto na globalidade, porque a questão está longe de se circunscrever a Portugal e ao mundo ocidental”. O Cardeal Patriarca dá até a conhecer um dado “que merece a pena reflectir: hoje há mais vocações masculinas do que femininas”. O número de diáconos permanentes tem subido, ao contrário do número de religiosas, cujo número de vocações está a baixar. O Diaconado permanente foi outra das realidades abordadas, com o Patriarca a adiantar que só em Lisboa serão ordenados 13 diáconos permanentes, embora admita que esta é uma realidade “cuja restauração (com o Concílio Vaticano II, ndr) tem sido implementada lentamente, já que foi muito o tempo em que este ministérios desapareceu”. O Concílio Vaticano II abriu o caminho para restaurar este ministério como “grau próprio e permanente da hierarquia”, permitindo que possa ser conferido a homens em idade madura, já casados. Com a carta apostólica “Sacrum diaconatus ordinem” de 1967, o Papa Paulo VI estabeleceu as indicações conciliares, criando as regras gerais para a Igreja Latina. No ano 2001 em todo o mundo, havia 28.626 diáconos permanentes diocesanos e 578 diáconos permanentes religiosos, segundo o Anuário Estatístico da Igreja. Os dados da Conferência Episcopal Portuguesa referem, para esse mesmo ano, 125 diáconos permanentes no nosso país. Para saber mais • Jubileu dos Diáconos Permanentes

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